segunda-feira, 31 de março de 2014

Defensa de la alegría

Fotografia de Nadia Sablin

Defender la alegría como una trinchera
defenderla del escándalo y la rutina
de la miseria y los miserables
de las ausencias transitorias
y las definitivas

defender la alegría como un principio
defenderla del pasmo y las pesadillas
de los neutrales y de los neutrones
de las dulces infamias
y los graves diagnósticos

defender la alegría como una bandera
defenderla del rayo y la melancolía
de los ingenuos y de los canallas
de la retórica y los paros cardiacos
de las endemias y las academias

defender la alegría como un destino
defenderla del fuego y de los bomberos
de los suicidas y los homicidas
de las vacaciones y del agobio
de la obligación de estar alegres

defender la alegría como una certeza
defenderla del óxido y la roña
de la famosa pátina del tiempo
del relente y del oportunismo
de los proxenetas de la risa

defender la alegría como un derecho
defenderla de dios y del invierno
de las mayúsculas y de la muerte
de los apellidos y las lástimas
del azar

y también de la alegría
Mario Benedetti


Tableau Vivant of The Delirium Constructions - Skylight One Hanson, 2011 from The Delirium Constructions

domingo, 30 de março de 2014

Vem aí a Taxa Teodora?



Bem-vindo, Quadratura da Sé!

Estava muita gente na apresentação do novo blogue de Viseu,
não consegui uma fotografia com os quatro,
mesmo para tirar esta incomodei as pessoas mais do que devia. 
(Fotografia Olho de Gato)

  
Gustavo Brás, José Pedro Gomes, Graça Canto Moniz e Rúben Fonseca podem e devem ser vistos e lidos no novo blogue de Viseu: Quadratura da Sé.

Relatório em forma fechada

Fotografia de William Eggleston




Os estragos da noite foram vastos,
inversos ao pulsar da primavera:
há tempo em que se luta pelos gastos
rastos da vida e o tempo novo gera

desilusão somente, esse viscoso
correr da insónia como se já água
as lágrimas não fossem e no fosso
há pouco aberto qualquer outra água

de natureza opaca suspendesse
a sua interminável queda; voltas
por fim à noite espessa que já tece
a madrugada com as linhas soltas

da minha vida, versos que transformam
em realidade as sílabas que os formam
Gastão Cruz


sábado, 29 de março de 2014

A dona Constança não tem parança...



... e o PS da mistura política com negócios também não.

um recadinho

Fotografia de Munem Wasif


vou ao mercado
peço-te que me esperes aqui até eu voltar
podes lavar a tua roupa se te sentires aborrecida
e se a porta te perturbar
então arranca-a
e põe qualquer coisa no seu lugar
peço-te que não deixes a tua cara no espelho
e não saias pela janela
não te mates como é teu costume
mas
espera-me
aqui
até
eu voltar
Ahmed Barakat

"And Now For Something Completely Different" (#113)


sexta-feira, 28 de março de 2014

Adivinhações *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

Fotografia Olho de Gato
1. Depois de vários anos de obras e não só, os parquímetros estão de volta à Avenida Alberto Sampaio, de Viseu.

Foram anos maus para o comércio, mas bons para os moradores que puderam deixar o carro à porta sem custos. Agora, com o mete-moedas, os comerciantes ficam contentes com a rotação nos estacionamentos, já os moradores não.

Há aqui uma evolução boa: quando os parcómetros foram instalados em Viseu, há 15 anos, houve contestação generalizada. Agora, eles são percebidos como uma boa ferramenta para democratizar o acesso a um bem raro — estacionamento no centro da cidade.

Já no que diz respeito à câmara, não há nenhuma evolução. Fernando Ruas nunca percebeu que devia ter reservado lugares de estacionamento para moradores nas ruas parquejadas. Nunca se saberá em que medida essa incompreensão terá também contribuído para a desertificação do centro.

