sexta-feira, 27 de abril de 2018

A Terra la de cyma

Fotografia de Greg Rakozy

MOTTE:
Astronautas acham lindo ver a Terra la de cyma.


GLOSA:
Disse que era azul a cor
do planeta quem primeiro
descreveu este fuleiro
grão de pó, visto si for
desde o espaço. Faz favor!
Marron, cinza, quem se anima
a dizer que um ar ou clima
não estamos polluindo?
Astronautas acham lindo
ver a Terra la de cyma.
Glauco Mattoso




quinta-feira, 26 de abril de 2018

Poema quotidiano

Fotografia Olho de Gato

É tão depressa noite neste bairro
Nenhum outro porém senhor administrador
goza de tão eficiente serviço de sol
Ainda não há muito ele parecia
domiciliado e residente ao fim da rua
O senhor não calcula todo o dia
que festa de luz proporcionou a todos
Nunca vi e já tenho os meus anos
lavar a gente as mãos no sol como hoje
Donas de casa vieram encher de sol
cântaros alguidares e mais vasos domésticos
Nunca em tantos pés
assim humildemente brilhou
Orientou diz-se até os olhos das crianças
para a escola e pôs reflexos novos
nas míseras vidraças lá do fundo

Há quem diga que o sol foi longe demais
Algum dos pobres desta freguesia
apanhou-o na faca misturou-o no pão
Chegaram a tratá-lo por vizinho
Por este andar... Foi uma autêntica loucura
O astro-rei tornado acessível a todos
ele que ninguém habitualmente saudava
Sempre o mesmo indiferente
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados
Íamos vínhamos entrávamos não víamos
aquela persistência rubra. Ousaria
alguém deixar um só daqueles raios
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?

Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro
Ruy Belo















quarta-feira, 25 de abril de 2018

Dar o salto*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 25 de Abril de 2008
    
1. No Centro Cultural de Belém está patente a Exposição “Gérald Bloncourt, Por uma vida melhor”, dedicada à vida dos portugueses que emigraram para a França, na década de 60.
     
Quando tinha 20 anos, o fotógrafo Gérald Bloncourt foi expulso do seu país, o Haiti, e teve que se exilar. Por isso, percebeu sempre bem o sofrimento de quem tem que ganhar a vida num país estrangeiro.
    
Foi o caso de muitos emigrantes portugueses que foram atirados para as “bidonvilles”, literalmente, “cidades de bidões”. 

Gérald Bloncourt retratou essa gente em fotografias magníficas.

     
2. Muitos ex-emigrantes, com quem nos cruzamos hoje nas ruas de Viseu, foram uns autênticos heróis.
     
Emigrar implicava muitas vezes ter que vender as últimas terras, ou ficar endividado, e partir para um país desconhecido com uma língua estranha. Quando não havia documentos, as fronteiras eram atravessadas a pé. Nos Pirinéus era particularmente duro e perigoso. Chamava-se a esta aventura “dar o salto”. E “dar o salto” significava ficar exposto aos abutres porque, quando há pessoas em perigo, há sempre abutres. 

 
    
Nesta Exposição do CCB pode ver-se um documentário de 2002, de José Vieira, que se chama A Fotografia Rasgada, em que os emigrantes, ao contarem as suas vidas, contam também como pagavam aos “passadores”, os homens que sabiam os truques para “dar o salto”.
     
O emigrante rasgava ao meio uma fotografia sua. Ficava com uma parte e dava a outra ao “passador”. Quando, finalmente, o nosso emigrante chegava a França, enviava para cá, numa carta, a sua metade da fotografia. Só então é que a família, depois de completar o puzzle com as duas partes da fotografia, pagava ao “passador”.

O poder


1.
Um herói
À mesura
Da sua estatura
Vai sempre à procura
Ond' inda ninguém foi
Um herói
Não descura
Um ou outro dói-dói
Uma dura aventura
Não mata mas mói
Caso venha a ser preciso
Arriscar qualquer coisinha
Na operação
Um herói no seu juízo
Leva sempre uma pilinha
Em cada mão
Com a cobertura da instituição
Mais aquilo do Deus-Pátria-Canhão
Um herói nunca se corta
Meio olho-vivo, meio mão-morta
A porta
Não importa

Poder
Quem o tem, tem ascendente
Poder
Quem o tem, faz-se valente
Bem usado
Mal usado
O poder é prepotente
Assim
Diz o povo amiúde
Assim
Herói era toda a gente
Mais val' rico e com saúde
Do que pobre e doente


2.
Um herói
Façanhudo
É de tudo capaz
Faz ao peixe miúdo
O que mais ninguém faz
Um herói
Catrapás
Salta dos quadradinhos
Puxa os cordelinhos
E eles vêm atrás
Com algum equipamento
Assegura a quadratura
Da operação
E o simbólico instrumento
É uma armadura dura
Em cada mão
Um herói é o garante, o bastão
Dessa coisa do Deus-Pátria-Canhão
Nunca teme, nunca se corta
Come peixinhos da horta
Mulher morta
Não aborta


Poder
Quem o tem, tem ascendente
Poder
Quem o tem, faz-se valente
Bem usado
Mal usado
O poder é prepotente
Assim
Diz o povo amiúde
Assim
Herói era toda a gente
Mais val' rico e com saúde
Do que pobre e doente
José Mário Branco



terça-feira, 24 de abril de 2018

Frustração

Fotografia Olho de Gato

Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.
Miguel Torga


segunda-feira, 23 de abril de 2018

Los adioses




Hubiera podido obsequiarte
aquel cine donde vimos
Notting Hill y American Beauty.

