sábado, 30 de junho de 2012

Mais uma república monárquica

Chavez não cabia em si de contente e fartou-se de exteriorizar a sua satisfação e sintonia mental com o  ditador da Bielorrússia, durante a visita deste.

Alyaksandr Lukashenko aproveitou para anunciar que o seu filho Mikalai, de 7 anos, irá assumir o poder 
"dentro de 20-25 anos".

Chavez quis dar a palavra ao pequeno e engravatado Mikalai que declinou.

Simetria

Grande Prémio 

The 2012 Vimeo Awards


sexta-feira, 29 de junho de 2012

Pirosices *

* Publicado hoje no Jornal do Centro


     Carlos Magno, o presidente da ERC, foi à SIC e caracterizou muito bem, e em poucas palavras, o que se passa nos nossos meios de comunicação social: «vivemos num país onde se proletarizaram os jornalistas e se profissionalizaram as fontes».
     Isso é uma verdade visível a olho nu. Muitos jornalistas, com maior ou menor relutância, acabam por ter de trabalhar em assessoria de imprensa e/ou relações públicas. Esses jornalistas, ao serem forçados pelas circunstâncias da vida a deixarem de ser jornalistas, passam logo a ser melhor pagos.
     Uma parte deste trabalho fora das redacções é colocar conteúdos nos media através de canais mais ou menos formais, outra parte é comunicar directamente com o público.
     Milhões e milhões de euros de fundos públicos, nacionais e comunitários, têm sido e continuam a ser, como se diz em politiquês, “executados” com este tipo de “comunicação” — isto é, literalmente, têm sido “assassinados”.
     São toneladas de publicações mais ou menos kitsch, em papel lustroso, sempre iniciadas com uma “mensagem do senhor presidente” e respectiva fotografia engravatada. Estas produções gráficas, nada baratas, valem zero já que as pessoas tendem a deitar logo aquilo para o lixo.
     Já os vídeos institucionais — com os seus planos vistosos, as suas “musiquinhas de elevador” e as suas vozes-off bem timbradas a debitarem textos delicodoces e cheios de lugares-comuns — são excelentes para porem um auditório em estado zen.
     Na última sexta-feira, um orgulhoso Guilherme Almeida, vereador da câmara de Viseu, mostrou um destes vídeos, um vídeo sem ficha técnica dedicado à mui nobre e bela cidade de Viseu. Logo a seguir, eu, talvez um tudo nada à bruta, pedi a palavra e chamei àquilo “piroso”.
     Agora, mais a frio, diria que o vídeo não é completamente mau. Mas há maneiras mais úteis de aplicar o dinheiro público.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

One art

Fotografia de Isabel Muñoz


The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

Elizabeth Bishop

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Viseupédia — Revista ZUT!

Zut!, uma publicação pioneira em Viseu 
antes da entrada na CEE

 
(...)
Zut! bruto-parvo-nada
que Me roubaste tudo
'té Me roubaste a Vida
nem Me deixaste a Morte!
Zut! poeira-pingo-micróbio
que gemes pequeníssimos gemidos gigantes,
grávido de uma dor profeta colossal!
Zut! elefante-berloque parasita do não presta!
Zut! bugiganga-celulóide-bagatela!
Zut! besta!
Zut! bácoro!!
Zut! merda!!!
(...)
in A Cena do Ódio,
de Almada Negreiros

terça-feira, 26 de junho de 2012

Fazer do Centro Histórico de Viseu uma Babilónia (#1)




João Azevedo, é preciso ter calma!

Jornal de Notícias, hoje
Caro presidente da federação distrital do PS-Viseu, relax!, oiça o Pedro Abrunhosa!, não precisa de imitar o bluff tripeiro.

Não diga no sábado no Congresso do Caramulo:
"Queremos que Marta tenha a coragem de ser candidato a Viseu." 

É que, enquanto para o Porto o PS tem um nome fraco, para Viseu o PS tem dois nomes bem fortes.

