segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Os "ses..." do PEC4


 



24 de Fevereiro:
 "Se o governo nos apresentar a intenção de mexer no Plano de Estabilidade e Crescimento, nós estamos interessados em ouvir quais são as intenções do governo...»









 28 de Fevereiro:
«Se a execução orçamental vier a revelar que são necessárias mais medidas, tomá-las-emos...»

Ver até às tantas da matina os óscares?

Evidentemente:
Imagem daqui

Imagem daqui

Imagem daqui
 

Nomeio constelações

Imagem daqui

Nomeio constelações uso-as
para me guiarem no receio das noites
escavo corpos na flexibilidade das sombras
atravesso a manhã e ponho a descoberto
a casa onde a infância secou


o olhar desce aos gestos inacabados
satura-os de jovens lágrimas de resinas
e o susto da criança que fui reaviva
um pouco de alegria no coração
                                                                                                      Al Berto

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Desenhar Viseu

Este é um grupo aberto do Facebook à sua espera *.

Na tarde de 11 de Fevereiro 
eles juntaram-se e foram "desenhar Viseu", 
que é como quem diz foram "amar Viseu".

Eis três exemplos do que foi feito:

Desenho de Liliana R.























Desenho de Rui César Figueiredo


Desenho de Raquel F.

* O Rui César Figueiredo adicionou-me hoje ao Desenhar Viseu.
Isso é uma felicidade para todos os membros. 
É que, a partir de hoje, eles já sabem quem é que desenha pior no grupo. 


Rainha de Inglaterra

     Nestas presidenciais, percebeu-se que até os resultados eleitorais deixaram de ser confiáveis. Estamos metidos num grande sarilho.
      Reganhar a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas é a prioridade das prioridades e é uma guerra de muitas batalhas.
     Quem temos para essa guerra? 
     Cavaco Silva tem a sua legitimidade eleitoral renovada e tem legitimidade moral, ao ter feito uma campanha frugal que vai devolver 75% das subvenções estatais a que tinha direito. 
     Isso contrasta com a "tripa forra" partidária que, só em 2009, gastou 29 milhões de euros dos nossos impostos em outdoors.
      Cavaco podia ser um "general" para as batalhas que se prefiguram no horizonte. O seu histórico no Palácio de Belém não é animador, mas o segundo mandato pode ser melhor que o primeiro. Há que aguardar para se poder fazer uma avaliação objectiva.
     A primeira batalha da guerra  pela confiança nas instituições é fácil de ver qual é.
Palácio de Buckingham, Lisboa (foto daqui)
   O recém-eleito Presidente da República vai manter ou vai correr com o Procurador-Geral da República?
     É que a "nossa" Rainha da Inglaterra deu-lhe para, mais uma vez, andar nos media a dizer disparates.
     Neste assunto se começará a ver se Cavaco Silva tem, ou não, força interior para ajudar o país a sair do pântano onde se atolou.

Velas

 Temos à frente os dias do futuro
como uma fila de velas acesas
– quentes e vivas e douradas velas.


Ficam atrás os dias passados,
fileira triste de velas sem chama:
ainda sobe fumo das que estão mais perto,
vergadas pelas frias que já se apagaram.


Eu não quero vê-las: tanto me entristece o seu ar de agora
como relembrar o fulgor antigo.
Olho à minha frente as velas acesas.


Não vou voltar-me nem vou ver num arrepio
como cresce tanto a fileira escura,
como é tão veloz o apagar das velas.
                                                                                    Konstandinos Kavafis

Rally das cunhas municipais

«... melhor é porem mais, 
ou diria ..., 
meterem mais cunhas ...»


