segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Do not go gentle into that good night — Não entres docilmente nessa noite serena

Interstellar, de Christopher Nolan (2014)

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.


Não entres docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis acções ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E os loucos que colheram e cantaram o voo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.

Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia a luz que começa a morrer.
Dylan Thomas
Tradução: Fernando Guimarães










domingo, 22 de outubro de 2017

Arte de amar

Não consegui achar autoria (daqui)

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Manuel Bandeira



sábado, 21 de outubro de 2017

Evocação de uma beldade

Mural de Jillian Evelyn


porque terá a rola de chorar
ao sorrir da leve boca da manhã?
ela canta e bebe em seu afã
lágrimas de um coração a palpitar.

uma moça que a formosura visitou
ser a própria beleza acreditou
ou então sua amiga e companheira.

pelo olhar, é corça amedrontada
e, pelo colo, gazela intimidada
no deserto, de insólita maneira.

seu dorso, c'o salgueiro parecido,
é fonte de desejo ataviada
é canto de rola dolorido.

a boca é flor branca assediada
pelo rubro escuro dos seus lábios.
não a provar é falta condenada
por aqueles todos que são sábios.

traz-me tão inquieto esta donzela (...)
de olhar fatal! é tão frágil ela
como caule das folhas despojado.

a página do seu rosto delicado
vai alterada em terno vestido
que de rosas e chamas é urdido.

é aí que suas mechas de cabelo,
como escorpiões em atropelo,
são vistas pelos olhos do amante.

a brisa quis o sopro: num instante
no vento sul vogaram docemente
até à flama de um desejo ardente.
Ibn 'Ammâr al-Andalusî
Tradução de Adalberto Alves


"And Now For Something Completely Different" (#166)


Negros Hábitos (Entre tinieblas), de Pedro Almodóvar, 1983

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Inferno*

* Publicado hoje no Jornal do Centro

1. No início desta semana, o inferno dos incêndios invadiu outra vez o país e, pela primeira vez este ano, atacou também com violência o distrito de Viseu. De uma forma nunca vista, varreu floresta, casas, empresas e, desgraçadamente, vidas.

Durante toda a segunda-feira, uma boa parte do distrito esteve coberta por nuvens de fumo. Uma atmosfera espessa, com cinza e fonas a pairar, irrespirável, pesava no peito das pessoas, com ou sem máscaras compradas à pressa nas farmácias.

2. Tudo o que ouvi, li e vi converge para a seguinte constatação: perante esta situação, o estado foi, ao mesmo tempo, impotente e ausente.

“Ninguém apareceu, nem um guarda, nem um bombeiro, nem um funcionário, nada, ninguém apareceu, fomos nós com os nosso tractores, com as nossas bombas, com as nossas ferramentas, fomos nós que nunca desistimos nem de noite nem de dia, fomos nós que parámos o fogo e não o deixámos entrar na nossa freguesia”, disse-me, ao fim da tarde de segunda-feira, um “pró-activo” e “resiliente” contribuinte, pagador do salário daquela senhora que, naquele desgraçado dia, ainda era a ministra que tutelava a protecção civil.

3. Os incêndios estão cada vez mais violentos, já não são um exclusivo florestal (invadem cada vez mais as povoações, cidades incluídas) e já não são um exclusivo do verão (acontecem na primavera, como em Pedrógão Grande, avançam pelo outono como este).

4. Tanto quisemos pôr o estado a dar-nos o céu que ele agora não consegue evitar-nos o inferno.

Ora, da sua felicidade tratam as pessoas, a primeira função do estado é evitar-lhes o inferno.

5. Como o primeiro-ministro não foi capaz, teve que ser o presidente da república a demitir a ministra e a pedir desculpa pelas vidas ceifadas.

António Costa tem agora que dissipar uma dúvida no espírito dos portugueses — é homem para os tempos difíceis ou só para os tempos fáceis?

Abandonos

Fotografia de Cílio Correia



Deixei um livro
num banco de jardim:
um despropósito

Mas não foi por acaso
que lá deixei o livro, embora o sol estivesse quase
a pôr-se, e o mar que não se via do jardim
brilhasse mais

Porque a terra, de facto, era terra interior,
e não havia mar, mas só planície,
e à minha frente: um tempo de sorriso
a desenhar-se em lume,
e o mar que não se via (como dizia atrás)
era um caso tão sério, e ao mesmo tempo
de uma tal leveza, que o livro:
só ideia

Essa sim, por acaso, surgida num comboio
e nem sequer foi minha, mas de alguém
que muito gentilmente ma cedeu,
e criticando os tempos, mais tornados
que ventos, pouco livres

E ela surgiu, gratuita,
pura ideia,
dizendo que estes tempos exigiam assim:
um livro abandonado
num banco de jardim

E assim se fez,
entre o comboio cruzando este papel
impróprio para livro,
e o tempo do sorriso

