sexta-feira, 21 de julho de 2017

Serenidade és minha





À memória de Fernando Pessoa

Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humanidade das bocas.

Vem serenidade!
Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os lábios cheguem à altura dos beijos.

Carrega para a cama dos desempregados
todas as coisas verdes, todas as coisas vis
fechadas no cofre das águas:
os corais, as anémonas, os montros sublunares,
as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.

Vem serenidade,
com o país veloz e viginal das ondas,
com o martírio leve dos amantes sem Deus,
com o cheiro sensual das pernas no cinema,
com o vinho e as uvas e o frémito das virgens,
com o macio ventre das mulheres violadas,
com os filhos que os pais amaldiçoam,
com as lanternas postas à beira dos abismos,
e os segredos e os ninhos e o feno
e as procissões sem padre, sem anjos e, contudo,
com Deus molhando os olhos
e as esperanças dos pobres.

Vem, serenidade,
com a paz e a guerra
derrubar as selvagens
florestas do instinto.

Vem, e levanta
palácios na sombra.
Tem a paciência de quem deixa entre os lábios
um espaço absoluto.

Vem, e desponta,
oriunda dos mares,
orquídea fresca das noites vagabundas,
serena espécie de contentamento,
suroresa, plenitude.

Vem dos prédios sem almas e sem luzes,
dos números irreais de todas as semanas,
dos caixeiros sem cor e sem família,
das flores que rebentam nas mãos dos namorados,
dos bancos que os jardins afogam no silêncio,
das jarras que os marujos trazem sempre da China,
dos aventais vermelhos com que as mulheres esperam
a chegada da força e da vertigem.

Vem, serenidade,
e põe no peito sujo dos ladrões
a cruz dos crimes sem cadeia,
põe na boca dos pobres o pão que eles precisam,
põe nos olhos dos cegos a luz que lhes pertence.
Vem nos bicos dos pés para junto dos berços,
para junto das campas dos jovens que morreram,
para junto das artérias que servem
de campo para o trigo, de mar para os navios.

Vem, serenidade!
E do salgado bojo das tuas naus felizes
despeja a confiança,
a grande confiança.
Grande como os teus braços,
grande serenidade!

E põe teus pés na terra,
e deixa que outras vozes
se comovam contigo
no Outono, no Inverno,
no Verão, na Primavera.

Vem, serenidade,
para que não se fale
nem de paz nem de guerra nem de Deus,
porque foi tudo junto
e guardado e levado
para a casa dos homens.

Vem, serenidade,
vem com a madrugada,
vem com os anjos de oiro que fugiram da Lua,
com as núvens que proíbem o céu,
vem com o nevoeiro.

Vem com as meretrizes que chamam da janela,
volume dos corpos saciados na cama,
as mil aparições do amor nas esquinas,
as dívidas que os pais nos pagam em segredo,
as costas que os marinheiros levantam
quando arrastam o mar pelas ruas.

Vem serenidade,
e lembra-te de nós,
que te esperamos há séculos sempre no mesmo sítio,
um sítio aonde a morte tem todos os direitos.

Lembra-te da miséria dourada dos meus versos,
desta roupa de imagens que me cobre
corpo silencioso,
das noites que passei perseguindo uma estrela,
do hálito, da fome, da doença, do crime,
com que dou vida e morte
a mim próprio e aos outros.

Vem serenidade,
e acaba com o vício
de plantar roseiras no duro chão dos dias,
vício de beber água
com o copo do vinho milagroso do sangue.

Vem, serenidade,
não apagues ainda
a lâmpada que forra
os cantos do meu quarto,
papel com que embrulho meus rios de aventura
em que vai navegando o futuro.

Vem, serenidade!
E pousa, mais serena que as mãos de minha Mâe,
mais húmida que a pele marítima da cais,
mais branca que o soluço, o silêncio, a origem,
mais livre que uma ave em seu voo,
mais branda que a grávida brandura do papel em que escrevo,
mais humana e alegre que o sorriso das noivas,
do que a voz dos amigos, do que o sol nas searas.

Vem serenidade,
para perto de mim e para nunca.