     Para aprofundamento da matéria,  é visitar, como fez este blogue, o canal do YouTube LIGEIRO HEMATOMA, onde se podem achar estes rallies:
1. Rally dos Palitos de Viseu
2. Rally das Bolas de Viseu
e muito, muito mais ... 

sábado, 26 de fevereiro de 2011

O plágio líbio

     Saif Al-Islam Kaddafi, o filho de Muammar Kaddafi, tem aparecido nas televisões de todo o mundo.
Saif Al-Islam Kaddafi



Saif é uma espécie 
de versão "em ocidental" da brutidade
tribal do pai Muammar.


A graduação que Saif tirou na London School of Economics está debaixo de fogo.



A tese apresentada 
está agora a ser analisada à lupa.


Já há aqui catorze
alegações de plágio.

Pórticos





     Vão ser colocados até Abril mais 52 pares de pórticos como o da fotografia, pórticos que fazem a felicidade da empresa do ex-assessor do secretário de estado Paulo Campos. Na A22 vão ser 10 pórticos; na A23, 16; e na A24 e A25, 13 em cada uma. 
     Falta um mês e meio para um golpe brutal na nossa economia e mobilidade. Infelizmente, entre os eleitos com os nossos votos reina o conformismo, a deserção e o silêncio. Até Fernando Ruas parece cada vez mais com a cabeça em Lisboa, mesmo quando ainda está com o corpo em Viseu.
     Ora, como é sabido, todo este desgraçado processo atinge o pico da injustiça na A25 nos troços que foram feitos sobre o "velho" IP5, destruindo a excelente alternativa que havia. Até Passos Coelho reconheceu que é injusto pôr aí portagens.

Eu queria um jázinho que fosse

Girl with a Leica, 1934, por Alexander Rodchenko








já não é hoje?
não é aquioje?


já foi ontem?
será amanhã?


já quandonde foi?
quandonde será?

eu queria um jázinho que fosse
aquijá
tuoje aquijá.
                                   Alexandre O'Neil




sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

5% de IRS

     A Universidade de Macau abriu uma vaga para Professor Catedrático em Estudos Portugueses e tem  também aberta uma vaga para um professor em História Portuguesa e Ibérica (os detalhes podem ser consultados aqui.)
     Do anúncio da universidade, transcrevo:  
     "O actual imposto sobre rendimento de Macau é de 5%."

     Por cá, como se sabe, o bloco central começou a desenhar o PEC4.

Praia da Messejana

 Depois de conhecida a intenção de Mangualde, "construir praias" é o assunto do momento, assunto que pula para dentro de todas as conversas.

Imagem daqui
   
Ontem um amigo contou-me o subido caso da Praia da Messejana, simpática terra do interior alentejano, berço do político da primeira república Brito Camacho.
     
Faça-se um parêntesis para referir que Brito Camacho passou por Viseu onde, em Abril de 1894, fundou, com Ricardo Pais Gomes e Ribeiro de Sousa, o periódico O Intransigente.
     
A conversa é como as cerejas mas regresse-se ao bronzeio balnear que o dia está lindo.
Imagem daqui
     
Por voltas de 1920, Brito Camacho era um dos mais influentes políticos portugueses e esteve indigitado para primeiro-ministro pelo Partido Liberal Republicano, coisa que ele recusou.
     
Deve ter sido por essa altura que uma delegação de conterrâneos seus foram falar com ele, com um extenso caderno reivindicativo de melhoramentos para a terra.
     
Brito Camacho ouviu a lista impassível e perguntou:
     
— E não querem também uma praia lá para a terra?
     
