segunda-feira, 24 de abril de 2017

Amor como em casa

O Barbeiro (The Man Who Wasn't There)de Ethan e Joel Cohen (2001)



Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina


domingo, 23 de abril de 2017

Menina

2046, de Kar-Wai Wong (2004) 

Tudo gira e eu renasço menina
vestido curto na alma de dentro…
Elisa Lucinda



sexta-feira, 21 de abril de 2017

Uma coisa tipo bazófia*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

1. A campanha publicitária que pôs Viseu a pedir meças a Florença, a Barcelona, à Suíça, à Islândia, e ao diabo a quatro, deu origem a algum bruaá nas televisões e nas redes sociais. Luís Pedro Nunes, no “Irritações” da SIC Radical, gozou o nada “humilde” marqueteiro, chamou-o “Leonardo da Vinci”, enquanto Carla Hilário Quevedo, no mesmo programa, disse achar graça àquilo porque era “uma coisa tipo bazófia”.



Termos a cidade gozada por causa duma fatelice publicitária deixou furioso o director do Expresso, o viseense Pedro Santos Guerreiro, que, no seu Facebook, disparou: “É pá, Luís Pedro Nunes, estou-me nas tintas para o anúncio, nem sequer gosto da campanha e acho que fazerem uma campanha da Câmara neste momento não é indiferente a haver autárquicas este ano. Mas gozares com Viseu faz de mim um Viking”.

Este caso, mais uma vez, faz lembrar uma lei de bronze: as diásporas são, por norma, mais radicais e entricheiradas na defesa da sua terra natal do que quem não emigrou. Radicado em Lisboa, o “viking” Pedro Santos Guerreiro explodiu como ninguém por cá.

2. Depois destes estragos, a Viseu Marca sentiu necessidade de fazer um comunicado em que concede: “(...) não temos uma Broadway, mas damos espectáculo. (...) não estamos em Bordéus, mas os vinhos do Dão são um milagre.”

Esta resposta da Viseu Marca a Luís Pedro Nunes e ao programa “Irritações” foi também uma resposta encapotada a Pedro Santos Guerreiro, embora sem o nomear, mas isso não tem grande importância.

Importante é que, por causa deste tropeção, foi necessária esta manobra de controlo de danos. Importante é que continua sem solução um problema já aqui levantado no Olho de Gato: quem controla e escrutina a Viseu Marca e o seu gestor Jorge Sobrado? É que este, apesar de não eleito, tem mais poder do que os vereadores e ultimamente, como se viu no Teatro Viriato e agora nesta bazófia, anda com tendência para a asneira.

Mentira

Daqui


Menina, me conte uma mentira.
Suas mentiras suaves e delicadas
Adornam a minha vida
Stefano Nardi

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Nothing

Fotografia de Friedrich Seidenstücker


Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um pára-brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipóias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel’s check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.
Patricia Galvão (Pagu)


quarta-feira, 19 de abril de 2017

«Sim»

Fotografia Olho de Gato


E perguntei-te se também morrias.
E tu disseste: «Sim».
E eu disse-te: «Que vai ser de mim?»
E tu disseste que nesse momento já seria crescido.
E eu disse-te: «Não vejo a relação».
E tu disseste que sim, que havia uma relação.
E eu disse: «Bom».
E tu disseste que todos nós tínhamos de morrer.
E eu perguntei-te se para sempre.
E tu respondeste : «Sim».
E eu disse-te: «Então, e o céu como é?»
E tu disseste que isso era depois.

Sim.

E eu disse que havia de levar-te flores.
E tu perguntaste-me: «Quando?»
E eu respondi: «Quando morreres».
E tu fizeste: «Ah!»
E eu disse que havia de levar-te flores, e disse também: «Papoilas».
E tu disseste-me que era melhor não pensar nisso.
E eu disse-te: «Porquê?»
E tu disseste-me: «Porque sim».
E eu disse: «Bom». E depois perguntei-te se nos íamos encontrar no céu mais tarde.
E tu respondeste-me: «Sim».
E eu disse: «Ainda bem».

