quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Microproblema

Fotografia de Marianna Vysotskaya 



Si le sumo mi soledad a la tuya
qué es lo que obtengo a cambio
¿Dos soledades o ninguna?
Ajo





quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O segredo da púrpura

Daqui


Acabei agora de comer
um campo de tulipas
Não sei o que fazer
com tanta beleza nas tripas
Jorge Sousa Braga


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

A sandália nova branca com dedos

Fotografia de Megan Doherty

a sandália nova branca com dedos
que se refestelam do lado de fora
como crianças que sabem o verão que vem
de repente a chuva mingua os planos
da calça jeans com sandália de dedos
uma combinação entre-estações
para não se sentir nem tão lá nem tão
cá os dedos curvados corcundas
como crianças tristes que sabem
o toró que se aproxima as unhas recém-cortadas
que planejaram se mostrar sobre a cadeira de rodinhas
que nada a água inundou a sexta
da janela os bambus se movem muito
chegam a parecer desesperados
as folhas penduradas são cabelos colados
que gritam novas rugas onde nada havia
Alice Sant'Anna



segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Violência urbana (#32)

No excepcional Carmo'81

Fotografia Olho de Gato

O vento

Fotografia Olho de Gato


Eu já estou morto, mas tu vives,
Vives ainda, e vem o vento,
Que geme e chora, balouçar
Todas as árvores da floresta,
Todas as árvores a um tempo,
Todo o infinito da lonjura,
Como aos veleiros ancorados
Nas águas calmas da baía,
E não é pura diversão,
Nem por furor nem por capricho,
Mas para dar ao teu desgosto
Essa canção de que precisas.
Boris Pasternak
Trad.: David Mourão-Ferreira


domingo, 10 de dezembro de 2017

Declaración



Pero de nada sirvieron, ya ves,
amor mío, estos años tan largos
de propósitos serios y tercas promesas,
si vienes tú ahora y te metes en casa
y ocupas el tiempo como
si hubieras estado aquí desde siempre.
Bien sé que por ello
tendré que pagar a los hombres
el tributo que sólo a los dioses se paga.
Berta Piñán



sábado, 9 de dezembro de 2017

Não há almoços grátis — por JB*

* Comentário de ontem de JB no post "Familismo, boyismo"



Editada a partir daqui
Muito me custa escrever estas linhas.

Mas a perspectiva republicana da “causa pública” é treta.
Não há almoços grátis e tudo é negócio!
Triste realidade.

E como não hão-de os cidadãos olhar de soslaio os políticos? Como não há-de aumentar o número de abstencionistas? Nada que me deixe deleitado, pelo contrário, pois sem participação não há democracia.

Mas, quando este negócio tem a chancela da transparente, imaculada e cândida Helena Roseta, como querem que eu acredite nos políticos?

Pins, pah!




JB

"And Now For Something Completely Different" (#172)

Dabke (em árabe دبکة) é uma dança popular do Oriente Médio. 
O dabke é a dança folclórica da Palestina, do Líbano e Síria.

Uma das expressões artísticas mais importantes entre os árabes é a dança, na qual o dabke é o mais característico. Isso é acompanhado de coreografias complexas, danças de grupo, pisadas de pés (ou dabke), aplausos e gritos. Ela é tradicionalmente dançada durante a primavera, estação chuvosa e em casamentos na época da colheita. O dabke é uma dança jovem que requer energia e força, que assume a forma de um semicírculo, geralmente entre 6 e 15 dançarinos. Às vezes, há um líder entre eles, chamado "Al-Lawah", que deve ser uma pessoa engraçada e encantadora. (+)













Muito "corrompido"




Por qué las brújulas no funcionan en el interior y cómo adivinar hacia dónde se dirige la aguja desde la mirada

Fotografia de Wim Wenders 



Tratamos de perseguir sus movimientos
pero el final de cada trazo
era vivido como un fracaso total en la búsqueda de la figura.

¿Será la eternidad esquiva –nos preguntamos escépticos– lo que se oculta tras el color de nuestros actos?

