sábado, 26 de maio de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#196)

Animação de Michael Trent, aluno da Vancouver Film School

Alla breve loving




Three people drinking out of the bottle
in the living room.
A cold rain. Quiet as a mirror.

One of the men
stuffs his handkerchief in his coat,
climbs the stairs with the girl.
The other man is left sitting

at the desk with the wine and the headache,
turning an old Ellington side
over in his mind. And over.

He held her like a saxophone
when she was his girl.
Her tongue trembling at the reed.

The man lying next to her now
thinks of another woman.
Her white breath idling

before he drove off.
He said something about a spell,
watching the snow fall on her shoulders.

The musician
crawls back into his horn,
ancient terrapin
at the approach of the wheel.
C. D. Wright



sexta-feira, 25 de maio de 2018

Centralismo*

* Hoje no Jornal do Centro



Daqui
1. É preciso repensar a ligação Viseu-Coimbra. Para já, ainda não há nenhum compromisso novo calendarizado. O que foi anunciado foi só o lançamento de um concurso de 15 milhões de euros para obras já projectadas e que têm que ser feitas no perigoso troço do IP3 entre o nó de Penacova e da Lagoa Azul.

A verdade é que, das três alternativas estudadas pela Infraestruturas de Portugal, o governo quer escolher a pior só porque é a mais baratinha. E a região não pode deixar que se repita no IP3 a asneira que foi feita no IP5. É que depois, na próxima bancarrota, não vai haver força para impedir portagens nos troços que venham, eventualmente, a ser duplicados.

2. O movimento pelo interior acaba de apresentar um conjunto de boas propostas. Mas já se sabe: Lisboa tudo fará para manter o seu poder sobre as nossas vidas e para sabotar qualquer tentativa de discriminação positiva do interior.

O centralismo tem duas peles muito ásperas:
— a pele política, manhosa, cheia de retórica na defesa do interior mas que aplica todos os recursos no litoral onde estão os votos;
— a pele tecnocrática, untuosa, que já começou a levantar espantalhos nos media contra a “província”.

Por exemplo, o economista televisivo Ricardo Paes Mamede já vê nos “supostos defensores do interior” uma nova encarnação populista do antigo “nortismo pinto-costista”. Caro Jorge Coelho, precate-se, estes académicos alfacinhas ainda atiçam os No Name Boys e a Juve Leo contra si.

Outro exemplo: mal o ministro do ensino superior esboçou um eventual aumento de vagas no interior e cortes em Lisboa e no Porto, logo um texto da esquerda.net bloquista lhe malhou com força: que há “falta de confiança em muitas” escolas do interior, que coitadas das “famílias de rendimentos baixos ou médios das grandes cidades”, que isto, que aquilo, ...

A luta contra o centralismo vai ser dura. Mas, com determinação e firmeza, podemos obter bons resultados. Incluindo no IP3.

Código

Fotografia de Darran Shen


Perdoe-me por não saber amar em outra língua.
estes versos, que me atravessam como uma rua
acidentada, não os explicito.

perdoe-me por não saber cantar em outra língua.
estes versos, que me iluminam como as pedras que flatam na rua
acidentada, não os traduzo.

perdoe-me por não saber beijar em outra língua.

estes versos que se soltam e me encharcam.
Adriana Versiani dos Anjos


quinta-feira, 24 de maio de 2018

Lenço

Fotografia de Joseph Casey


De manhã
dobrado com as suas flores silvestres
lavado e engomado
ocupa pouco espaço na gaveta.

Sacudindo-o para o abrir
ela ata-o à volta da cabeça.

À noite arranca-o
e deixa-o cair,
ainda com o nó, ao chão.

Num lenço de algodão
por entre flores estampadas
um dia de trabalho
escreveu o seu sonho.
John Berger
Trad. Vasco Gato


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Underground*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 23 de Maio de 2008

1. Belgrado. Segunda Guerra Mundial. Marko e Blacky, amigos inseparáveis, vão tratando do canastro aos alemães que ocupam o seu país. Blacky é perseguido pelos nazis. Esconde-se numa cave acompanhado por um grupo grande. Aí ficam todos literalmente soterrados, com um único contacto com o exterior: Marko. À superfície, prossegue a guerra de libertação; no subterrâneo, aquela gente, dirigida com mão de ferro por Blacky, produz armas.




Quando os alemães são expulsos da Jugoslávia, Marko não diz nada aos de baixo. Ano após ano mantém o grupo na cave. Nem de seu irmão Ivan, que também lá está, tem pena. Eles julgam que a guerra continua. Ficam assim no escuro, como na Alegoria da Caverna de Platão, num mundo paralelo, em que o “real” e a “ficção” trocaram de lugar.

Esta é a história de Underground, um filme de Emir Kusturica, que ganhou uma mais que merecida Palma de Ouro em Cannes, em 1995.

É muito provável que Elisabeth Fritzl, que foi enclausurada numa cave pelo seu próprio pai durante 24 anos, tenha visto Underground. A cave tinha televisão e Elisabeth tinha muito tempo para gastar.

