quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Na cama

Fotografia de Louis Stettner


quando me chego não percebes
que nada me deixa dormir
senão a proximidade do teu corpo
numa lenta água de barragem
que se encalha como um navio
sobre ondas cada vez maiores
que se fazem da inquietação
de um calor que se orvalha
entre cada pedaço que te toca
ah e pedir-te pedir-te até à exaustão
uma noite repetidamente lenta
Sofia Crespo


terça-feira, 19 de setembro de 2017

Le blouse du dentiste

Daqui


Ce matin là en me levant
J'avais bien mal aux dents
Oh oh la la
J' sors de chez moi et j'fonce en pleurant
Chez un nommé Durand Mm Mm
Qu'est dentiste de son état
Et qui pourra m'arranger ça
La salle d'attente est bourrée de gens
Et pendant que j'attends
Oh oh la la
Sur un brancard passe un mec tout blanc
Porté par deux mastards Mm Mm
Je m'lève déjà pour fout' le camp
Mais l'infirmier dit: Au suivant!
Je suis debout devant le dentiste
Je lui fais un sourire de crétin
I'm'pouss' dans l'fauteuil et me crie:
En piste il a des tenailles à la main
Oh oh oh oh Maman
J'ai les guiboll's en fromag' blanc

Avant même que j'ai pu faire ouf
Il m'fait déjà sauter trois dents
En moins d'un' plombe
Mes pauvres molaires sont r'tournées
Dans leur tombe
Oh oh la la
Voilà qui m'plombe mes deux plus bell's dents
Cell's que j'ai par devant Mm Mm
I'm grill' la gueul' au chalumeau
Et il me file un bon verre d'eau
Il me dit faut régler votre dette
Je venais d'être payé la veille
Ce salaud me fauche tout mon oseille
Et me refile cinquante ball' net
Oh oh oh oh maman
Et il ajoute en rigolant
J'suis pas dentist' je suis pomblier
Entre voisins faut s'entr'aider oh oh
Et moi je gueul' ce soir
Le blouse du dentiste dans le noir.
Boris Vian






segunda-feira, 18 de setembro de 2017

não quero saber nada de ti

De Katie Dunkle — daqui



não quero saber nada de ti
se lês Bukowski ou telecomandas a chata box
se suspiras por um jantar veg
ou uma viagem na Rynair com couchsurf incluído
não quero saber nada
de ti
A. Khimm

domingo, 17 de setembro de 2017

Carta aberta ao meu gastrenterologista *

* Carta aberta escrita há exactamente treze anos, num dia de muita azia e empaturramento em que — também eu enquanto vereador na câmara municipal de Viseu — fui vítima do dr. Miguel Relvas.
Na altura, esta carta foi publicada e/ou referenciada em vários media locais e nacionais.


Viseu, 17 de Setembro de 2003

Meu caro doutor:

O seu trabalho e especialidade, caro amigo, é melhorar as digestões das pessoas e eu sei que hoje vou ter uma digestão difícil. É por isso que lhe estou a escrever esta carta. Acabo de engolir um sapo dos grandes numa Sessão da Câmara Municipal de Viseu.
Acabo de votar a favor da Grande Área Metropolitana de Viseu (GAMV). Desde que sejam respeitados os parceiros, devo dizer-lhe que sou a favor que Viseu assuma com naturalidade a liderança desta região. Não sou a favor é deste tipo de Associações de Municípios.
Parece complicado, doutor, mas eu explico: preferia que a Assembleia da República não tivesse aprovado estas coisas. Estando previstas na Lei, claro que Viseu deve ter iniciativa política neste assunto.
Como lhe disse, sou o mais possível contra as Leis 10/2003 e 11/2003, ambas de 13 de Maio, dia de Nossa Senhora de Fátima, e que criaram as Grandes Áreas Metropolitanas (GAMs), as Comunidades Urbanas (CUs) e as Comunidades Intermunicipais (CIs).
É que, como sabe, esta regionalização do PSD é feita ao contrário: em vez de ser o Estado Central a passar poder para mais perto dos cidadãos, as GAMs, as CUs e as CIs vão tirar poder aos municípios e subtrair-se do controle democrático dos cidadãos.
Julguei que já tinha visto tudo em matéria de desprestígio da democracia mas enganei-me. Há sempre gente a querer piorar ainda mais as coisas. O governo quer destruir o único poder que verdadeiramente responde aos cidadãos e é respeitado por estes: o poder local. É isso que me causa azia.
As GAMs, as CUs e as CIs têm défice democrático. Tudo vai ser decidido em negociatas de bastidores entre Presidentes da Câmara. É assim que está previsto na lei. Vai ser um processo sem nenhuma transparência. Os cidadãos não vão ser tidos nem achados. Não votam. Nunca. Só cá estarão para, no fim, pagarem a factura.
A Direcção Nacional do PS andou mal ao ter deixado passar esta coisa, ao ter deixado andar para a frente este processo político que está a ser feito com o objectivo cirúrgico de acabar com o que resta do PS autárquico.