— Arranje a água que a areia arranjamos nós! - respondeu, desvanecida, a comissão de notáveis da Messejana.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Notícias da Albânia

O PS, agora, diz isto aos militantes:

 

«Tens ideias?
Então candidata-te!
Ah, não te candidatas?
Então cala-te!»
Manuel Maria Carrilho, DN hoje

Paisagens - Landscapes, companhia Paulo Ribeiro

A Work Of Artifice
Foto de José Alfredo
The bonsai tree
in the attractive pot
could have grown eighty feet tall
on the side of a mountain
till split by lightning.
But a gardener
carefully pruned it.
It is nine inches high.
Every day as he
whittles back the branches
the gardener croons,
It is your nature
to be small and cozy,
domestic and weak;
how lucky, little tree,
to have a pot to grow in.
With living creatures
one must begin very early
to dwarf their growth:
the bound feet,
the crippled brain,
the hair in curlers,
the hands you
love to touch.
                                                         Marge Piercy



Bonitos

      "Are beautiful politicians more likely to be elected?"
     Evidências empíricas tratadas nas melhores universidades, com os melhores métodos científicos, concluem que os políticos e as políticas com um palminho de cara têm melhores votações que os feios.
     Há ensaios académicos com fartura a demonstrá-lo. Aqui e aqui, para exemplo.
     Ora, não era preciso as universidades andarem com tanto trabalho.
     Qualquer português, mesmo o mais distraído, sabe que o importante numas eleições é o candidato ser bonito:

Feios *

* Texto publicado no Jornal do Centro em 3 de Março de 2006


     1.A Face Feia do Crime” é o título dum artigo da edição do Washington Post, de 17 de Fevereiro.
Imagem daqui
     O texto cita Naci Mocan, da Universidade do Colorado, e Erdal Tekin, da Universidade do Estado da Geórgia, que, a partir duma pesquisa a 15000 adolescentes, cujos percursos pessoais foram acompanhados por entrevistas em 1994, 1996 e 2002, concluíram que os feios cometem mais crimes que os bonitos.
     Os dois cientistas, citados pelo Washington Post, avançam razões que tentam explicar porque é que os “criminosos têm tendência a serem feios”. Parece que “os homens e mulheres não atraentes têm menos hipóteses de serem contratados e ganham menos dinheiro que os com bom aspecto”.
     Um assaltante de bancos de Miami, Daniel Gallagher, também concorda. Explicou à polícia, depois de ser capturado: «Eu sou demasiado feio para arranjar trabalho.”

     2. Este assunto fez-me reler “Morte aos Feios”, de Vernon Sullivan, “traduzido” do americano por Boris Vian.
     No centro da história, um cientista, o doutor Markus Schutz, que tem uma ilha no Pacífico povoada de morenas, ruivas e louras. (Há o equivalente em masculino.) O Dr. Schutz quer erradicar os feios do mundo e os seres clonados que produz não têm defeitos de fabrico.
     Chega um torpedeiro da marinha americana àquele paraíso. É feita uma experiência científica: são mandados alinhar “os 25 marinheiros mais bonecos e os 25 mais feios” do torpedeiro. 
Imagem daqui
     Para com eles acasalarem, são chamadas 50 garotas do Dr. Schutz.
     “Todas esculturais e de pôr doido qualquer produtor de Hollywood.” - assim as descreve Boris Vian. É dada ordem aos marinheiros para se despirem. É dada ordem a elas para avançarem.
     Saturadas dos clones perfeitos do Dr. Schutz, elas atiraram-se aos feios, aos tortos e aos barrigudos. 
     Os marinheiros bonitos ficaram a chuchar no dedo.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Zeca Afonso

«Um homem de pão, paz e pombas ...»
Imagem daqui

José Afonso Cerqueira dos Santos
2 de Agosto de 1929 — 23 de Fevereiro de1987

Anthem for Doomed Youth

Imagem daqui

What passing-bells for these who die as cattle?
     Only the monstrous anger of the guns.
     Only the stuttering rifles’ rapid rattle
Can patter out their hasty orisons.
No mockeries now for them; no prayers nor bells,
Nor any voice of mourning save the choirs,—
The shrill, demented choirs of wailing shells;
And bugles calling for them from sad shires.