O novo presidente da câmara de Viseu, António Almeida Henriques, trouxe um estilo novo, com muita metapolítica e propaganda bem feita pelo seu enérgico assessor Jorge Sobrado. Pensamento e acção para o centro da cidade é que não se tem visto nada. Podia começar-se por este dossier: estacionamento dos moradores. Por exemplo, na Avenida Alberto Sampaio.

2. Na tarde de 14 de Março, a Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões fez uma sessão promocional de uma hora e meia na Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL). A assistirem, quarenta pessoas: deputados, presidentes de câmara, vereadores, assessores, todos vips da região, ninguém fora da região. “Na BTL a falar para nós”, foi o certeiro título da notícia deste jornal que contava o caso.

Ora acontece que, num texto publicado seis dias antes, a 8 de Março, Hélder Amaral perguntava: "Esqueceram-se que o importante é captar turistas e não serem eles os próprios turistas?"

Ó deputado Hélder Amaral, agora é adivinho?

SMS #8 *

* Publicada hoje no Correio Beirão



Imagem do Financial Times daqui
O presidente Paulo do novo "Banco de Fomento” vai ganhar €13 500,00; a vogal Carla vai encaixar €12 515,44 e o vogal Nuno €8034,98.

Estes três generosos fins-de-mês do novo banco público soltaram, esta semana, a invejosice nacional do costume.

Não se viu foi ninguém a perguntar: para que raio precisa o estado de mais um banco? Que é que ele pode fazer que não possa ser feito pela CGD?

SEXTA-FEIRA NEGRA — em quatro cantos*

* Pensado, mobilizado e realizado pela Cul-de-Sac

Fotografia: José Leitão




quinta-feira, 27 de março de 2014

Viseu — Ribeira


Do not go gentle into that good night

Fotografia de Federico Erra


Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn , too late, they grieved it on its way
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, em now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
Dylan Thomas


quarta-feira, 26 de março de 2014

"And Now For Something Completely Different" (#112)


Morcões e javardolas

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 26 de Março de 2010


1. Conforme escrevi aqui, Manuel Alegre tem sido “uma ‘voz em alvo’ sem nada dentro”. Na sexta-feira em Bragança, finalmente, Alegre lá decidiu meter algum sumo no que diz e malhou forte no PEC, para alegria das suas tropas do bloco.

Entretanto, a aspiração alegrista de fazer campanha lado a lado com Sócrates e Louçã não está fácil. No domingo, o Correio da Manhã perguntou a Louçã: «Já se viu, Francisco Louçã, ao lado de José Sócrates na campanha presidencial de Manuel Alegre?»

«Não, não me vou ver nem me vejo.» - respondeu, seco, Louçã.
Portanto, sem misturas, a campanha alegre vai ter um calendário peculiar: às segundas, quartas e sextas, Alegre tem a escolta de Francisco Louçã; às terças, quintas e sábados, Manuel Alegre está a contar com José Sócrates.

Aos domingos, nada de campanha. Manuel Alegre, como se sabe, aos domingos vai à caça. Vai tentar fazer às perdizes e às rolas o que o PEC faz à classe média e aos pobres.

2. Na Alemanha há eleições regionais em 9 de Maio. A Grécia precisa de 53 mil milhões de euros até ao fim de Maio.

Há aqui uma janela de tempo para Angela Merkel passar o cheque. Mas as coisas estão feias. Basta ver a imprensa alemã que, todos os dias, execra os gregos. O menos desagradável que lhes diz é: “levantem-se mais cedo!”

3. O excelente blogue “Viseu, Senhora da Beira” tem publicado fotografias que mostram os problemas causados pelos morcões que deixam o carro estacionado em qualquer lado, até em cima das passadeiras.

Imagem Viseu, Senhora da Beira
Sugiro-lhe que publique também fotografias dos nossos ecopontos. 