Penso que os Presidentes da Câmara socialistas que não forem seus clientes, caro doutor, vão redobrar o consumo de Alka Seltzer e de Água das Pedras, e vão engolir este sapo para poderem vir a ter eventuais contratos programas com a Administração Central. É esta a chantagem que lhes é feita pelo governo.
A organização administrativa e política de Portugal vai ficar com mais uma camada de gordura.
No projecto de regionalização socialista, que foi chumbado em referendo, em 1998, estava previsto acabarem-se com as CCRs e os distritos. Agora mantém-se tudo. É “tudo ao monte e fé em Deus”.
Daqui a uns anos, um empreendedor, por exemplo o doutor se quiser abrir uma Clínica, para além de meter um seu projecto na Câmara, na CCR e na tutela, vai ter ainda que contar com mais um sítio para meter papelada: a sua GAM ou CU.
Vão ser mais jobs for the boys. Mais burocracia.
Ninguém fala em referendo a esta coisa. Nem em referendos locais. Ninguém quer ouvir os cidadãos. Eles que comam e calem. Sapos são para os autarcas socialistas.
Vejamos mais de perto, senhor doutor, a Grande Área Metropolitana de Viseu que se prefigura no horizonte.
Que coerência, que sentido, que unidade, que metrópole é esta que pretende ir dos lameiros de Penedono às encostas onde se apascentam os rebanhos que dão o Queijo da Serra? Será tudo uma carneirada? Anda tudo doido? Não há sentido do ridículo? Quem é que se quer enganar para se chegar aos 350 000 habitantes? A GAM de Viseu vai criar um sistema de transportes coerente? Um sistema de lixos? Uma organização escolar? Há algum denominador comum a estes mais de trinta concelhos que possa dar um projecto intermunicipal? Um que seja?
Dá para ver o filme que se segue. Vão entreter a malta agora com as GAMs, as CUs e as CIs. Vão dar-nos um Big Brother: quem se junta a quem, que câmara com que câmara. Com que arrufos, com que ameaças de divórcio, aproximações e afastamentos de bigode. E vão encher páginas e páginas de jornal com este nada de coisa nenhuma, para entreter o pagode e gastar os nossos impostos e dar emprego aos boys. O que não é mau atendendo ao desemprego que para aí vai...
Saiba, caro doutor, que ao escrever o parágrafo anterior a minha digestão do sapo começou a correr melhor. É bom pensar em empregos. Não é bom é ser neste contexto.
Como sabe, caro doutor, o deputado socialista João Cravinho chamou a isto uma garotada. Foi o único socialista que se ouviu. O Secretário de Estado Miguel Relvas, o pai desta ideia e destas leis, queixou-se do tom de João Cravinho.
Eu antevejo futuro ao Dr. Relvas. Depois do ducentésimo trigésimo sexto Contrato Programa que foi assinar a Tondela, Miguel Relvas ainda chega a ministro. Ministro do pior governo de Portugal depois do 25 de Abril.
Que governo é este que se dá ao luxo de desperdiçar fundos comunitários que são aproveitados por Espanha e quer criar mais despesa pública desta forma?
Que governo é este que vende o património do estado ao desbarato e patrocina esta punção ao Orçamento?
Receba, caro doutor, um abraço deste autarca agora - depois da sua paciência - já menos empaturrado.

Joaquim Alexandre Rodrigues

A furtiva alegria



Acumulo
retratos desfocados
viagens dispersas danos
moratórias

Mas também a ciência animal
de lamber as feridas, a furtiva alegria
a caminho da noite para matar
a sede na corrente.
Inês Lourenço


sábado, 16 de setembro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#161)

Let me handle my business, damn

Fotografia de Marco Antonio Cruz


Took me awhile to learn the good words
make the rain on my window grown
and sexy now I’m in the tub holding down
that on-sale Bordeaux pretending
to be well adjusted I am on that real
jazz shit sometimes I run the streets
sometimes they run me I’m the body
of the queen of my hood filled up
with bad wine bad drugs mu shu pork
sick beats what more can I say to you
I open my stylish legs I get my swagger
back let men with gold teeth bow to my tits
and the blisters on my feet I become electric
I’m a patch of grass the stringy roots
you call home or sister if you want
I could scratch your eyes make hip-hop die again
I’m on that grown woman shit before I break
the bottle’s neck I pour a little out: I am fallen
Morgan Parker

