sábado, 24 de fevereiro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#183)

O boato


Idilio

"Hilas e as Ninfas", de John William Waterhouse (1896)


Dice la dama: «El frío ya no hiere mi cuerpo.
Llega una primavera que no funde la nieve
ni licúa los ríos. Primavera de brazos
y músculos y sables y dentelladas dulces.
Bajo un cálido sueño masculino me olvido.
Y en mi olvido se olvidan mis doncellas y el mundo,
lo que fui y lo que soy, mi nombre y sus aristas.»

Él: «Comienza en tus ojos un combate sin tregua.
Vencida, eres el fuego. Victoriosa, la llama.
Nunca el crimen sagrado me pareció tan bello.»
Luis Alberto de Cuenca


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Carlos Santiago*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. O escritor, dramaturgo e músico Carlos Santiago nasceu em Santiago de Compostela, mas é tão da Galiza como da nossa região, onde vem com muita frequência.

A sua peça “Tráfico”, que passou na Acert há um ano, foi o melhor espectáculo de teatro que subiu aos palcos do distrito em 2017. Em Maio fez um excelente monólogo em Viseu, na inauguração da galeria CAOS, mesmo atrás da Sé.


2. Na noite de sábado do carnaval deste ano, numa bela praça da sua cidade natal, Carlos, ataviado como o seu homónimo apóstolo Santiago, fez o mui aguardado “Pregón de Entroido”. Como é um soliloquista de eleição com décadas de experiência, ele pregoou coisas mui conformes com a liberdade desbundosa do carnaval.

Fotografia daqui


O jornal El Correo Gallego não esteve lá mas pôs um “jornalista” que assina com pseudónimo a contar tudo. À sua maneira. Emprenhou pelas orelhas com uns anónimos e contou o caso. À sua maneira.

Que o monologuista “fue muy duro” e fez “críticas muy groseras”.

Que o pregoeiro, com voz cheia de testosterona, aludira aos “huevos” de Santiago. Se foi aos próprios não foi gabarolice, Carlos é e sempre foi homem com eles no sítio, se foi aos do apóstolo, foi parábola, diria eu que não estive lá e, portanto, sei tanto como o “jornalista”.

Que, escreveu ainda a criatura que ninguém sabe quem é, “Carlos Santiago parece haber ido un poco más allá para, según denunciaron algunos de los presentes, rozar la grosería y la desvergüenza.”

Este artigo saiu da cloaca no dia 13. A seguir, viralizou. Outros jornais ecoaram a “notícia”, as sub-caves dos comentários online escorreram ódio, as redes sociais, como de costume, pegaram fogo.

Entretanto, o alcaide de Santiago, encomendador do pregão, e Carlos Santiago, o pregoeiro, já foram ameaçados de morte. E já apareceu uma associação de “abogados cristianos” que os quer levar a tribunal.

Vivemos tempos negros para a liberdade de expressão. Os identitarismos estão cada vez mais intolerantes e já nem as tréguas de carnaval respeitam.

Os poemas que escrevo

Fotografia de Kristopher Roller



Os poemas que escrevo
são moinhos
que andam ao contrário
as águas que moem
os moinhos
que andam ao contrário
são as águas passadas
Adília Lopes


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Melancolia*

* Publicado há exactamente dez anos, em 22 de Fevereiro de 2008

1. “Ai daqueles que se põem a percorrer o caminho por onde foram felizes!”. Paulo Portas tem sentido isso agora na pele. Neste seu regresso à liderança do CDS, ainda não teve um minuto de sossego. Da primeira vez, nos anos 90, tudo lhe foi mais fácil. Há uns tempos, num e-mail, escrevi um texto sobre essa “primeira vez” de Paulo Portas que adapto agora para aqui:

A sequência mais cinemática da política portuguesa aconteceu num Congresso do CDS. Ainda era primeiro-ministro António Guterres, patrão agora de Angelina Jolie.

Os "trabalhos" a decorrerem. Trabalhos, sim!: os congressistas trabalham, não dizem mal uns dos outros nas costas uns dos outros, nem discutem futebol, nem namordiscam... Os “trabalhos” decorriam. Ainda era Manuel Monteiro ao centro, na mesa principal.

De súbito, irrompem aplausos no fundo da sala. O povo do CDS vira a cabeça. Sorrisos no ar. Cenhos franzidos nas elites. Palmas. Metronicamente, Ele entra. Ele. O Messias. Paulo Portas, saudado pela sala em pé, caminha enérgico a olhar para Manuel Monteiro.

A turba agita-se. As televisões seguem a cena. Paulo Portas mais próximo. A sala paroxiza-se. As meninas jotas ruborescem. As madames têm princípios de delíquios. Os cabos de votos do Minho acenam que sim com a cabeça.

Paulo chega à mesa. Aperta energicamente a mão a Manuel. 
Fotografia de Fernando Veludo para o Público
No tempo de um aperto de mão, Paulo “é”, Manuel “era”. A política à Paulo Portas foi, então, naquele momento, bíblica.