Há muitas criaturas que chegam lá e colocam o seu lixo no chão. Era só levantar a tampa e pôr o lixo dentro. Mas não! Deixam-no mesmo no chão, os javardolas. A seguir, os cães e o vento espalham a lixarada.

terça-feira, 25 de março de 2014

A escolha de candidatos em primárias havia de cá chegar — não foi o PS por tacanhez do aparelho, é o Partido Livre

Nas eleições internas do PS em Julho de 2011, António José Seguro falou muito na escolha dos candidatos socialistas às diversas eleições em primárias fechadas (por militantes) e Francisco Assis foi mais longe, e defendeu que essa escolha seria feita em primárias abertas (por militantes e simpatizantes).

O PS podia ter sido pioneiro das primárias na terceira república se aquilo que António José Seguro e Francisco Assis andaram a dizer em 2011 não tivesse sido uma vigarice política.

Assim, é o partido LIVRE que inaugura esta forma de escolha de candidatos:

Mais detalhes aqui

a puta da língua

Fotografia de Bernard Plossu


a puta da língua
vai com todos
a mim sempre se recusa alegando
sonolência dor de costas sangue a mais medo de parir
faço-lhe um filho faço-lhe dois faço-lhe muitos
quem sujo de sangue aparece sou eu
quem lava e esfrega é ela ah
grande amor grande dor
de corno
Bénédicte Houart

segunda-feira, 24 de março de 2014

«Esta casta de professores destacados, que basicamente não querem dar aulas (...) por cunhas (...) vão parar aos ministérios (...) são adjuntos de ministros e coisas assim (...) e então dedicam-se às ciências da educação...» Maria Filomena Mónica

Minha Pátria

Fotografia de Sanne Sannes


Minha pátria não é a língua portuguesa.
Nenhuma língua é a pátria.
Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
e o vento que sopra em Maceió.
São os caranguejos que correm na lama dos mangues
e o oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando sonho.
Minha pátria são os morcegos suspensos no forro das igrejas carcomidas,
os loucos que dançam ao entardecer no hospício junto ao mar,
e o céu encurvado pelas constelações.
Minha pátria são os apitos dos navios
e o farol no alto da colina.
Minha pátria é a mão do mendigo na manhã radiosa.
São os estaleiros apodrecidos
e os cemitérios marinhos onde os meus ancestrais tuberculosos
.......................................................[e impaludados não param de
.......................................................[tossir e tremer nas noites frias
e o cheiro de açúcar nos armazéns portuários
e as tainhas que se debatem nas redes dos pescadores
e as résteas de cebola enrodilhadas na treva
e a chuva que cai sobre os currais de peixe.
A língua de que me utilizo não é e nunca foi a minha pátria.
Nenhuma língua enganosa é a pátria.
Ela serve apenas para que eu celebre a minha grande e pobre pátria muda,
minha pátria disentérica e desdentada, sem gramática e sem dicionário,
minha pátria sem língua e sem palavras.
Lêdo Ivo


domingo, 23 de março de 2014

Não escute

Fotografia de Mona Kuhn



Não escute meu choro
quieto:
eu sou um deserto
e preciso chorar

Não escute meu amor
fugidio:
eu sou um rio
e preciso passar

Não escute meu sorriso
constante:
eu sou um instante
e preciso durar
Elizabeth Hazin



sábado, 22 de março de 2014

Digo que não sou um homem puro

Fotografia de Alfred Eisenstaedt


Não vou dizer-te que sou um homem puro.
Entre outras coisas
falta saber se a pureza existe.
Ou se ela é, digamos, necessária.
Ou possível.
Ou se é agradável.
Acaso alguma vez bebeste água quimicamente pura,
água de laboratório,
sem um grão de terra ou de esterco,
sem o pequeno excremento de um pássaro,
água não mais feita de oxigénio e hidrogénio?
- Puf!, que porcaria.