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Jardins Efémeros*

* Publicado hoje no Jornal do Centro



1. Está quase a acabar o Verão das festas e dos festivais. Há que fazer os necessários balanços.
Fotografia Olho de Gato,
post Magritte nos Jardins Efemeros, 9-7-2017

À sétima edição, Viseu teve a primeira grande impaciência com os Jardins Efémeros (JE). As pessoas não perceberam a oliveira colocada em frente da estátua de D. Duarte e acharam incipientes os tijolos que foram lá postos a deslado. De facto, aqueles tijolos não tinham ponta por onde se lhe pegasse, mas importa não deitar fora a criança com a água do banho.


Num ensaio de 1981, George Steiner lembra que "um poema reservado para a academia e para o 'explicador' é tão mudo quanto um 'Stradivarius' fechado na estante hermética de um museu."

Os JE têm tratado bem da necessidade de um objecto artístico não ficar hermetizado na academia (entendida como grupo iniciado nos códigos e nos ritos das missas artísticas). Os JE têm um bom currículo na criação de canais para que as artes cheguem ao grande público. O problema é que a peça da oliveira precisava mesmo de um "explicador". Haver essa necessidade já foi mau. Não ter havido um "explicador" conciso e claro piorou as coisas. Daí a impaciência que foi visível na cidade.

2. Depois dos dois anos iniciais a ganharem experiência, os Jardins Efémeros tiveram duas edições dedicadas aos problemas da cidade: em 2013, o ano em que o festival foi mais original e interessante, foi a intervenção na Rua Direita de cima a baixo; em 2014, foi o vinho do Dão. Os dois anos seguintes foram de espuma dos dias: em 2015, os JE viraram-se para os problemas da dívida (o We Are Not a Loan, o OXI grego); em 2016, a "Europa" e as tensões soberanistas.

Este ano, os JE já não tiveram subtexto interventivo nenhum. As suas ideias "socioculturais" perderam o "socio".

Os JE já não tratam, tão pouco, de Viseu. São agora, e só, um excelente festival de artes experimentais, que, ao se ter desterritorializado, criou excepcionais e merecidas condições de exportação.

Em todo o acaso

Hypatia, por Dan Quintana 




Remancha, poeta,
Remancha e desmancha
O teu belo plano
De escrever p’la certa.

Não há «p’la certa», poeta!

Mas em todo o acaso acerta
Nem que seja a um verso por ano…
Alexandre O'Neill



quinta-feira, 14 de setembro de 2017

17 – X - 2003*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 14 de Setembro de 2007


1. Entra amanhã em vigor o novo Código de Processo Penal que proíbe a divulgação de escutas telefónicas, sem a autorização dos visados, mesmo que essas escutas já não estejam em segredo de justiça.


É caso para perguntar: porquê esta dureza do legislador?


Daqui
Talvez seja bom lembrar o que aconteceu em 17 de Outubro de 2003, um dos dias mais negros da história do jornalismo português. Nesse dia, foi tornada pública uma frase dita ao telemóvel por Ferro Rodrigues. A frase escolhida cirurgicamente foi: «Estou-me a cagar para o segredo de justiça.» Quase todos os “fazedores de opinião” criticaram duramente as palavras de Ferro Rodrigues; poucos condenaram a sua divulgação.

Eram os tempos do caso Casa Pia. Contra a histeria justicialista que se vivia nos media, ouviu-se, na altura, a voz corajosa de Miguel Sousa Tavares (MST). Na TVI, teve um diálogo bem vivo com Manuela Moura Guedes (MMG):

MST: «Estava eu a dizer que o meu primeiro trabalho, quando saí da faculdade, foi na Comissão de Extinção da Pide, onde tive ocasião de folhear muitos processos que a Pide tinha instruído aos antigos resistentes…»

MMG: «Ó Miguel, por amor de Deus, não vais comparar o que agora vivemos com a Pide!»

MST: «Não vou comparar porque há uma diferença grande: é que as escutas da Pide não apareciam nos jornais e agora aparecem...»

A conversa continuou azeda. Miguel Sousa Tavares foi firme a explicar que não é nas televisões nem nos jornais que se fazem julgamentos.

Por princípio, um telefonema é entre duas pessoas. E só entre elas.

2. O acesso ao Hotel Ibis, em Viseu, está um desleixo total. Sinalização, piso, envolvente, tudo de meter medo ao susto.

A Câmara Municipal e a Junta de Freguesia do Campo andam muito distraídas.

As pontes não são o rio

Daqui


As pontes não são o rio.
As casas existem nas margens coalhadas.
Herberto Helder