Calor janelas fechadas

Fotografia de David Goldblatt


Calor janelas fechadas
Uma chuva que se derrama em ruínas


Os dias estreitam-se ..............Fiz bem em comprar .......................cigarros


Um cigarro entre as minhas mãos vem de outros dias


Com esta luz pálida vai para dois anos que me causas
...............frio


A noite o receio abrupto
Depois a casa corda amarrada em torno do meu pescoço
O quarto fechado sobre o seu conteúdo
Qualquer coisa de vermelho e espesso
Flui da tragédia sexual dos sonhos
Mas o corpo apoiado em cadeiras que tombam está seguro
No seu silencioso passado muito passado


.........................................Amanhã e amanhã e amanhã


Não saias sem os teus papéis
O lixo no fundo do olhar ............Ratos dos anos 50
E um coração frio


Este poema corrupto está cheio de correntes de ar
Alexis Traïanos


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Este blogue vota em "North Atlantic", a curta-metragem de Bernardo Nascimento

Os vencedores deste "Your Film Festival" 
serão exibidos no Festival de Veneza.

Detalhes aqui.

Votação aqui.

À atenção dos jornalistas em geral e dos jornalistas do Público em particular

António Costa
29'50'' 

«Se há entidade sobre a qual não me merece a menor credibilidade, é o chamado Conselho de Redacção do Público.

(...)
Presumo aliás logo que é tudo mentira o que diga o Conselho de Redacção do Público.»






Carlos Magno
 42'00''

«Quem manda 
em Portugal é quem 
decide o 
agenda setting 
no país.

(...)
Vivemos num país 
onde se proletarizaram 
os jornalistas 
e se profissionalizaram 
as fontes.»



domingo, 24 de junho de 2012

Minhas senhoras e meus senhores, temos a honra de vos apresentar Boaventura Sousa Santos!

«(...) ele é o sotaque de BSS, ele é o penteado de BSS, ele são os fatos de BSS para consumo ocidental, ele são as camisas exóticas de BSS para passeios no Hemisfério Sul. Para cúmulo, BSS fala», entusiasma-se, no DN de hoje, Alberto Gonçalves.

Mal ele sabe que o alter-intelectual de Coimbra também hipe-hopa:

Crime violento


Expresso, 23.6.2012, p. 15

Pôr uma "equipa de procuradores do crime violento" a apurar a gestão danosa nas parcerias-prejuízos-públicos-proveitos-privados rodoviárias não me choca: é que, nos gabinetes alcochoados da grande advocacia de negócios do regime, foi mesmo praticado um crime violento em que as vítimas são os nossos filhos e os nossos netos. 

O problema é que  a nossa justiça tem uma impecável folha de serviços: nunca falha a disaltinar os poderosos.

em Portugal, como é sabido, uma coisa dessas é impensável.

Viva Vildemoinhos!





sábado, 23 de junho de 2012

Esquerdireita

Fotografia de Sandra Bernardo

À esquerda da minoria da direita a maioria
do centro espia a minoria
da maioria de esquerda
pronta a somar-se a ela
para a minimizar
numa centrista maioria
mas a esquerda esquerda não deixa.
Está à espreita
de uma direita, a extrema,
que objectivamente é aliada
da extrema-esquerda.

Entretanto
extra-parlamentar (quase)
o Poder Popular
vai-se reactivar, se…

Das cúpulas (pfff!) nem vale a pena
falar, que hão-de
pular!

Quanto à maioria da esquerda
ficará ― se ficar ― para outro poema.
Alexandre O'Neill

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Isto não é nenhuma indirecta ...

... a nenhum concelho do distrito de Viseu.