What candles may be held to speed them all?
     Not in the hands of boys, but in their eyes
Shall shine the holy glimmers of goodbyes.
     The pallor of girls’ brows shall be their pall;
Their flowers the tenderness of patient minds,
And each slow dusk a drawing-down of blinds.
                                                                                                   Wilfred Owen

Da omertá

     «Atendendo à natureza censurável do fenómeno, a corrupção resulta da criação e manutenção de contextos complexos de sociabilização entre os actores, o que diminui, em muito, a necessidade de linguagem explícita.
Imagem daqui

     Cria-se um clima de negócio assente na confiança e na reciprocidade entre as partes (a omertá): subentende-se o que é preciso fazer e conhecem-se os ganhos para cada um dos players implicados.»
Yves Méni: La Corruption de la République
citado  por Luis de Sousa e João Triães em Ética, Estado e Economia

Pela criminalização das "turbo-fortunas"


Adenda em 25 de Fevereiro: "reportagem" do Correio da Manhã.

A monotonia pode salvar

     Durante três anos, ela encomendou todos os dias a mesma pizza à mesma casa.
     Uma história de uma idosa sozinha em casa, com um final diferente das que andaram a dar nas televisões portuguesas ...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Beira Litoral

Proposta referendada em 8-11-1998
Viseu já tem 
um campo de desportos de praia e vai ter uma praia,  

Mangualde vai ter 
uma coisa em grande 

A proposta de regionalização de 1998 estava certa: 
o distrito de Viseu é 
Beira Litoral.

Nem sempre foi assim

Elina Brotherus, “The Lake”, 2007

Nem sempre foi assim
quando tudo entre nós ficava branco
tu passavas o tempo nas minhas mãos


a contar os barcos que saíam para o mar
e gostavas de imaginar outros horizontes
a vida está sempre a mudar, dizias-me,
e eu sabia que nada mais te poderia dar
além do quarto alugado onde dormíamos.
                                                                                  Alexandre de Castro

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Praias fluviais

 
 

João Azevedo, 2
----
Fernando Ruas, 0



     
Depois da batalha dos investimentos,
Mangualde vai ganhar também a Viseu
em praias fluviais, como conta o Expresso?

O regresso da Igreja do Concreto? (#2)*

Viseu: onde era há não muito tempo um banco, agora é um talho

     «Quase toda a economia está hoje instalada no mundo abstrato, no mundo das letras e dos números – e não no mundo das matérias com volume.
     Porque a velha economia era isto: duas vacas que se trocavam por mil galinhas; fábricas e máquinas, árvores que se vendiam ou compravam.»
Gonçalo M. Tavares,
in E-u-r-o-p-a **


* Ver #1 aqui.
** Texto integral aqui.   

CR7

Imagem daqui
     Conta o Correio da Manhã que Karima El Mahroug, mais conhecida por Ruby, depois de Berlusconi, salpica agora também Cristiano Ronaldo, com pormenores do "quando", do "onde" e do "quanto", até referindo o "tamanho" das notas.
     CR7 nega tudo. Tudo trivial.
     Eis um comentário de um leitor do Correio da Manhã:  
     «Só não entendo como o Ronaldo ainda tem tempo para jogar futebol! O homem está em todas as jogadas, 24 horas por dia! Ainda abro uma loja de artigos afrodisíacos com a marca "CR-7"!»

Fogo

De que valem o certo e o regular?
E o chão liso, um tapete para andar?
Não vou a passo - antes quero correr


És o fósforo e a chama
se quisesse fugia - prefiro arder
                                                                 João Habitualmente


domingo, 20 de fevereiro de 2011

Muammar Kaddafi

Esta criatura 
teve passadeira vermelha em Lisboa em Dezembro de 2007.
 
Por incrível que pareça, esta criatura  é membro do Conselho dos Direitos Humanos da ONU desde Maio de 2010.
 
Balanço do protesto democrático na Líbia: pelo menos 173 mortos confirmados pela Human Rights Watch.

 

Como é sabido, a "realpolitik" aperta com demasiada frequência a mão a assassinos.  