2. Dez anos depois, já não há instantes assim. Caiu em cima da política portuguesa, e não só na de Paulo Portas, uma melancolia de sobreiros abatidos por obra e graça do Espírito Santo.

Amavisse

Fotografia de Roy DeCarava



Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
Hilda Hilst


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A rábula do dentro e do fora*

* O texto que se segue foi escrito em comentário no Facebook há exactamente dois anos a que acrescentei agora o terceiro parágrafo; aplica-se por inteiro ao PS no concelho de Viseu (onde sou militante com as cotas em dia) e ao Sporting (de que sou só simpatizante sofredor)



Imagem achada no FB de que se perdeu a autoria

Há uma esquizofrenia nos aparelhos cada vez menos operativa — a rábula do "cá dentro" e do "lá fora".

Esta rábula é cada vez menos operativa porque começa a faltar paciência às pessoas menos próximas dos rebanhos.

Essa rábula é típica dos partidos mas não só: vejam-se os muros que o autoritário e incompetente Bruno de Carvalho está a tentar criar entre um "dentro" e um "fora" do Sporting.

As "famiglias" que controlam os aparelhos levantam esse bisnau — dizem "lá dentro" que se deve falar "cá dentro" (expressão típica de aparelho) mas nunca se deve falar "lá fora" (expressão típica de aparelho).

E ostracizam quem fala "lá fora" (quer tenha ou não avisado "lá dentro"). E odeiam e invejam quem tem voz "lá fora".

Normalmente as "famiglias" já nem tentam falar "lá fora" onde ninguém os ouve.

Esta esquizofrenia serve, acima de tudo, para quê?

Resposta simples: para evitar escrutínio "lá dentro", qualquer que seja a merda feita "lá dentro".

As coisas nunca se consertam "lá dentro", embora haja, depois, um concerto afinadinho "cá fora" para desvalorizar ou disfarçar a malcheirosice "lá dentro".

Então, cheirando mal "lá dentro" e não sendo possível abrir as janelas para o "lá fora" arejar o "cá dentro", como ficam as coisas?

Ficam a cheirar mal, claro, mas na paz, com as "famiglias" a mandar e as ovelhas mais microcéfalas e desprovidos de pituitária a balirem todas contentes. A elas toda a merda lhes cheira bem.

Nesta última tarde em que respiro

Barbara Kruger, Remember Me (1988)


Nesta última tarde em que respiro
A justa luz que nasce das palavras
E no largo horizonte se dissipa
Quantos segredos únicos, precisos,
E que altiva promessa fica ardendo
Na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
Senão em cada gesto e pensamento
E dentro destes vagos vãos poemas;
E já todos me ensinam em linguagem simples
Que somos mera fábula, obscuramente
Inventada na rima de um qualquer
Cantor sem voz batendo no teclado;
Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro.
António Franco Alexandre




terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

As chuvas da primavera

Fotografia de David Werbrouck


Em breve virão as chuvas da Primavera,
As chuvas da primavera
Vão descer sobre os campos,
Sobre as árvores pobres,
Sobre os rios degelando.

As chuvas da Primavera
Cairão sobre os jardins perdidos,
Sobre os rosais desnudos,
Sobre os canteiros sem flor.

As chuvas da Primavera anunciarão
Os grandes dias próximos,
E a cantiga das águas escorrendo
Dos beirais
Nos dirá do tempo próximo,
Das primeiras flores,
Dos primeiros ninhos,
Das primeiras palpitações
Dos brotos,
Das esperanças,
Da vida que se insinua em tudo,
Nos ramos,nas penugens,
Nos céus limpos.

Em breve virão as chuvas da Primavera.
Os rios já estão degelando
O frio já não é tão mau.
Adormece, pois, meu amor,
E esquece este inverno,
Deixa que o sono te leve,
Como as águas levam flores
E folhas soltas.
Augusto Frederico Schmidt




segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Bengaleiro ou horacianas

Fotografia de Mpumelelo Macu



Físico o tractor quente arremessou
Contra as colheitas de ouro o breu de corvos
Trazendo a noite em ondas de onde andou
De foice afoita, a luz sugando a sorvos.
Modorrento, o vapor da chaminé,
Máquina de fazer nuvens, levando
Ondinas ao empíreo mar, rapé
Da paz entre titãs que ordenhando
Alheias colinas se houvessem mais
Desavindo. Van Gogh ou Fabergé:
Ovos de palha, gemas siderais
Chocados em estrelado canapé.
Entrar nesta pintura eu queria
Se à entrada não pedissem a poesia.
Daniel Jonas


domingo, 18 de fevereiro de 2018

Violência urbana (#34)

Fotografia Olho de Gato

Sombra

Fotografia de Sarah Diniz Outeiro


A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre sempre às portas de mim!
José de Almada Negreiros