… … ... … ... … … … … … … … … … … … … … … 



De manhã, quando as carroças de hortaliça
chiam por dentro da lisa e sonolenta
tarefa terminada,
quando um ramo de flores matinais
é uma ofensa ao nosso limitado horizonte,
quando os astros entregam ao carteiro surpreendido
mais um postal da esperança enigmática,
quando os tacões furados pelos relógios podres,
pelas tardes por trás das grades e dos muros,
pelas convencionais visitas aos enfermos,
formam, em densos ângulos de humano desespero,
uma núvem que aumenta a vâ periferia
que rodeia a cidade,
é então que eu peço como quem pede amor:
Vem serenidade!
Com a medalha, os gestos e os teus olhos azuis,
vem, serenidade!

Com as horas maiúsculas do cio,
com os músculos inchados da preguiça,
vem, serenidade!

Vem, com o perturbante mistério dos cabelos,
o riso que não é da boca nem dos dentes
mas que se espalha, inteiro,
num corpo alucinado de bandeira.

Vem serenidade,
antes que os passos da noite vigilante
arranquem as primeiras unhas da madrugada,
antes que as ruas cheias de corações de gás
se percam no fantástico cenário da cidade,
antes que, nos pés dormentes dos pedintes,
a cólera lhes acenda brasas nos cinco dedos,
a revolta semeie florestas de gritos
e a raiva vá partir as amarras diárias.

Vem, serenidade,
leva-me num vagon de mercadorias,
num convés de algodão e borracha e madeira,
na hélice emigrante, na tábua azul dos peixes,
na carnívora concha do sono.

Leva-me para longe
deste bíblico espaço,
desta confusão abúlica dos mitos,
deste enorme pulmão de silêncio e vergonha.
Longe das sentinelas de mármore
que exigem passaporte a quem passa.
A bordo, no porão,
conversando com velhos tripulantes descalços,
crianças criminosas fugidas à polícia,
moços contrabandistas, negociantes mouros,
emigrados políticos que vão
em busca da perdida liberdade.
Vem, serenidade
e leva-me contigo.

Com ciganos comendo amoras e limões,
e música de harmónio, e ciúme, e vinganças,
e subindo nos ares o livre e musical
facho rubro que une os seios da terra ao Sol.

Vem, serenidade!
Os comboios nos esperam.
Há famílias inteiras com o jantar na mesa,
aguardando que batam, que empurrem, que irrompam
pela porta levíssima,
e que a porta se abra e por ela se entornem
os frutos e a justiça.

Serenidade, eu rezo:
Acorda minha mãe quando ela dorme,
quando ela tem no rosto a solidão completa
de quem passou a noite perguntando por mim,
de quem perdeu de vista o meu destino.

Ajuda-me a cumprir a missão de poeta,
a confundir, numa só e lúcida claridade,
a palavra esquecida no coração do homem.

Vem serenidade
absolve os vencidos,
regulariza o trânsito cardíaco dos sonhos
e dá-lhes nomes novos,
novos ventos, novos portos, novos pulsos.

E recorda comigo o barulho das ondas,
as mentiras da fé, os amigos medrosos,
os assombros da Índia imaginada,
o espanto aprendiz da nossa fala,
ainda nossa, ainda bela, ainda livre
destes montes altíssimos que tapam
as veias ao Oceano.

Vem, serenidade,
e faz que não fiquemos doentes, só de ver
que a beleza não nasce dia a dia na terra.
E reúne os pedaços dos espelhos partidos,
e não cedas demais ao vislumbre de vermos
a nossa idade exacta
outra vez paralela ao percurso dos pássaros.

E dá asas ao peso
da melancolia,
e põe ordem no caoss e carne nos espectros,
e ensina aos suicidas a volúpia do baile,
e enfeitiça os dois corpos quando eles se apertarem,
e não apagues nunca o fogo que os consome,
o impulso que os coloca, nus e iluminados,
no topo das montanhas, no extremo dos mastros,
na chaminé do sangue.

Serenidade, assiste
à multiplicação original do Mundo:
Um manto terníssimo de espuma,
um ninho de corais, de limos, de cabelos,
um universo de algas despidas e retrácteis,
um polvo de ternura deliciosa e fresca.