Não te digo, pois, que sou um homem puro,
não te digo isso, mas precisamente o contrário.
Que amo (as mulheres, naturalmente,
pois o meu amor pode dizer o seu nome)
e gosto de carne de porco com batatas,
e grão-de-bico e chouriço, e
ovos, frango, carneiro, peru,
peixe e marisco,
e bebo rum e cerveja e aguardente e vinho,
e fornico (mesmo com o estômago cheio).
Sou impuro, que queres que te diga?
Totalmente impuro.
No entanto,
penso que há no mundo muitas coisas puras
que mais não são que pura merda.
Por exemplo, a pureza do nonagenário virgem.
A pureza dos noivos que se masturbam
em vez de dormirem juntos numa pousada.
A pureza dos internatos, onde
a fauna pederasta
abre as suas flores de sémen provisório.
A pureza dos clérigos.
A pureza dos académicos.
A pureza dos gramáticos.
A pureza dos que afiançam
que é preciso ser puro, puro, puro.
A pureza dos que nunca tiveram blenorragia.
A pureza da mulher que nunca lambeu uma glande.
A pureza que nunca sugou um clítoris.
A pureza que nunca pariu.
A pureza que nunca gerou.
A pureza do que bate no peito e
diz santo, santo, santo,
quando é um diabo, um diabo, um diabo.
A pureza, enfim,
de quem não chegou a ser suficientemente impuro
para saber o que é a pureza.

Ponto final, data e assinatura.
Assim fica escrito.
Nicolás Guillén


"And Now For Something Completely Different" (#111)

Gif de Joe Smith

sexta-feira, 21 de março de 2014

Declarem a coisa prescrita e não se fala mais nisso

Aliás, foi só um ajuste directo a um conhecido de uma coisa que não foi feita, que não era precisa, de que ele não percebia nada e que foi paga ainda antes de ele começar a bulir

O real tem muita imaginação *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Esta semana, em que se comemora o 12º aniversário do Jornal do Centro, repete-se o título do primeiro Olho de Gato, de Março de 2002.

Em jeito de “doutrina” para esta crónica que começava, escrevi então que “o real tem muita imaginação” já que "por mais que tentemos perceber as coisas e o mundo, há sempre algo que nos escapa, e é esse ficar aquém e além, é essa distância que dá sal à nossa vida e combustível ao nosso espírito".

Este é o Olho de Gato nº 468. Uns saíram melhores, outros piores, como é normal. Todos tentaram dar um pouco de combustível ao espírito dos leitores.

Jorge Luis Borges disse uma vez que escrevia para se lembrar. Depois destes 12 anos, percebo bem essa ideia do génio argentino. Li muito mais, estive muito mais atento, pesquisei muito mais, para poder escrever aqui, primeiro em ritmo quinzenal, depois semanal.

No Olho de Gato sempre se usou e vai continuar a usar-se o método de Norberto Bobbio: devemos escolher uma parte, depois dessa escolha feita, há que exercer o juízo crítico com severidade, especialmente com a nossa parte.

Um ou outro aparelhista partidário mais encardido e instalado não gosta. Azar o dele.

2. A Lei Orgânica nº 3/2006, Lei da “Paridade”, já foi aplicada em duas eleições autárquicas, as de 2009 e 2013.

Eis como estão as coisas no distrito de Viseu: não há nenhuma mulher presidente da câmara em nenhum dos 24 municípios; temos três “presidentas” de assembleia municipal; temos 14 “presidentas” de junta num total de 276 freguesias.

Duas câmaras, as de Sernancelhe e Tabuaço, são completamente machas, nem uma vereadora têm. Na câmara de Castro Daire há quatro socialistas de voz grossa — desapareceu, pelo menos, uma vereadora socialista eleita.

Como se vê, a lei dita da “paridade”, afinal, ainda não pariu paridade nenhuma.

SMS #7 *

* Publicada hoje no Correio Beirão

Fotografia de Sharon Smith
A SMS da última semana tinha um erro: municípios até 7500 eleitores e freguesias até 750 eleitores podem eleger só homens. 

Ao contrário do aqui afirmado, não houve nenhuma subtracção de vereadoras nas câmaras de Sernancelhe e de Tabuaço.