Jornal do Centro, edição de hoje, p. 8

Yottabytes *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

     1. O ministro Relvas, no parlamento, disse que não gostava da resenha de imprensa que recebia do “espião” Jorge Silva Carvalho porque o tal serviço de clipping tinha “muita informação, nenhum conhecimento”.
     O ministro Relvas pôs o dedo numa ferida conhecida: quanto mais massa de informação, mais necessário é o seu tratamento. Caso contrário, há risco de “sobrecarga”. 
Imagem daqui
      Esta “sobrecarga” tem sido uma fábrica de novas palavras: bytes, kilobytes, megabytes, gigabytes, terabytes, petabytes, exabytes, zettabytes, yottabytes... Cada uma mil e vinte e quatro vezes vezes maior do que a anterior.
     Num muito interessante artigo, Chad Wellmon explica-nos “Porque é que o Google não nos está a fazer estúpidos... nem espertos”. O artigo acha-se na internet, esse imenso palheiro em que, querendo-se, se acaba por achar a agulha pretendida.
     Já agora, se julga que o alarido que vai por aí sobre os riscos de “overdose” de informação é novo, está enganado. No seu tempo, avisou Séneca: “a abundância de livros é uma distracção”, alarmou-se Leibniz: “a horrível massa de livros continua a crescer”, desanimou-se Kant: demasiados livros encorajam as pessoas a “ler muito” e “superficialmente”.

     2. Reza assim o ponto 3.44 do Memorando de Entendimento: “existem actualmente 308 municípios e 4.259 freguesias. Até Julho de 2012, o Governo desenvolverá um plano de consolidação para reorganizar e reduzir significativamente o número destas entidades.”
     Pelo que se tem visto, neste assunto o ministro Relvas arrasta os pés, um ou outro “Milosevic” mais vocal ameaça abrir uma guerra de campanário, e todos os partidos querem manter intocado o actual boyismo autárquico.
     Pode acontecer é que — num futuro próximo, no provável segundo resgate a Portugal — os credores obriguem o país a cumprir mesmo o acordado. E então as coisas serão feitas à bruta.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

A Parque Escolar inventou uma nova escola económica: o clepto-keynesianismo

Na capa do Diário de Notícias de hoje




Jubilações colectivas *

* Parte de um texto publicado no Jornal do Centro, em 2 de Maio de 2008
 
     Vivemos um clima “escassamente propício à jubilação colectiva”, conforme dizia o texto deste ano [2008] da Associação 25 de Abril que foi assinado, entre outros, por Mário Soares, Vieira da Silva, Ferro Rodrigues e António Costa.
     O nosso 11 de Setembro foi uns meses antes do americano; foi em 4 de Março de 2001, quando a Ponte de Entre-os-Rios caiu nas águas do Douro.
      Estamos em ressaca desde então.
     Não correu bem a ideia de fazer de Portugal um país de eventos. A Expo 98 e o Euro 2004 não nos ajudaram. Erguer estádios aumentou-nos o IVA e fechou-nos urgências. 
     Ainda por cima, infelizmente, o grego Haristeas marcou-nos aquele golo de cabeça na final… 
     ... Cristiano Ronaldo e José “special one” Mourinho consolam-nos alguma coisa, mas não chega.
     Continuamos de ressaca. 
     Levamos já sete anos** deste tempo “escassamente propício à jubilação colectiva.”

* Agora já são onze anos

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Vê como o verão

Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro. 
Eugénio de Andrade


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Quinta-feira, 21 de Junho, 23 horas

"Uma sonoridade acústica que transporta ao universo do folk / rock"


Cantigas

Fotografia de George Webber
Eu não sei muitas coisas, é verdade.
Falo apenas daquilo que vi.
E eis o que vi:
que o berço do homem embalam-no com cantigas,
que os gritos de angústia do homem afogam-nos
com cantigas,
que o pranto do homem tampam-no com cantigas,
que os ossos do homem enterram-nos com cantigas,
e que o medo do homem…
inventou as cantigas todas.
Eu cá não sei muitas coisas, é verdade,
mas adormeceram-me com todas as cantigas…
e conheço as cantigas todas.

León Felipe

terça-feira, 19 de junho de 2012

Boletim de Junho do LEAP: as trompetas de Jericó vão tocar sete vezes

* Tradução às três pancadas de um extracto do boletim de Junho do LEAP/E2020 que pode ser lido aqui.


     A partir de agora, a eurozona (mais exactamente, a UE menos a GB) poderá avançar para um verdadeiro projecto de integração política, eficiência económica e democratização, durante o período 2012-2016 conforme o Laboratório Europeu de Antecipação Política previu em Fevereiro (GEAB N°62).
     São boas notícias mas, para o próximos semestres, este "segundo Renascimento" do projecto europeu vai ser realmente a única boa notícia a nível mundial.
     Todos os outros componentes da situação global estão, de facto, apontados numa direcção negativa até catastrófica. 