Hubiera querido regalarte los hoteles donde nos escondimos
Me hubiera gustado ser el dueño del café en que nos despedimos
Donde escuchamos tantas canciones que hoy son un soundtrack de nuestras vidas.

Y fui ventana donde se estrellaron pájaros
Y el sol me calentó como campanas de bronce de una gótica catedral
Como ángeles que buscan en los escombros restos de su vuelo
Y la luz más allá del paraíso.

Y no hubo obsequios
Y puse el cielo sobre tu cuerpo y lo volviste viento
Y puse el viento sobre tus ojos y lo volviste sueño
Puse sueño en tu silencio
Y lo volviste noche
Y esta noche no hay cielo, viento y sueño
Que conviertan mi corazón
En una luz donde retorne el amor.

Y es por este amor lejano y verdadero
Que las palabras tienen música sobre el papel que nadie canta
Como quien golpea durante horas una casa vacía
Como quien patea latas vacías en el corazón.
Federico Díaz-Granados


domingo, 22 de abril de 2018

Violência urbana (#36)


Gif Olho de Gato

Somewhere i have never travelled, gladly beyond

Daqui

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands”
E.E. Cummings


sábado, 21 de abril de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#191)


A uva sem caroço

Daqui

Que mistério, pra mim, a uva sem caroço
Uma espécie de carne sem osso
Um tipo incomum de estrutura
Destituída da sua parte dura

Que mistério, pra mim, mais saboroso
O facto de uma uva sem caroço
Pois, afinal, de que galho, de que semente
Se falta à fruta justo a sua semente?


sexta-feira, 20 de abril de 2018

Para lamentações*

* Hoje no Jornal do Centro

O título deste Olho de Gato assume o nada original jogo de palavras: a nossa vida parlamentar é para lamentar.

Cada vez há mais berbicachos com o fim do mês dos deputados. São sarilhos e mais sarilhos que a comissão de “ética” do parlamento e os visados tentam remendar com o costumeiro: “não houve incumprimento da lei”. Desta dupla negativa não sai nada de positivo para a casa da democracia que devia ser a primeira dar o exemplo.

Há uns anos, Inês de Medeiros, eleita por Lisboa, só não pôs o parlamento a pagar-lhe os bilhetes semanais de avião para Paris porque houve um escarcéu danado. Casos de deputados com casinha em Lisboa mas que dão uma morada no círculo por onde foram eleitos são mais do que as mães. O último — apanhado literalmente na casa da mãezinha — foi Feliciano Barreiras Duarte. Mas há mais.


Fotografia de Pedro Nunes
Lusa (daqui)
O Expresso divulgou o extraordinário caso de oito deputados, o poderoso Carlos César incluído, todos eleitos pelas ilhas, que, além de abicharem quinhentos euros por semana para deslocações, ajuntam em cima deste pecúlio o valor dos bilhetes de avião.

Um dos apanhados, o deputado Paulino Ascensão, confessou ter tido uma “prática incorreta” (rima com “forreta”, mas a culpa é do acordês com que escreveu o comunicado). E o bloquista, “após reflexão”, diz que desforreta o dinheiro indevidamente recebido para o entregar a instituições sociais da Madeira. E comunica que renuncia ao lugar.

Mal li este comunicado, elogiei o homem nas redes sociais e mandei uma ferroada em Carlos César. A ferroada foi justa, o panegírico, uma precipitação. Elogiar esta gente é uma imprudência. Afinal o bloquista, lá na sua prosa, absteve-se de referir que já tinha previsto sair de Lisboa para ir para um lugar político no Funchal. Afinal, como tinha sido apanhado com a boca na botija, tinha só antecipado a saída.

Vamos lá ver, agora, se o bloco deixa o Paulino Ascensão ascender ao lugar que lhe tinha reservado na Madeira.

Fábrica do poema

Fotografia de John Noonan



sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa palavra por
palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das britas
e leite das pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.

sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão-chave é:
…..sob que máscara retornará o recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até a escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
onde já se encontra escrito
que a palavra “recalcado” é uma expressão
por demais definida, de sintomatologia cerrada:
assim numa operação de supressão mágica
vou rasurá-la daqui do poema.)

pois a questão-chave é:
…..sob que máscara retornará?
Waly Salomão