Aquelas duas másculas câmaras ainda estão no século passado em matéria de participação feminina na política, mas está tudo dentro da letra da Lei da “Paridade”. 

Ponha-se “paridade” entre aspas enquanto não se chegar ao 50%-50%.

quinta-feira, 20 de março de 2014

À chegada dos dias grandes

Fotografia de Andre de Dienes


Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia é já maior que ontem era

Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
é este o Deus que o meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada

A primavera é o meu país
Saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz

E dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição.
Ruy Belo



"And Now For Something Completely Different" (#110)


quarta-feira, 19 de março de 2014

Um grande sarilho*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 19 de Março de 2010

1. Em 18 de Dezembro, escrevi aqui que o pior que a esquerda poderia fazer era ir com um candidato único às presidenciais.

Passaram três meses e houve evolução: (i) Cavaco Silva recuperou alguma da força perdida com o episódio das escutas; (ii) Alegre avançou de braço dado com Louçã; (iii) Jerónimo de Sousa avisou que o PCP vai ter candidato próprio; (iv) Fernando Nobre anunciou uma candidatura independente.

Os discursos de lançamento de Manuel Alegre em Portimão e em Coimbra foram pífios e fracos. Manuel Alegre é uma “voz em alvo” sem nada dentro. Já se percebeu que ele engole os sapos todos que forem precisos para fazer uma descida da Avenida da Liberdade com Louçã à sua esquerda e Sócrates à sua direita. Louçã e Sócrates lado a lado. Mais um sarilho em cima deste grande sarilho em que estamos metidos.

Caro Jaime Gama, vai deixar Cavaco Silva fazer um passeio tão fácil nas próximas presidenciais?

Inês de Medeiros — PS
(imagem daqui)
2. As previsões macroeconómicas do programa de estabilidade e crescimento dizem-nos que, até 2013, vamos ter um crescimento que nos vai permitir alcançar o nível de riqueza de… 2008.

Entretanto, até 2013, mais 300 mil portugueses vão emigrar.

Estamos metidos num grande sarilho.

3. Há uma deputada, eleita pelo círculo de Lisboa, que quer que o parlamento lhe pague os fins-de-semana em Paris, a 1700 quilómetros dos seus eleitores. 

Ela sabe que os deputados não precisam de agradar aos seus eleitores. Ela sabe que os deputados só precisam de agradar a quem os põe na lista.

Estamos metidos num grande sarilho.

4. «Rouba-se muito. O país não tem dimensão para se roubar tanto.» - disse, preto-no-branco, Pedro Ferraz da Costa ao Expresso (15.8.2009).

Estamos metidos num grande sarilho.
Desde 1143.

Entrei no café com um rio na algibeira

Fotografia de Henry Cartier-Bresson



Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.
José Gomes Ferreira


terça-feira, 18 de março de 2014

Na idade perfeita


Fotografia de Robert Doisneau

O sabor do café e o cigarro,
o pausado passeio cada tarde,
o cheiro da terra quando chove,
a grata conversa com um amigo
e uma rara página gostada
são teu amor à vida, os teus sentidos.
Aprofundam-se as feridas com o tempo
embora ele mesmo esconda as cicatrizes.
Passou a juventude e o que tens
chamam-lhe os néscios maturidade.
Fernando Ortiz


"And Now For Something Completely Different" (#109)


segunda-feira, 17 de março de 2014

sad song

Jenniffer Jason Leigh em Short Cuts, de Robert Altman


hay una tristeza por toda la casa los vasos
medio vacíos indican que ayer noche unos labios
no muy rojos pusieron cerco a tus escrúpulos

marcas ele noventa sesenta noventa con ele nueve
cero tres delante la voz que te dice cariño
cómeme las bragas empieza a resultarte conocida

ahora ya conoces la soledad de los domingos
Pablo García Casado

)

sábado, 15 de março de 2014

É mal de enigmas não se decifrarem a si próprios

Fotografia de Mathias Vriens-McGrath


É mal de enigmas não se decifrarem a si próprios.
Carecem de argúcia alheia
e da retórica.
Procuram uma qualidade
em pedra e cal.