Daqui

Que terá pensado ela enquanto via Underground?

2. Barack Obama: “Não podemos guiar os nossos SUV, comer tanto quanto nos apetece, manter as nossas casas sempre, a todas as horas, nos 22ºC… e depois esperar que os outros países venham dizer ok.”

John Edwards: “Temos que ser contra a ganância das multinacionais.” Para mim, era este o “ticket” ideal: Obama, a presidente; Edwards a vice.

De qualquer forma, quer ganhe Obama, quer ganhe McCain, uma coisa boa vai acontecer: sai da Casa Branca o pior presidente da história dos Estados Unidos.

The cure for what ails you

Fotografia de Taylor Hernandez



The cure for what ails you

is a good run, at least according to my mother,
which has seemed, all my life, like cruelty —

when I had a fever, for example, or a heart,
shipwrecked & taking on the flood. But now,

of course, this is what I tell my friend whose eye
has been twitching since last Tuesday, what I

tell my student who can’t seem to focus
her arguments, who believes, still,

that it’s possible to save the world
in 10-12 pages, double-spaced & without irony

I’m asking Have you tried going for a run?
You know, to clear your head? this mother-voice

drowning out what I once thought
to be my own. I’ll admit that when that man

became the president, before terrified I felt
relief — finally, here was the bald face

of the country & now everyone had to look
at it. Everyone had to see what my loves

for their lives, could not unsee. Cruelty
after all is made of distance —

sign here & the world ends
somewhere else. The world. The literal

world. I hold my face close to the blue
light of the screen until my head aches.

Until I’m sick & like a child I just want
someone to touch me with cool hands

& say yes, you’re right, something is wrong
stay here in bed until the pain stops & Oh

mother, remember the night
when, convinced that you were dying,

you raced to the hospital clutching
your heart & by the time you arrived

you were fine. You were sharp
as a blade. Five miles in & I can’t stop

thinking about that video. There’s a man
with his arms raised

in surrender. He was driving
his car. His own car & they’re charging him

bellowing like bulls I didn’t shoot you, motherfucker,
you should feel lucky for that. Yes. Ok.

Fine. My body too can be drawn
like any weapon.
Cameron Awkward-Rich


terça-feira, 22 de maio de 2018

Ceremony after a fire raid

Daqui



I

Myselves
The grievers
Grieve
Among the street burned to tireless death
A child of a few hours
With its kneading mouth
Charred on the black breast of the grave
The mother dug, and its arms full of fires.

Begin
With singing
Sing
Darkness kindled back into beginning
When the caught tongue nodded blind,
A star was broken
Into the centuries of the child
Myselves grieve now, and miracles cannot atone.

Forgive
Us forgive
Us your death that myselves the believers
May hold it in a great flood
Till the blood shall spurt,
And the dust shall sing like a bird
As the grains blow, as your death grows, through our heart.

Crying
Your dying
Cry,
Child beyond cockcrow, by the fire-dwarfed
Street we chant the flying sea
In the body bereft.
Love is the last light spoken. Oh
Seed of sons in the loin of the black husk left.





II

I know not whether
Adam or Eve, the adorned holy bullock
Or the white ewe lamb
Or the chosen virgin
Laid in her snow
On the altar of London,
Was the first to die
In the cinder of the little skull,
O bride and bride groom
O Adam and Eve together
Lying in the lull
Under the sad breast of the head stone
White as the skeleton
Of the garden of Eden.

I know the legend
Of Adam and Eve is never for a second
Silent in my service
Over the dead infants
Over the one
Child who was priest and servants,
Word, singers, and tongue
In the cinder of the little skull,
Who was the serpent's
Night fall and the fruit like a sun,
Man and woman undone,
Beginning crumbled back to darkness
Bare as nurseries
Of the garden of wilderness.





III

Into the organpipes and steeples
Of the luminous cathedrals,
Into the weathercocks' molten mouths
Rippling in twelve-winded circles,
Into the dead clock burning the hour
Over the urn of sabbaths
Over the whirling ditch of daybreak
Over the sun's hovel and the slum of fire
And the golden pavements laid in requiems,
Into the bread in a wheatfield of flames,
Into the wine burning like brandy,
The masses of the sea
The masses of the sea under
The masses of the infant-bearing sea
Erupt, fountain, and enter to utter for ever
Glory glory glory
The sundering ultimate kingdom of genesis' thunder.
Dylan Thomas


segunda-feira, 21 de maio de 2018

As noites eram aquele enxame desperto

Fotografia de Nick Fewings


As noites eram aquele enxame desperto as noites
eram noites bem bebidas
a elevação dos lábios interiores dos cálices
o pôr das mãos nos caminhos.
Catarina Nunes de Almeida




sábado, 19 de maio de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#195)

Eu lavo a amêijoa para o meu amor comer
Eu lavo a amêijoa para ele se lambuzar
Eu lavo a amêijoa e tenho que lavar
Para lhe poder tirar todo aquele gostinho a mar