   Também aqui, mais uma vez, os principais meios de comunicação estão agora a começar a dar eco à situação por nós antecipada para o verão de 2012. 
     Assim, de uma forma ou de outra, mais vezes nas páginas interiores do que nas manchetes (monopolizados durante meses pela Grécia e pelo Euro), agora já se vão encontrando nos media os seguintes 13 tópicos:
     1. Recessão global (não há motor de crescimento em lado nenhum / fim do mito da "recuperação dos Estados Unidos")
     2. Insolvência crescente dos bancos ocidentais e do sistema financeiro e, doravante, parcialmente reconhecida como tal
     3. Fragilidade crescente dos principais activos financeiros, tais como dívidas soberanas, imobiliário  e CDSs que sustentam o balanço dos grandes bancos mundiais
     4. Queda  no comércio internacional
     5. Tensões geopolíticas (em particular no Oriente Médio) aproximando-se do ponto da explosão regional
     6. Continuação dos bloqueios geopolíticos na ONU
     7. Rápido colapso de todos o activos dos sistemas de pensões ocidentais
     8. Aumento das divisões políticas dentro das potências "monolíticas" mundiais (EUA, China, Rússia)
     9. Ausência de soluções "milagrosas" como em 2008/2009, por causa da impotência crescente de muitos dos principais bancos centrais ocidentais (Fed, BoE, BoJ) e o endividamento dos Estados
     10. Credibilidade em queda livre para todos os países que têm que assumir a carga dupla da dívida pública e da dívida privada
     11. Incapacidade de controlar/retardar o aumento massivo do desemprego de longa duração
     12. Falhanço das políticas monetaristas e de estímulos financeiros, tais como as de "pura" austeridade
     13. Doravante, ineficácia quase sistemática das instâncias internacionais, G20, G8, Rio +20, OMC, ... em todos os temas-chave ausência de qualquer consenso: economia, finanças, meio ambiente, resolução de conflitos, luta contra a pobreza ... 

Para ti, hoje

Fotografia de Lois Greenfield


Para que tú me oigas
mis palabras
se adelgazan a veces
como las huellas de las gaviotas en las playas.

Collar, cascabel ebrio
para tus manos suaves como las uvas.

Y las miro lejanas mis palabras.
Más que mías son tuyas.
Van trepando en mi viejo dolor como las yedras.

Ellas trepan así por las paredes húmedas.
Eres tú la culpable de este juego sangriento.

Ellas están huyendo de mi guarida oscura.
Todo lo llenas tú, todo lo llenas.

Antes que tú poblaron la soledad que ocupas,
y están acostumbradas más que tú a mi tristeza.

Ahora quiero que digan lo que quiero decirte
para que tú las oigas como quiero que me oigas.

El viento de la angustia aún las suele arrastrar.
Huracanes de sueños aún a veces las tumban.

Escuchas otras voces en mi voz dolorida.
Llanto de viejas bocas, sangre de viejas súplicas.
Ámame, compañera. No me abandones. Sígueme.
Sígueme, compañera, en esa ola de angustia.

Pero se van tiñendo con tu amor mis palabras.
Todo lo ocupas tú, todo lo ocupas.

Voy haciendo de todas un collar infinito
para tus blancas manos, suaves como las uvas.

Pablo Neruda

"And Now For Something Completely Different" (#81)*

Triunfam aqueles que sabem quando lutar 
e quando esperar.
Sun Tzu




* Agradecimento, por me ter feito chegar esta preciosidade, a Alexandre Borges do blogue Canite Aguda

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Tiago Lopes

O Ano Internacional Viseense 2012, 
é dedicado ao Rei Ramiro II 
(primeiro "rei das terras portucalenses" 
e figura do brasão das cidades de Viseu e Gaia)

Para já, registe-se a excelente qualidade da "imagem oficial" feita por Tiago Lopes

La banca estaba jodida por haber exagerao

«É a crise do ladrilho, meu filho!!!»