Sim.

E depois perguntei-te quem a tinha inventado.
E tu disseste: «Inventado o quê?»
E eu disse: «Essa história da morte».
E tu disseste: «Ninguém».
E eu disse: «E o resto?»
E tu disseste: «Qual resto?»
E eu disse: «Essa história do céu».
E tu disseste: «Ninguém».
E eu disse-te: «É boa». E disse-te ainda: «Pois». E depois disse-te: «Quando morreres, faço da tua barriga um tambor».
E tu disseste-me: «Isso não se diz».
E eu disse-te: «É pecado?»
E tu disseste: «Não».
Fernando Arrabal


terça-feira, 18 de abril de 2017

Uma história para crianças




Fazes o silêncio dos lilases que esvoaçam
na minha tragédia do vento no coração.
Fizeste da minha vida uma história para crianças
onde naufrágios e mortes
são pretextos de cerimónias adoráveis.
Alejandra Pizarnik


segunda-feira, 17 de abril de 2017

O presente do futuro

Daqui

Plotino disse que há três tempos, e os três são o presente
- Um é o presente atual, o momento em que falo. Quer dizer, o momento em que falei, porque esse momento já pertence ao passado.
A seguir, há o outro, que é o presente do passado e que se chama memória.
E o outro, o presente do futuro, que vem a ser aquilo imaginado por nossa esperança ou por nosso medo.
Jorge Luis Borges



domingo, 16 de abril de 2017

16 de Abril, um minuto antes das três da tarde



16 de Abril

Um minuto antes da três da tarde

Tu estás comigo

Por tua causa, vou lembrar este minuto

A partir de agora, somos amigos de um minuto

Isto é um facto que tu não podes negar

Porque é passado

Days of Being Wild
by Wong Kar-Wai (1990)

Poetry: How Does It Feel Now

Fotografia de Jheyda McGarrell


Love, love mmm...
I told y'all
We would be the band to play it.

My ghetto butterfly flew away from me.
I wait patiently, by windows and doorsteps.
Play, make believe, as my tears, poor chest,
won't succeed to breathe, if not to hear of you.

Surely there has never been a shade so blue.
A stank attitude, so not mad at you.
Not a magnitude to encompass the latitude
of my love for you.
No space and time compatible.

Wat do I have to do? What do I have to do?
Uh... my friends say I got it bad for you.
I do. But there's nothing in this world I'd rather do,
but you.

I want to make love to your existence,
drenched in the colors of your energy,
then masturbate to the memories.
I wanna lose myself inside yourself
Until you find me. Confine me,
to the freedom of your prison.
Exist in the same space, same time.
Combine until your thoughts slow grind with mine
Combine until your thoughts slow grind with mine
Combine until your thoughts slow grind with mine

My, I wanna drink the sweat of your intellect,
reflect, and watch your light passion walk my neck.
Caress the sights of your presence with no question,
undress to the nakedness of love, pure love.
I want to make love to my soulmate... my soulmate...
make love to my soulmate... my soulmate...
make love to my soulmate, uh shit...
I wonder, how does it feel to make love to your soulmate.
Kind of like writing poetry till climax,
till the point and place where space and time match.
Can we cross the line, perhaps tell me would you like that.
Now would you like that, tell me would you like that,
would you like that, tell me would you like that,
would you like that, tell me?

I'm gonna ask you again now, tell me..
Would you like that, tell me would you like that,
now would you like that, tell me would you like that,
would you like that, tell me..

I wanna love you more than madly.
Wrap these legs around your words,
until your speech is straddled deep, gladly.
Swim the currents of your vibrations,
be separate in one
with the same meditation...
Uh the same meditation...

Uh you know what..
This, right here is poetry...

Enjoy... Ualy, play that saxophone right now!

[Sax solo]

If love..
If love had a sound
this would be that sound.
And we,
well we,
We would be the band to play it.
Akua Naru