(Repelem-na,
ao mesmo tempo.
Tal é a condição dos enigmas.)

Quedam-se por aí:
esguios ao tacto,
ocos de imagem,
ferozes no seu silêncio.

Dignos e sós
como um concerto de violoncelo.
José Almino

Parque Aquilino Ribeiro — Viseu, Março de 2014

Fotografia Olho de Gato

sexta-feira, 14 de março de 2014

Europeias (#1) *

* Publicada hoje no Jornal do Centro

1. As eleições europeias deste ano vão decorrer num quadro político muito parecido com o de 2004.

Naquele ano, Durão Barroso e Paulo Portas governavam coligados, agora são Pedro Passos Coelho e o mesmo Portas. Em 2004, a coligação de direita às europeias chamou-se "Força Portugal", agora chama-se "Aliança Portugal".

Por sua vez, na oposição, o PS era dirigido pelo pouco carismático Ferro Rodrigues, agora é dirigido pelo pouco carismático António José Seguro. Há dez anos o cabeça de lista do PS foi o moderado Sousa Franco, agora é o moderadíssimo Francisco Assis.

Para completar o ramalhete de semelhanças: em 2004 havia um grande descontentamento com o governo PSD/CDS, este ano o descontentamento não é menor, especialmente do eleitorado "grisalho" que tem visto as suas pensões amputadas. Não é preciso pedir ajuda à Maya. É sabido: Pedro Passos Coelho vai levar no toutiço no dia 25 de Maio.

Vale por isso a pena lembrar os resultados eleitorais de 2004: o PS teve então 44,5% dos votos e a Força Portugal 33,2%. Os socialistas elegeram 12 deputados europeus, a direita 9, os comunistas 2 e o bloco 1.

O PSD e o CDS estão numa situação esquizofrénica: sabem que não vão ganhar, não querem perder por muitos, mas querem, acima de tudo, que Seguro fique seguro no seu partido.


Uma coisa é certa: depois dos anos do autoritarismo negocista de Sócrates, o PS já não tem a força política nem a autoridade moral que tinha em 2004. Apesar disso, Seguro está obrigado a, no mínimo, deixar a direita a 5% de votos e a eleger mais deputados que a “Aliança Portugal”.

Caso contrário, ou António Costa toma conta do assunto, ou Pedro Passos Coelho ganha as próximas legislativas.


2. Fernando Ruas ocupa um honroso segundo lugar na lista da “Aliança Portugal”. Quero cumprimentá-lo por isso.

SMS #6 *

* Publicada hoje no Correio Beirão


Imagem daqui
Em Sernancelhe, o presidente da câmara e o vice-presidente são Carlos. Os vereadores são Armando, César e Vítor. 

Em Tabuaço, por coincidência, o presidente e o vice-presidente Carlos são. Vereadores: Manuel, João e José.

Ora, nos termos da lei, em Sernancelhe foi eleita pelo menos uma vereadora e em Tabuaço pelo menos outra. 
Cadê elas?

Estas câmaras tão machonas também celebraram o Dia da Mulher?

A felicidade pode ser de carne

De "O Livro de Cabeceira — The Pillow Book"
filme de Peter Greenaway

A felicidade pode ser de carne
de pele apenas - corpo sem cara
nem cabeça, mas com a boca máxima
e muitos braços, peitos, coxa
perna musculosa, clavícula
omoplata, ventre liso esticado
peludo no lugar certo do sexo
e mais o cheiro preciso, exasperado
da axila, virilha, pé
tudo chegando junto, de uma vez
ou aos poucos, esquartejado.
Armando Freitas Filho

)

quinta-feira, 13 de março de 2014

Gatos e mulheres e cães e homens



Mulheres e gatos agem como bem entendem.
Homens e cães deviam relaxar e acostumar-se a isso.
Robert A. Heinlein

)

quarta-feira, 12 de março de 2014

O estado *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 12 de Março de 2010



1. O sismo de 27 de Fevereiro atingiu fortemente Concepción, uma cidade chilena de quase um milhão de pessoas. Seguiram-se vários dias terríveis de pilhagens e vandalismo que levaram à formação de milícias e a episódios de justiça sumária. Quando foi possível mandar o exército em força para a região, decretou-se um severo recolher obrigatório de 18 horas.