(que aqui, nem de propósito,
existe mesmo, juro, e o lume de que falo mais acima,
o mar que não se vê, nem com mais nada rima,
e o banco de jardim,
onde desejo ter deixado o livro,
mas só se avista no poema, e livre,
horizontal
daqui)
Ana Luísa Amaral



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Anúncio publicitário

De Alexey Lobur (daqui)



Procura-se companheira/o
para relacionamento poético sério.
Apenas se exige que saiba dizer
que o surrealismo é coisa para
ter morrido no século XX.
David Teles Pereira




quarta-feira, 18 de outubro de 2017

"Há que cerrar fileiras, este país tem FUTURO!" — diz JB

* Comentário de JB ao post Dois casamentos e uma renovação de votos

Renovação de votos?
Não, Obrigado!
Não casei (votei) com Costa, nem com Marcelo!

Mas, há coisas que não podemos “abafar” dentro de nós…

Desde domingo (15 Outubro) que todos, todos mesmo (até porque somos um país de primos), ouvimos, contactámos ou tomámos café com amigos de Nelas, Carregal do Sal, familiares de Tondela ou Vouzela ou conhecidos de Oliveira de Frades. TODOS contam estórias de pânico, rapidez das chamas e destruição.
Os que se deslocavam na A25; os que iam na camioneta do Sr Eduardo, no IP3; os que perderam o emprego; os que tiveram que fugir de casa; os que quase ficaram presos na A25; os que….

Face a este (2º) dilúvio de fogo o desamparado e confuso povo, que respostas políticas teve?
Um Costa tecnocrático, distante e político.
Um Marcelo afectuoso, acutilante e manhoso.

Não renovo os meus votos com ambos, pois ambos têm agendas, projectos muito diferentes das que gostaria de ver implementadas.
Mas constatamos que a Geringonça faz mesmo comichão! O vómito de ódio à diferença, que passa nas tv´s, é incontornável. Portugal só pode ser governado à direita, pela direita ou por quem inequivocamente faça uma política de direita. Quem defender outras soluções, não pode governar!
Desligo o aparelho!

Costa gere a situação muito mal. Há um certo ar de “auto-convencimento”…

Marcelo sabe que os argumentos emocionais podem resultar. Distante de ambos, não posso deixar de dizer que Marcelo foi o “chefe político” que o povo gostaria de ter ouvido. Acutilante com a classe política (como se ele fosse distante…), com o governo e prometendo mudanças (eleições antecipadas?). Eu sei que é sempre de má política elogiar alguém da direita, seja o que for que esse alguém tenha feito, porque breve virá o dia em que esse elogio fica desmentido pelo comportamento do elogiado.

Marcelo é manhoso ao dar apoio e força a uma direita, que se reorganiza, tentando projectá-la para um patamar político que ela não está em condições de alcançar.
O “menino” cresceu e o “Guerreiro Adolescente” apresenta-se com apoio de Marcelo?

No fim, não posso deixar de recomendar este site/entrevista com Viriato Soromenho Marques, que muito tem escrito e meditado sobre a CIDADANIA!
"Aparente apatia" dos portugueses pode transformar-se numa "revolta eloquente"


Há que cerrar fileiras, este país tem FUTURO!





A sua coragem salvou muitas vidas de jovens do concelho de Viseu.
Bem-Haja!



JB

Dois casamentos e uma renovação de votos

Aviso à navegação:
isto não é o Mistério das Vozes Búlgaras a invadir o plateau de um filme de Peter Greenaway




Depois de dois anos de preparação, em 23 e 24 de Maio de 2011, Sarah Small apresentou este quadro vivo com 120 participantes no Skylight One Hanson (Brooklyn, NY).

Partindo das suas raízes na fotografia, Sarah explora aqui um fenómeno social específico: o ritual do casamento, a celebração pública da união mais íntima entre dois indivíduos. 


Sarah Small celebra dois casamentos e uma renovação de votos.


terça-feira, 17 de outubro de 2017

Esse quieto vapor do mundo

Fotografia de Mario Cravo Neto

Estar demasiado
suspenso
sobre a luz
dos objectos
e cravar
no próprio pescoço
os dedos insuficientes
para juntar
uma concha
e trazer à boca
abundante
esse quieto vapor
do mundo.
Vasco Gato


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Animais domésticos

Pintura de Njideka Akunyili Crosby


Não cedas ao quarto com ela. Não
dês nome ao
perfume. Deixa-a cuidar sozinha da
íntima
idade dela. Vai tu
encantar a mais nova. Conta
um conto à miúda. Acata a
meia hora como
se fosse um instante.
Hoje é
a própria noite que
apela ao murmúrio. Conheces
como ela tarda no desvelo
de te ter. Mas
não
lhe meças tu
sedas. Não acertes tu o lume. Quando
menos estás à espera a
maçã que já trincaste vai
saber de
novo a
sumo.
João Luís Barreto Guimarães


domingo, 15 de outubro de 2017

Diário

Fotografia de Brett Walker

A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.
Ana Salomé