(Y a todos nos pareció entonces que habíamos iniciado un camino
pero al encender la luz
encontramos de nuevo el muro en blanco).
Sandra Santana


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Familismo, boyismo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Para além do fenómeno do familismo — pujante no concelho de Viseu como vimos aqui na semana passada —, há outra disfunção do poder local a que se dá pouca atenção: o aliciamento das oposições. Quando um presidente da câmara não tem maioria ou não quer chatices raramente precisa de dar pelouros a mais do que um vereador da “oposição”. Este, depois, encarrega-se de domesticar o seu grupo parlamentar na assembleia municipal.

É por isso que era muito mais transparente não misturar “situação” e “oposição” numa câmara. Os executivos deviam resultar de maiorias coerentes na assembleia municipal, assumidas por um partido ou por uma coligação. E o presidente da câmara devia poder escolher e substituir a sua equipa de vereadores como entendesse.

Claro que tudo isto implicava termos assembleias municipais com mais poderes de escrutínio e com o poder de derrubar os governos municipais.


Daqui


2. O forrobodó que a assembleia municipal de Lisboa, presidida por Helena Roseta, acaba de aprovar por unanimidade só é entendível no quadro de aliciamento das oposições.

Os lisboetas vão pagar mais de um milhão e duzentos mil euros por ano em boys e girls para todos os grupos parlamentares. Cada assessor vai afinfar 3752,50 euros mais IVA, cada secretária 2802,50 euros mais IVA. Por exemplo: só os boys veg do partido mais pequeno, o PAN, vão custar mais de 7000 euros por mês aos alfacinhas.

Esta cadeia alimentar — que já vem do tempo em que o então mayor António Costa estava em minoria — foi conhecida agora com algum estrépito nos jornais. O dirigente do PSD, José Eduardo Martins, acrescentou um pormenor delicioso: há deputados municipais com tanta flexibilidade vertebral que... conseguem contratar-se a si próprios como assessores.

No que veio a público não há referência a laços de parentesco desta malta. Tenhamos esperança que algum jornalista garimpe essas conexões familiares e indague se elas influenciam, ou não, a atribuição de casinhas municipais.

Barracão

Rocinha RJ, Fotografia de David Sidhom


Vai, barracão
Pendurado no morro
E pedindo socorro
A cidade a seus pés
Vai, barracão
Tua voz eu escuto
Não te esqueço um minuto
Porque sei
Que tu és
Barracão de zinco
Tradição do meu país
Barracão de zinco
Pobretão, infeliz
Vai, barracão
Pendurado no morro
E pedindo socorro
A cidade
A seus pés
Vai, barracão
Tua voz eu escuto
Não te esqueço um minuto
Porque sei
Que tu és
Barracão de zinco
Tradição do meu país
Barracão de zinco
Pobretão, infeliz
Barracão de zinco
Barracão de zinco

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Atocha*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 7 de Dezembro de 2007

1. Madrid. Chega-se ao Memorial de Atocha através da estação. Uma sala azul, grande, redonda. A luz entra por uma cúpula de vidro. Onze metros de altura de vidro. 11M. No vidro, uma espiral de mensagens. Eis uma delas, só uma: “Maldita mochila maldita por siempre”. 2004. 11 de Março. 191 mortos. 2050 feridos. Mochilas de morte. Malditas.




A lavagem aos cérebros dos futuros mártires nunca pára nas madrassas do Paquistão e nas madrassas electrónicas dos sites fundamentalistas. Um dos países europeus em que esses sites são mais acedidos é Espanha. Milhares de câmaras de vídeo filmam, agora, todas as ruas de Madrid.

2. Merece ser conhecida a defesa que a psicóloga Wafa Sultan tem feito dos valores de uma sociedade aberta e laica. Pode ser vista a sua coragem e desassombro, a falar em árabe para árabes, na Al Jazeera. Basta pesquisar o seu nome no YouTube.