Um patriarca

um homem com 39 mulheres, 94 filhos, 33 netos

Paris at night

Imagem daqui
Três fósforos um a um acesos na noite
O primeiro para ver o teu rosto inteiro
O segundo para ver os teus olhos
O terceiro para ver a tua boca
E toda a escuridão para recordar tudo isso
Apertando-te nos braços.
                                                                                              Jacques Prévert

sábado, 19 de fevereiro de 2011

"Espanha! Espanha! Espanha!"

     "Espanha! Espanha! Espanha!", disse há uns anos José Sócrates.
     A verdade é que, agora, este "Espanha! Espanha! Espanha!" é mais importante do que nunca.
     Em matéria de financiamento, Portugal precisa de estar colado ao seu vizinho  por uma razão estratégica: um resgate a Portugal não causa risco sistémico ao euro, um resgate a Espanha causa.
     Ora, os mercados estão a separar a situação espanhola da portuguesa, descendo os juros da dívida espanhola e aumentando os juros da nossa: «Spanish 10-year bond yields at 5.4 per cent are lower than they were at the start of the year, in contrast to Portugal, where the cost of borrowing has jumped about half a percentage point to 7.46 per cent.» (Financial Times, 17 de Fevereiro)
     Péssimas notícias para Portugal.

I think I

Imagem daqui
I think I should have loved you presently,
And given in earnest words I flung in jest;
And lifted honest eyes for you to see,
And caught your hand against my cheek and breast;
And all my pretty follies flung aside
That won you to me, and beneath your gaze,
Naked of reticence and shorn of pride,
Spread like a chart my little wicked ways.
I, that had been to you, had you remained,
But one more waking from a recurrent dream,
Cherish no less the certain stakes I gained,
And walk your memory's halls, austere, supreme,
A ghost in marble of a girl you knew
Who would have loved you in a day or two.
                                                                                     Edna St Vincent Millay

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Estado insaciável

     Razão tem Cândido Ferreira, o ex-presidente da federação distrital de Leiria do PS,  que está com muitas dificuldades em conseguir ir a votos contra Sócrates
     Razão tem ele quando diz: "em vez de um estado social temos um estado insaciável."


     Repare-se: o grande Carlos César dos Açores, o homem que fez os "seus" funcionários filhos e os outros  enteados, quer mais um imposto sobre a classe média.
     Disse ele ontem na Figueira da Foz:
     "Eu acho que é razoável em Portugal, não onerando aqueles que têm menores rendimentos, que haja taxas especiais e impostos especiais dirigidos ao financiamento dos serviços públicos gratuitos de saúde e educação."

Era tão bom *


* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

     Era tão bom acabar a dança entre a política e os negócios e os negócios e a política.
     Era tão bom pôr fim aos deputados em part-time.
     Era tão bom travar a voracidade dos grandes escritórios de advogados.
     Era tão bom o BES não estar sempre sentado no conselho de ministros.
     Era tão bom termos menos ministros e todos eles escolhidos obrigatoriamente entre eleitos.
     Era tão bom a transparência dos rendimentos e do património dos políticos não ser confundida com “inversão do ónus da prova” .
     Era tão bom agregarmos concelhos e freguesias e isso não levar a guerras de campanário.
     Era tão bom privatizar a RTP e, depois, o serviço público radiofónico e televisivo viver da taxa audiovisual e não do orçamento de estado.
     Era tão bom o estado só encomendar estudos e pareceres dentro dos serviços públicos.
     Era tão bom os deputados prestarem contas aos seus eleitores e não a quem os põe nas listas.
     Era tão bom renegociar as PPPPP, as Parcerias Prejuízos Públicos Proveitos Privados, para os nossos filhos e os nossos netos terem futuro.
     Era tão bom os boys e as girls terem vergonha na cara.
     Era tão bom suspender o TGV.
     Era tão bom um governo frugal e moderado nos impostos.
     Era tão bom termos um verdadeiro mercado de arrendamento.
     Era tão bom desligarem o complicómetro na justiça.
     Era tão bom fecharem os governos civis.
     Era tão bom os portugueses amarem a liberdade e não terem medo.