domingo, 17 de junho de 2012

Quero a Fome de Calar-me

Fotografia de David Godichaud


Quero a fome de calar-me. O silêncio. Único
Recado que repito para que me não esqueça. Pedra
Que trago para sentar-me no banquete


A única glória no mundo — ouvir-te. Ver
Quando plantas a vinha, como abres
A fonte, o curso caudaloso
Da vergôntea — a sombra com que jorras do rochedo


Quero o jorro da escrita verdadeira, a dolorosa
Chaga do pastor
Que abriu o redil no próprio corpo e sai
Ao encontro da ovelha separada. Cerco


Os sentidos que dispersam o rebanho. Estendo as direcções, estudo-lhes
A flor — várias árvores cortadas
Continuam a altear os pássaros. Os caminhos
Seguem a linha do canivete nos troncos


As mãos acima da cabeça adornam
As águas nocturnas — pequenos
Nenúfares celestes. As estrelas como as pinhas fechadas


Caem — quero fechar-me e cair. O silêncio
Alveolar expira — e eu
Estendo-as sobre a mesa da aliança

Daniel Faria
 

Saudações à pintura dos seus olhos

Directamente de Bollywood

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Desopilar o fígado *

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. “Cosmopolis”, o último filme de David Cronenberg, é feito a partir de um livro de 2003, de Don DeLillo, livro profético na antevisão dos sarilhos que o capital financeiro ia criar ao mundo.
     
“Cosmopolis” conta a história de Eric Packer, um senhor de Wall Street, que usa a sua limousine para tudo — reuniões, encontros sexuais, até para o seu check-up médico diário em que fica a saber que tem a próstata assimétrica. O assimétrico Packer usa algoritmos simétricos para prever a cotação do yuan, a coisa vai correr mal. A unidade monetária podia ser ratos como é lembrado várias vezes no filme, para o efeito era a mesma coisa — ele, o senhor do universo, quer-se perder. Ele, o senhor do universo, já não adrenalina de petite-mort em petite-mort — nem com a madureza sexy de Juliette Binoche —, o senhor do universo quer a adrenalina do seu fim.
     
Cronenberg, depois de filmes sobre as cicatrizes do corpo como “Crash” ou “A Mosca”, agora olha para as feridas da alma: foi assim com o seu freudiano “Um Método Perigoso”, é-o com este “Cosmopolis”.

2. Numa cena muito divertida do filme, enquanto flasham as máquinas dos fotógrafos, é espetada uma tarte na cara de Eric Packer. Por coincidência, uns dias depois da rodagem desta cena, alguém meteu “uma tarte na tromba” do magnata dos media Rupert Murdoch (o entre-aspas é o título da última crónica de Clara Ferreira Alves no Expresso).
     
E se, como em Portugal os tribunais não funcionam para os poderosos, acontecesse a justiça mínima de “uma tarte na tromba” das criaturas responsáveis pela ladroagem no BPN ou nas parcerias-prejuízos-públicos-proveitos-privados? "Uma tarte na tromba” bem documentada em filme e em fotografia?
     
Já se sabe: isso não reparava o roubo de futuro feito aos nossos filhos e aos nossos netos, mas, ao menos, dava para desopilar o fígado.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Now or Always

Fotografia de Heidi Niemala


Is it for now or for always,
The world hangs on a stalk?
Is it a trick or a trysting-place,
The woods we have found to walk?

Is it a mirage or miracle,
Your lips that lift at mine:
And the suns like a juggler's juggling-balls,
Are they a sham or a sign?

Shine out, my sudden angel,
Break fear with breast and brow,
I take you now and for always,
For always is always now.
Philip Larkin



terça-feira, 12 de junho de 2012

"... e tem família em Lisboa?"

Carta a José Fonseca e Costa, 
Jornal Público; 11.6.2012

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O Cabeçudo e o Infante



Olha cá dous Infantes, Pedro e Henrique,
Progénie generosa de Joane;
Aquele faz que fama ilustre fique
Dele em Germânia, com que a morte engane;
Este, que ela nos mares o pubrique
Por seu descobridor, e desengane
De Ceita a Maura túmida vaidade,
Primeiro entrando as portas da cidade.
Luís de Camões




domingo, 10 de junho de 2012

Quitar ou kitar, Boucherie?