Vem, e compartilha
das mais simples paixões,
do jogo que jogamos sem parceiro,
dos humilhantes nós que a garganta irradia,
da suspeita violenta, do inesperado abrigo.

Vem, com teu frio de esquecimento,
com a tua alucinante e alucinada mão,
e põe, no religioso ofício do poema,
a alegria, a fé, os milagres, a luz!

Vem, e defende-me
da traição dos encontros,
do engano na presença de Aquele
cuja palavra é silêncio,
cujo corpo é de ar,
cujo amor é demais
absoluto e eterno
para ser meu, que o amo.

Para sempre irreal,
para sempre obscena,
para sempre inocente
Serenidade, és minha.
Raul de Carvalho




quinta-feira, 20 de julho de 2017

Métodos*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Julho de 2007


1. É um vídeo de dois minutos e cinquenta e um segundos, intitulado “Rock” que já foi visto quase 200 mil vezes no YouTube. Nele, um homem olha fixamente a câmara fixa. Olha para nós, portanto. Vêem-se umas árvores e um lago no enquadramento. O homem olha-nos, estático. Ouve-se barulho de tráfego. Uma mulher de óculos escuros passa atrás dele. Imperturbável, ele continua a olhar-nos; fica assim durante mais de um minuto; depois, vira-nos as costas, dá uns passos, agarra numa pedra e atira-a, com estrépito, para as águas do lago. O homem afasta-se. No écran forma-se a mensagem: “gravel2008.us”. A água passa do sossego para o desassossego. A superfície do lago fica encrespada. Vêem-se pregas concêntricas a fluírem e refluírem. O homem continua a afastar-se. Cada vez mais longe. Não é dita uma palavra.

O protagonista de “Rock” é Mike Gravel, candidato presidencial do Partido Democrático. Este zen de comunicação política pode ser visto em www.youtube.com/watch?v=0rZdAB4V_j8:



2. Durante a campanha para a Câmara de Lisboa, Paulo Portas levou em cima com uma história “jornalística” muito mal parida sobre submarinos e Marques Mendes foi atingido com lama proveniente de Oeiras acerca dumas senhas de presença.

Resultado: lá tivemos o sempiterno José Junqueiro a fazer a figura do costume nas televisões e nos jornais.

3. A jornalista Sandra Ferreira, do jornal As Beiras, perguntou a Jorge Carvalho: “Como faz a escolha dos artistas?”

Resposta do gerente e programador da Feira de S. Mateus: “Vou procurando, vejo os discos que são mais vendidos, falo com os jovens para ver quem está na berra. A minha neta também me dá umas dicas.”

Pois é: quando se conhecem os métodos, percebem-se melhor os resultados.

Horizonte imediato

Fotografia de George Webber

Todos os dias me apoio em qualquer coisa
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave

surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão
António Ramos Rosa


quarta-feira, 19 de julho de 2017

The weighing

Fotografia de David Goldblatt

The heart’s reasons
seen clearly,
even the hardest
will carry
its whip-marks and sadness
and must be forgiven.

As the drought-starved
eland forgives
the drought-starved lion
who finally takes her,
enters willingly then
the life she cannot refuse,
and is lion, is fed,
and does not remember the other.

So few grains of happiness
measured against all the dark
and still the scales balance.

The world asks of us
only the strength we have and we give it.
Then it asks more, and we give it.
Jane Hirshfield



terça-feira, 18 de julho de 2017

Mulher



Um dia irei tirar essa mulher de dentro da flor,
despi-la das suas pétalas, e emprestar-lhe o véu
da madrugada
Nuno Júdice

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A leitora



A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,

branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.
António Ramos Rosa



domingo, 16 de julho de 2017

Bastards

Daqui



And I’m sure I’ll kiss my share of frogs
Before my time is done
The world is full of bastards
And I’ve date everyone


sábado, 15 de julho de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#152)

Amiga é um termo dúbio

Daqui


Ontem as águas estavam serenas
Mantinham a distância certa
Éramos cúmplices apenas
Sem ter o coração alerta