As raparigas amam muito

As raparigas amam muito. Riem
atrás das mãos uma manhã inteira
para esconder o vermelho dos
beijos que alguém lhes roubou e
um nome que vão deixar escapar
entre as primeiras palavras que
disserem. Vestem do avesso os


aventais de chita e fazem o leite
sobrar do fervedor e o caldo ser
mais salgado do que o mar. Mas


é bonito vê-las caminhar descalças
ao longo do corredor, como se
pedissem um par para dançar. As


raparigas amam tanto. Sentam-se
em rodas de segredos uma tarde
inteira e esquecem no tanque os
colarinhos sujos das camisas, e os
cueiros, e uma barra de sabão a
derreter-se como o seu coração.


Mas é bonito vê-las beijar a boca
ao espelho no quarto das traseiras;
e também a outra boca no retrato
que a seguir escondem amordaçado
na algibeira, não lhes cobice alguém
o que não tem. As raparigas amam


de mais. Deixam-se ficar sem dizer
nada uma noite inteira, bordando
no linho dos enxovais letras secretas
ao calor do fogão. E picam os dedos


distraídos nas agulhas que usaram
para descobrir o sexo de cada filho
que terão num jogo que jogaram
entre elas à tardinha. Mas é bonito


vê-las ao serão, quando o vento as
chama atrevido da cozinha e dão
um pulo seco na cadeira, e largam o


bordado e a lareira, e correm até à
porta a colher beijos que lhes deixam
risos nos lábios tão vermelhos como
as mais doces cerejas deste verão.
                                                                                Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Olhos de Gato *

* Texto publicado no Jornal do Centro há cinco anos, em 17 de Fevereiro de 2006

     
1. Os eurocratas regulamentam tudo, desde o calibre dos kiwis à resiliência do látex. A Comissão Europeia - agora superiormente dirigida por Durão Barroso – entretém-se a produzir regulamentos e directivas que tentam domesticar, ordenar e classificar o mundo. Tudo o que existe, ou que há-de existir, é previsto e regulamentado, em Bruxelas, para nosso proveito e das gerações que hão-de vir.
     
O Anexo II, da Decisão da Comissão n.º 96/579/CE, de 24-06-1996, define "olhos de gato" como “retrorreflectores de pavimento”. Aquela directiva, no que diz respeito ao controle de qualidade destes elementos de segurança rodoviária, impõe “a intervenção de um organismo de certificação aprovado”.
     
Os “olhos de gato”, os simpáticos cravos que alumiam as noites escuras das nossas viagens, devem reflectir bem a luz dos nossos faróis. 
Imagem daqui

     
No caso daqueles mais recentes, que têm luz fotovoltaica própria, quais estrelas sinalizadoras do nosso ir, os “olhos de gato” hão-de brilhar sete noites por cada dia de sol, avisando os automobilistas que se aproximam duma passadeira.
     
2. Esta coluna de opinião, Olho de Gato no nome e no método, gosta dos “olhos de gato” das nossas estradas e das nossas ruas e solidariza-se com eles que tão maltratados são pelos automobilistas distraídos e com falta de pontaria.
     
3. O Dr. Ruas, no ano passado, pôs, na precaução das nossas passadeiras, uns “olhos de gato” muito ruins.
     
O “organismo de certificação” daquilo distraiu-se. Aquelas protuberâncias no asfalto eram um tropeço à circulação. Os automobilistas tinham que fazer trajectórias erráticas para as evitar. Ainda por cima, aqueles “olhos de gato” do Dr. Ruas perderam logo a luz, exactaqualmente uns pirilampos fundidos.
     
Estão agora a ser substituídos. Por uns bons, espera-se.