quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Pelo corpo

Dominique Fung


infinita invenção
de pétala a escaldar
desprende o falo

a palavra sublimada
que é ele a avançar-me
pelo corpo

a porta giratória
que me troca
pelo homem e, a este,

o fértil trajo
que lhe cria mais seios
pelo corpo
Luiza Neto Jorge


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Mar, mar e mar

Fotografia Olho de Gato


Tu perguntas, e eu não sei,
eu também não sei o que é o mar.

É talvez a lágrima caída dos meus olhos
ao reler uma carta quando é de noite.
Os teus doentes, talvez os teus dentes,
miúdos, brancos, agudos, sejam o mar,
um mar pequeno e frágil,
afável, diáfano,
no entanto sem música.

É evidente que minha mãe me chama
quando uma onda e outra onda e outra
desfaz o seu corpo contra o meu corpo.
Então o mar é carícia,
luz molhada onde desperta
meu coração recente.

Às vezes o mar é uma figura branca
cintilando entre os rochedos.
Não sei se fita a água
ou se procura
um beijo entre conchas transparentes.

Não, o mar não é nardo nem açucena.
É um adolescente morto
de lábios abertos aos lábios da espuma.
É sangue,
sangue onde a luz se esconde
para amar outra luz sobre as areias.

Um pedaço de lua insiste,
insiste e sobre lento arrastando a noite.
Os cabelos de minha mãe desprendem-se,
espalham-se na água,
alisados por uma brisa
que nasce exactamente no meu coração.
O mar volta a ser pequeno e meu,
anémona perfeita abrindo nos meus dedos.

Eu também não sei o que é o mar.
Aguardo a madrugada, impaciente,
os pés descalços na areia.
Eugénio de Andrade


terça-feira, 21 de novembro de 2017

Poetry


Fotografia Olho de Gato

I, too, dislike it: there are things that are important beyond
        all this fiddle.
     Reading it, however, with a perfect contempt for it, one
        discovers that there is in
     it after all, a place for the genuine.
        Hands that can grasp, eyes
        that can dilate, hair that can rise
            if it must, these things are important not because a

high-sounding interpretation can be put upon them but because
        they are
     useful; when they become so derivative as to become
        unintelligible, the
     same thing may be said for all of us—that we
        do not admire what
        we cannot understand. The bat,
            holding on upside down or in quest of something to

eat, elephants pushing, a wild horse taking a roll, a tireless
        wolf under
     a tree, the immovable critic twinkling his skin like a horse
        that feels a flea, the base-
     ball fan, the statistician—case after case
        could be cited did
        one wish it; nor is it valid
            to discriminate against “business documents and

school-books”; all these phenomena are important. One must
        make a distinction
     however: when dragged into prominence by half poets,
        the result is not poetry,
     nor till the autocrats among us can be
        “literalists of
        the imagination”—above
            insolence and triviality and can present

for inspection, imaginary gardens with real toads in them,
        shall we have
     it. In the meantime, if you demand on the one hand, in defiance
        of their opinion—
     the raw material of poetry in
        all its rawness, and
        that which is on the other hand,
            genuine, then you are interested in poetry.
Marianne Moore

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

No soy dueña de nada

Fotografia de Jo Ann Callis



No soy dueña de nada
mucho menos podría serlo de alguien.
No deberías temer
cuando estrangulo tu sexo
no pienso darte hijos ni anillos ni promesas.

Toda la tierra que tengo la llevo en los zapatos.
Mi casa es este cuerpo que parece una mujer
no necesito más paredes y adentro tengo
mucho espacio:
ese desierto negro que tanto te asusta.
Miriam Reyes



domingo, 19 de novembro de 2017

In November




Outside the house the wind is howling
and the trees are creaking horribly.
This is an old story
with its old beginning,
as I lay me down to sleep.
But when I wake up, sunlight
has taken over the room.
You have already made the coffee
and the radio brings us music
from a confident age. In the paper
bad news is set in distant places.
Whatever was bound to happen
in my story did not happen.
But I know there are rules that cannot be broken.
Perhaps a name was changed.
A small mistake. Perhaps
a woman I do not know
is facing the day with the heavy heart
that, by all rights, should have been mine.
Lisel Mueller


sábado, 18 de novembro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#169)

«Os deputado bom de pêia
eu tiro o “W” do nome
tiro vírgula dos discurso
reticença e pisilone»


Lágrimas amargas

As Lágrimas Amargas de Petra von Kant,
peça levada ao cinema em 1972,
escrita e dirigida por Rainer Werner Fassbinder


Os olhos rasos de água

Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como num bosque.