Amiga era um sentimento
Sem fazer calor nem frio
Tudo entre nós era simples
Como as coisas em pousio

Foi qualquer gesto que fizeste
Qualquer coisa que disseste
Que mudou a situação

Amo-te sem dares por nada
Eu próprio não dou por isso
Cada olhar cada risada
É um terreno movediço

Dou passos de sapador
Tão assustado e confuso
Nesse campo minado do amor
Sou o mais vulgar intruso

Foi qualquer gesto que fizeste
Qualquer coisa que disseste
Que mudou a situação

Amiga é um termo dúbio
Desses que a língua contém
Vê-se a linha de fronteira
Dá-se um passo e está-se em terra de ninguém
Rui Veloso


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Califado

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Na passada terça-feira, foi dada como “informação confirmada” a morte do líder do Daesh, Abu Baqr al-Baghdadi.

Nascido em 1971, al-Baghdadi dizia-se descendente directo de Maomé. Como conta Loretta Napoleoni no seu livro “A Fénix Islâmica, o Estado Islâmico e a Reconfiguração do Médio Oriente”, o Estado Islâmico quando se auto-proclamou califado, em 2014, ocupava uma área maior do que a do Reino Unido e era uma bem sucedida encarnação do radicalismo sunita, de aparência medieval mas que usava com mestria as ferramentas da globalização e as modernas tecnologias.

Apesar de nunca ter atingido os níveis de riqueza da OLP, o Estado Islâmico no seu apogeu angariava dois milhões de dólares por dia na venda de petróleo, a que se somavam taxas a empresas, rendas obtidas pelo controlo de barragens, vendas de armas e contrabando variado (essencialmente para a Turquia e o Iraque). Foi descoberto por acaso um “relatório e contas anual” do Daesh, um documento meticuloso que chegava ao registo em “pormenor do custo de cada missão suicida”, elaborado “de acordo com as mais sofisticadas técnicas de contabilidade”. Ao fim e ao cabo, al-Bagdhadi dirigia uma multinacional terrorista com a pragmática de “uma multinacional pujante e legítima.”

Para já, duas ideias para estes dias que parecem ser do fim do Daesh:
— o califado - enquanto nostalgia e mitificação do Estado Islâmico original do século VII - vai ressurgir com outra pele qualquer;
— o sectarismo que impede a paz e a coexistência étnica e religiosa no Médio Oriente já tem um próximo episódio anunciado para 25 de Setembro, se o líder curdo Masoud Barzan teimar com a ideia de fazer um referendo independentista naquele dia.

2. Esta coluna saúda a eleição do novo presidente do Instituto Politécnico de Viseu.


João Luís Monney Paiva vai ter agora que normalizar as relações do IPV com as câmaras de Viseu e Lamego, relações que foram afectadas durante este longo processo eleitoral.

Do not stand at my grave and weep

Daqui



Do not stand at my grave and weep,
I am not there, I do not sleep.
I am in a thousand winds that blow,
I am the softly falling snow.
I am the gentle showers of rain,
I am the fields of ripening grain.
I am in the morning hush,
I am in the graceful rush
Of beautiful birds in circling flight,
I am the starshine of the night.
I am in the flowers that bloom,
I am in a quiet room.
I am in the birds that sing,
I am in each lovely thing.
Do not stand at my grave and cry,
I am not there. I do not die.
Mary Elizabeth Frye





quinta-feira, 13 de julho de 2017

Vazio

Daqui


Pedra a pedra, esvazio este lugar onde outrora
nos encontrámos. Deixo-o limpo de versos e de
sílabas, seco de lágrimas e de suor, silencioso
como o espaço de onde as aves se ausentaram.

Depois, pedra a pedra, construo a memória
em que te vou guardar. Ergo-a desse campo
onde te abracei, sobre folhas e flores, ouvindo
a música do vento por entre ramos e sombras.

«Mas para que a queres?» perguntas-me. «Sem
mim, sem o calor da minha voz, sem o corpo
que amaste?» E pedra a pedra volto a esvaziar
tudo, como se estivesses aqui, sem nada encontrar.
Nuno Júdice