Estes factos graves passados agora no Chile repetem-se sempre em iguais circunstâncias em todas as latitudes e longitudes. Fazem parte daquilo a que se costuma chamar a “natureza humana”. A ordem que faz funcionar as nossas sociedades não é uma ordem natural, é um verniz muito fino e que começa a estalar logo às primeiras adversidades.

Como há muito tempo nos dizem a religião, a literatura e a ciência, para nos podermos amar uns aos outros tem que haver um “acima de nós” que tal nos imponha.

Esse “acima de nós” é o estado. E, quanto mais fraco estiver o estado, mais dificuldade teremos em nos amarmos uns aos outros.

2. Foi lançado em Londres o livro “The end of the party”, de Andrew Rawnsley, onde se revela que, por causa da guerra do Iraque, Tony Blair sofreu um acentuado declínio psicológico e físico, e que esteve à beira da depressão. Pensou, até, em demitir-se na primavera de 2004.


Fotografia daqui
À semelhança do que se passa com as pessoas, a guerra do Iraque mostrou que também para os estados se poderem amar uns aos outros é preciso um “acima deles” capaz de os obrigar a isso.

Esse “acima dos estados” chama-se globalização. As instituições internacionais “acima dos estados” têm-se solidificado e vão ter um papel cada vez mais activo.

Já há, até, algum direito penal internacional, embora só para os vencidos. É só por isso que Bush e Blair se safam do banco dos réus. E é pena.

Thomas Bernhard

Thomas Bernhard 
Ilustração de Mathew Richardson



Dediquei-lhe um poema, há mais
de dez anos, para o qual certamente
se estaria nas tintas, se o lesse. É
um dos raros escritores que conseguiu
a difícil lucidez de detestar a pátria, essa
obrigatória e durável fonte de equívocos
e mal-entendidos. Por isso
ele gostava de passar temporadas
em Portugal, não pelo mar, nem
pela comida, nem pelos modos
amigáveis para turistas, mas sim
porque podia escutar uma língua
sem ter de entendê-la.
Inês Lourenço

)

terça-feira, 11 de março de 2014

Invenção do nada

Fotografia de Steven Meisel



Não reparei
enquanto aqui escrevia
que nada resta do mundo
excepto a minha mesa e a cadeira.

E por isso disse:
(por que raio, para abusar da paciência)
É esta a taberna
sem um copo, vinho ou criado
onde sou o bêbado que há muito esperam?

A cor de nada é azul.
Eu bato-lhe com a mão esquerda e a mão desaparece.
Então porque estou tão sossegado
e tão feliz?

Eu subo para a mesa
(a cadeira já desapareceu)
eu canto pelo gargalo
de uma garrafa de cerveja vazia.
Charles Simic


segunda-feira, 10 de março de 2014

O tempo, esse patife

Fotografia Olho de Gato

Mientras por competir con tu cabello

Fotografia de Jean-François Campos


Mientras por competir con tu cabello,
oro bruñido al sol relumbra en vano;
mientras con menosprecio en medio el llano
mira tu blanca frente el lilio bello;

mientras a cada labio, por cogello,
siguen más ojos que al clavel temprano;
y mientras triunfa con desdén lozano
del luciente cristal tu gentil cuello;

goza cuello, cabello, labio y frente,
antes que lo que fue en tu edad dorada
oro, lilio, clavel, cristal luciente,

no sólo en plata o viola troncada
se vuelva, mas tú y ello juntamente
en tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.
Luis de Góngora y Argóte


"And Now For Something Completely Different" (#108)