Revista do Expresso, 9.10.2012

Portugal, quero falar contigo

Portugal quero falar contigo.
Não faças esses olhos de quem viu um lobisomen. Achas esquisito, porventura, que queira falar contigo?
É que tenho coisas muito importantes para te dizer e só agora arranjei a coragem suficiente.

Portugal: eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse oitocentos.
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais e nunca mais voltasse?
Às vezes quase chego a acreditar que é tudo mentira, que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente.

Portugal: não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional, que os meus egrégios avós me perdoem.
Ontem estive a jogar ao poker com o Velho do Restelo. Ele anda na consulta externa do Júlio de Matos. Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas.

Portugal: eu se tivesse dinheiro comprava um império e dava-to. Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir.

Portugal: vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém. Sabes, estou loucamente apaixonado por ti.

Pergunto a mim mesmo como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu mas que tem um coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentúgal e o corpo cheio de pontos negros para eu poder espremer à minha vontade.

Portugal estás a ouvir-me? Eu nasci em 1957, Salazar estava no poder, nada de ressentimentos.
O meu irmão estava na guerra, tenho amigos que emigraram, nada de ressentimentos.
Um dia bebi vinagre, nada de ressentimentos.

Portugal: ia propor-te um projecto iminentemente nacional: que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que o Camões lá deixou.

Portugal: sabes de que cor são os meus olhos? São castanhos como os da minha mãe.
Portugal gostava de te beijar muito apaixonadamente na boca.
Jorge de Sousa Braga

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Nomes *

* Publicado hoje no Jornal do Centro


     Em Março, o PSD-Viseu elegeu Guilherme Almeida como presidente da concelhia; agora foi a vez dos militantes do PS elegerem, sem surpresa, Lúcia Araújo Silva
     Em vez das usuais listas únicas, os dois partidos do centrão este ano estiveram mais vivos que mortos e isso viu-se nas matemáticas eleitorais. Veja-se o exemplo do PS: em 2009, votaram só 78 socialistas, desta vez foram 650. Lúcia Araújo Silva deve estar grata ao seu adversário Filipe Nunes (uma boa surpresa no debate eleitoral). Guilherme Almeida devia estar também grato a José Moreira.
     Fazendo um parêntesis, deva-se dizer que João Azevedo, candidato à recondução como líder distrital do PS, teria toda a vantagem em ter um adversário forte. Só que, compreensivelmente, Acácio Pinto não parece querer avançar.
     Regresse-se ao concelho de Viseu: arrumadas as casas partidárias, a partir de agora vão começar as manobras para ver quem vai ocupar a cadeira de Fernando Ruas, no Outono de 2013. 
     Para já, em matéria de nomes, o PSD e o PS estão empatados. Cada um tem um outsider anunciado: José Costa no PSD e Fernando Cálix no PS.
     Quanto a nomes fortes, há dois no PSD — Almeida Henriques (secretário de estado) e Carlos Marta (presidente da câmara de Tondela) e dois no PS — José Junqueiro (deputado e ex-secretário de estado) e Carlos Diogo Pires (ex-presidente da câmara de Vila Nova de Paiva). Até aqui há empate qualitativo e quantitativo entre os dois partidos.
     Eis o tema político mais sensível em Viseu até às autárquicas: “o balanço e o legado dos 24 anos do dr. Ruas”.
     O incansável Junqueiro já começou a escrever sobre isso no Diário de Viseu. Diogo Pires tem também ideias claras sobre o assunto. Já no PSD — como Américo Nunes vai querer ser o beneficiário do testamento e Guilherme Almeida não se mede —, as coisas vão azedar.
     Vêm aí tempos políticos interessantes.

Nunca veas a una puta con luz de día



Fotografia de Alessandro Zuek Simonetti


Nunca veas a una puta con luz de día,
es como mirar una película con la luz encendida.
Como el cabaret a las diez de la mañana,
con los rayos de sol atravesando
el polvo que se levanta cuando barres.