É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas a luz do amanhecer.

Posso prometer uma viagem ao paraíso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias.
Eugénio de Andrade







sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Fractais*

* Hoje no Jornal do Centro


Os dois assuntos desta crónica foram também esmiuçados por mim e o Paulo Lopes no seu programa “Regresso a casa”, na Rádio Jornal do Centro.

1. A ASAE preferiu instalar-se em Tondela porque a câmara daquela cidade dispôs-se a pagar-lhe instalações, luz e água, enquanto a câmara de Viseu se recusou pagar tal coisa.

Os vereadores socialistas de Viseu acharam mal esta recusa, mas o presidente da câmara avisa que “é completamente contra” as câmaras terem de “pagar ao Estado para instalar os seus organismos” e que esse tipo de exigências é “chantagem”.

Exemplos destes multiplicam-se. A administração central, por causa dos cortes (em geringoncês diz-se “cativações”), faz tudo para arranjar dinheiro, tanto aluga o Panteão para jantares de gala, como saca o mais que pode aos municípios (pagamentos a polícias, vencimentos de médicos, água, luz, rendas, ...)

Isto lembra os fractais que se repetem qualquer que seja a escala. Mal a Tesla anunciou que queria abrir uma gigafábrica na Europa, logo começou uma competição entre países a ver quem dá mais contrapartidas àquela multinacional. Mal o governo anuncia que quer abrir um serviço público “na província”, logo começa um “quem-dá-mais” entre municípios vizinhos. Estes fractais são fatais para os mais pequenos, entenda-se, o interior.

Neste caso da ASAE, António Almeida Henriques fez bem. Mas esteve muito mal e foi aqui criticado quando, durante o governo de Passos Coelho, se prontificou a custear, com dinheiros municipais, parte das obras na “rua” que liga Viseu a Sátão.


Fotografia Olho de Gato
2. Por causa dos incêndios, houve uma sessão de câmara interrompida porque o presidente teve um ataque de choro. Por causa dos incêndios, um treino de andebol teve que ser interrompido porque os jogadores começaram a chorar.

As marcas traumáticas dos incêndios de 15 e 16 de Outubro vão perdurar no tempo. Ajudemo-nos uns aos outros e tenhamos tolerância zero com quem quiser fazer politiquice com esta desgraça.

Miscasting

Sabine Azéma por Robert Doisneau (1985)




So you think salvation lies in pretending?
Paul Bowles


estou entregando o cargo
onde é que assino
retorno outros pertences
um pavilhão em ruínas
o glorioso crepúsculo na praia
e a personagem de mulher
mais Julieta que Justine
adeus ardor
adeus afrontas
estou entregando o cargo
onde é que assino

há 77 dias deixei na portaria
o remo de cativo nas galés de Argélia
uma garrafa de vodka vazia
cinco meses de luxúria
despido o luto
na esquina
um ovo
feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri

mas o cavaleiro de espadas voltou a galope
armou a sua armadilha
cisco no olho da caolha
a sua vitória de Pirro
cidades fortificadas
mil torres
escaladas por memórias inimigas
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída

agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias

vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil

seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa

os joelhos ainda esfolados
lambendo os dedos
procuro por compressas frias
oh céu brilhante do exílio
que terra
que tribo
produziu o teatrinho Troll colado à minha boca
onde é que fica essa tomada
onde desliga
Hilda Machado




quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Madrugada sem sono

Fotografia de Stephen Shore

Na solidão a esperar-te
Meu amor fora da lei
Mordi meus lábios sem beijos
Tive ciúmes, chorei