Deixo aqui algumas das suas ideias: “O choque que se vê no mundo é um choque entre uma mentalidade que pertence aos tempos medievais e uma mentalidade que pertence ao séc. XXI; é um choque entre aqueles que tratam as mulheres como animais e aqueles que as tratam como seres humanos.
Eu não sou uma cristã, uma muçulmana ou uma judia. Sou um ser humano laico. Não creio no sobrenatural mas respeito o direito dos outros em acreditar.
Não vimos nem um só judeu a fazer-se explodir num restaurante alemão.
Os muçulmanos transformaram três estátuas de Buda em cascalho. Não vimos nem um só budista a queimar uma mesquita, matar um muçulmano ou incendiar uma embaixada.
Só os muçulmanos defendem as suas crenças a queimar igrejas. Isto não vai dar resultado nenhum.”

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“O choque que se vê no mundo não é um choque entre civilizações, é um choque entre dois opostos, um choque entre duas eras, um choque entre uma mentalidade que pertence aos tempos medievais e uma mentalidade que pertence ao Séc. XXI, é um choque entre a civilização e o retrocesso, entre o civilizado e o primitivo, entre a barbárie e a racionalidade, entre a liberdade e a opressão, entre a democracia e a ditadura, é um choque entre os direitos do homem de um lado e a violação desses direitos do outro, é um choque entre aqueles que tratam as mulheres como animais e aqueles que as tratam como seres humanos. O que vemos hoje não é um choque de civilizações. As civilizações não se agridem, elas rivalizam.
Os muçulmanos é que iniciaram o choque de civilizações. O profeta do Islão disse: “Eu recebi a ordem de combater as gentes até elas acreditarem em Alá e no seu mensageiro.” Quando os muçulmanos dividem os povos entre muçulmanos e não muçulmanos, e apelam ao combate até que os outros partilhem das suas crenças, eles declararam este choque, eles começaram esta guerra. Para acabar esta guerra, eles devem reexaminar os seus textos e os seus planos islâmicos, que estão cheios de apelos ao takfir (acusações de descrença)
(…)
Qual a civilização da superfície da terra que se permite chamar os outros por nomes que eles não escolheram para si próprios?
Quem vos disse que eles são a “gente do livro”?
Eles não são gente de um só livro. Eles são gente de muitos livros. Todos os livros científicos que vocês têm são deles, fruto do pensamento livre e criativo.
Quem vos deu o direito de chamá-los “aqueles que incorrem na ira de Alá” e depois virem aqui dizer que a vossa religião vos ordena de vos abster de ofender as crenças dos outros?
Eu não sou uma cristã, uma muçulmana ou uma judia. Sou um ser humano laico. Não creio no sobrenatural mas respeito o direito dos outros em acreditar.
Irmão, tu podes acreditar em pedras [referência aos rituais mécquois [ver http://fr.wikipedia.org/wiki/Abu_Sufyan_ibn_Harb] desde que não me atires com elas. Mas as crenças dos outros não te dizem respeito. Que creiam que o Messias é Deus, filho de Maria. Deixa as pessoas ter as suas crenças.
Os Judeus saíram da tragédia, [o holocausto] e fizeram com que o mundo os respeitasse através do seu conhecimento e não através do terror, através do seu trabalho e não através das lamentações e dos gritos.
A humanidade deve a maior parte das descobertas científicas do séc. XIX e XX a cientistas judeus.
Quinze milhões de pessoas espalhadas pelo mundo uniram-se e asseguraram os seus direitos através do seu trabalho e do seu conhecimento.
Não vimos nem um só judeu a fazer-se explodir num restaurante alemão.
Não vimos nem um só judeu destruir uma igreja.
Não vimos nem um só judeu a protestar matando pessoas.
Os muçulmanos transformaram três estátuas de Buda em cascalho.
Não vimos nem um só budista a queimar uma mesquita, matar um muçulmano ou incendiar uma embaixada.
Só os muçulmanos defendem as suas crenças a queimar igrejas.
Isto não vai dar resultado nenhum.
Os muçulmanos devem perguntar-se o que podem fazer pela humanidade antes de exigirem que a humanidade os respeite.”