Como descubrir que ese poema
que te hizo llorar a la noche,
al día siguiente apenas te interesa.
Es como sería este puto mundo
si hubiera que soportar las cosas tal y como son...

Como descubrir al actor
que viste haciendo Hamlet
en la cola del pan.

Como el vacío cuando te pagan
y no sentís ni siquiera un poquito.
Como la tristeza cuando te pagan
y sentiste por lo menos un poquito.

Como abrir un cajón y descubrir
una foto de cuando la puta tenía nueve años.

Como dejarte venir conmigo sabiendo

que cuando se acabe la magia
vas a estar con una mujer como yo,
en Montevideo
Mario Benedetti

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Taquepariu *

«A corrupção deve ser combatida 
com leis 
claras e transparentes»
disse hoje ele, em Oeiras, no dia do município.



* Os direitos de autor desta palavra são devidos ao grande Reinaldo Moraes

Fonte

Fotografia de Jian Cheng Dong


Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.


Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.


Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
Sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
Era a fonte.


Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maçã tomava um princípio
de esplendor.


Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.
Herberto Helder

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Hélder Amaral em jogo

O Diário de Viseu, na segunda-feira, 
trouxe um texto de Hélder Amaral em que este dispara com todo o seu poder de fogo num alvo: 
o centrão.

Depois de um fogo nutrido de artilharia pesada, o deputado centrista afina o tiro num alvo preciso: Fernando Ruas. 

Que é como quem diz — Hélder Amaral não quer ficar fora do debate do que virá a seguir ao dr. Ruas que está já a menos de um ano e meio do final de mandato.

Eis o último parágrafo do texto intitulado  
"Eleitores pagadores e outros autarcas":
.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Esta Gente / Essa Gente

Fotografia de Alessandro Zuek Simonetti



O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente
Ana Hatherly


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Situação da indústria portuguesa no início da década

Fotografia de Walker Evans


Às vezes, quando a pressão das entregas aumenta,
ajudo a carregar os camiões,
mas o envenenamento é o fim-de-linha, onde cada tarefa
é como a execução de um castigo. Pagam-me mal,
mal tenho tempo para comer um pão ao meio-dia, sinto
que a força
dos meus dezasseis anos não corresponde ao parco
salário que me devem. De aqui a uns anos, irei cumprir
o serviço militar, perderei a precaridade do emprego, ainda ontem
uma das mulheres quase ficou sem um braço no sector
velocíssimo
da transformação. Servir a pátria é, começo a não ter dúvidas,
sofrer esta amargura endémica, a pobreza a alcançar-nos
em pouco mais de um passo, os olhos corrompidos
pelo vinagre da luminosidade, a consciência das coisas
ilegítima na compreensão da linguagem, eu calo-me,
os outros falam por mim. Olho em volta, sinto
inexplicavelmente a natureza fortuita das coisas, embrenho-me
aos domingos na multidão triunfante, gasto em vinho a humilde
alegria
que as pequenas vitórias me consentem, tremem-me
as mãos só de pensar que existe amor no mundo, algures,
longinquamente,
no infinito da nossa ignorância. Gostava de saber o nome
deste usufruto da terra, quais as cumplicidades
que tornam tudo isto possível, em que lugar de fogo e de agrura
o rosto corresponderá ao rosto e o silêncio
a esta forma de fome secular. Tudo é assim
liminarmente sujo, carregado de sangue e de arestas, e duvido
das proféticas sentenças sobre a vida que me oferecem, sem que
as contemple, ao menos um instante. Ao fim da noite,
aconchego-me ao sol da praia predilecta do meu coração,
tudo me dói,
é um lençol de luz e solidão o que recebo, creio na morte
como única solução, maldito quem por minha vez alguma vez
pecou
sem que ratificasse a estranha recompensa de ter aberto
uma passagem para nenhum lugar.
Agora estou aqui e não posso pensar, uma outra carga
chama-me,
obedeço cegamente ao encarregado geral, ninguém suspeita
mas tenho dentro de mim uma indústria onde ninguém produz
porque não vale a pena.
Amadeu Baptista