Despedi-me do teu corpo
E por orgulho fugi
Andei dum corpo a outro corpo
Só p'ra me esquecer de ti

Embriaguei-me, cantei
E busquei estrelas na lama
Naufraguei meu coração
Nas ondas loucas da cama

Ai abraços frios de raiva
Ai beijos de nojo e fome
Ai nomes que murmurei
Com a febre do teu nome

De madrugada sem sono
Sem luz, nem amor, nem lei
Mordi os brancos lençóis
Tive saudades, chorei
Goulart Nogueira






quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Este blogue hoje é convidado do Delito de opinião*

O resto aqui

* Um agradecimento pelo honroso convite ao Pedro Correia

Já não sei fazer as pazes (2ªparte) — por JB*



Cito:

“O Governo eliminará nove anos de serviço dos professores no descongelamento das carreiras. Nem considera uma recuperação faseada. Excluiu-os. E porquê apenas os professores? Por uma questão técnica, diz o Governo.
É consensual que a sucessão de "reformas estruturais" deixou o Estado, e a sociedade, sem norte. A avaliação do desempenho é um espelho dos desajustamentos. As avaliações no Estado (SIADAP) são um fingimento indesmentível e em 95% das empresas não existe.
Qual é, então, a questão técnica que exclui os professores? São os pontos, diz o Governo.
Nas outras carreiras as pessoas obtêm um ponto por ano até ao número necessário à mudança de categoria e nos professores, diz o Governo, é por menção qualitativa.
Só que a menção é obtida, com quotas, numa escala de 0 a 10 pontos (por exemplo: 7.51 pontos é bom e 8.53 pontos é muito bom) e o professor muda de categoria ao fim de x anos (como nas restantes carreiras).
Era preferível o Governo pedir desculpa aos professores por imitar os anteriores. Se a história da exclusão raramente nos falou de "perseguidos" por serem muitos, desta vez é mais surpreendente; ao fim de dois anos, regista-se a imutabilidade também nas questões não financeiras vigentes desde 2007.” – Paulo Prudêncio

Vejamos:

Após catorze anos de carreiras congeladas há que reconhecer que a estratégia comunicacional deste governo tem funcionado no "arremesso à escola pública", o que nos recorda o processo kafkiano do reinado de Lurdes Triste Rodrigues/Pedreira Pedra/Margarida do Norte/ Azeiteiro Lemos/João Contratos Pedrosa/ Parque Buraco Escolar e o ressabiado Abílio CONFAP…. Como sempre, o PS nada aprende com a experiência.

Na Educação o objectivo tem sido proletarizar, desgastar e desmoralizar a classe docente ao ponto de não terem capacidade de reacção e revolta. Insidiosamente, a conflitualidade e a sobrevivência impuseram-se como modo de estar nas escolas.

Com um contexto político favorável, o que faz o PS pelos professores? Horários, gestão das escolas, e…. - “quartel general em Abrantes; tudo como dantes”.
Face a um Ministro sem peso político (é óbvio), dizem os jornais que os deputados PS (liderados pelo Supremo Porfírio) estão preocupados com a luta dos professores. É bom que estejam preocupados. Há uma “maioria silenciosa” (politicamente transversal) saturada de ser desconsiderada.

Mas também é bom que professores estejam preocupados. Para os que têm a memória curta o Costa estava no governo e a mulher nas manifestações contra MLR.
As declarações do presunçoso Costa não são problema de glândulas salivares, é atitude e pensamento político.

Volte o PS a ter maioria e estará na calha um upgrade da MLR.

Não sou dado a futurologias nestas matérias e não sou grevista militante. Gosto muito de ser “o meu próprio comité central” – José Afonso.

Mas, já não sei fazer as pazes!





A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes


PS: já depois de ter escrito este texto, li que….
“Ao contrário do básico e secundário, os docentes das universidades e politécnicos vão progredir nas carreiras em 2018.”

Fellini! Onde estás quando precisamos de ti?
* Enviado por JB 
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