segunda-feira, 24 de abril de 2017

Amor como em casa

O Barbeiro (The Man Who Wasn't There)de Ethan e Joel Cohen (2001)



Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina


domingo, 23 de abril de 2017

Menina

2046, de Kar-Wai Wong (2004) 

Tudo gira e eu renasço menina
vestido curto na alma de dentro…
Elisa Lucinda



sexta-feira, 21 de abril de 2017

Uma coisa tipo bazófia*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

1. A campanha publicitária que pôs Viseu a pedir meças a Florença, a Barcelona, à Suíça, à Islândia, e ao diabo a quatro, deu origem a algum bruaá nas televisões e nas redes sociais. Luís Pedro Nunes, no “Irritações” da SIC Radical, gozou o nada “humilde” marqueteiro, chamou-o “Leonardo da Vinci”, enquanto Carla Hilário Quevedo, no mesmo programa, disse achar graça àquilo porque era “uma coisa tipo bazófia”.



Termos a cidade gozada por causa duma fatelice publicitária deixou furioso o director do Expresso, o viseense Pedro Santos Guerreiro, que, no seu Facebook, disparou: “É pá, Luís Pedro Nunes, estou-me nas tintas para o anúncio, nem sequer gosto da campanha e acho que fazerem uma campanha da Câmara neste momento não é indiferente a haver autárquicas este ano. Mas gozares com Viseu faz de mim um Viking”.

Este caso, mais uma vez, faz lembrar uma lei de bronze: as diásporas são, por norma, mais radicais e entricheiradas na defesa da sua terra natal do que quem não emigrou. Radicado em Lisboa, o “viking” Pedro Santos Guerreiro explodiu como ninguém por cá.

2. Depois destes estragos, a Viseu Marca sentiu necessidade de fazer um comunicado em que concede: “(...) não temos uma Broadway, mas damos espectáculo. (...) não estamos em Bordéus, mas os vinhos do Dão são um milagre.”

Esta resposta da Viseu Marca a Luís Pedro Nunes e ao programa “Irritações” foi também uma resposta encapotada a Pedro Santos Guerreiro, embora sem o nomear, mas isso não tem grande importância.

Importante é que, por causa deste tropeção, foi necessária esta manobra de controlo de danos. Importante é que continua sem solução um problema já aqui levantado no Olho de Gato: quem controla e escrutina a Viseu Marca e o seu gestor Jorge Sobrado? É que este, apesar de não eleito, tem mais poder do que os vereadores e ultimamente, como se viu no Teatro Viriato e agora nesta bazófia, anda com tendência para a asneira.

Mentira

Daqui


Menina, me conte uma mentira.
Suas mentiras suaves e delicadas
Adornam a minha vida
Stefano Nardi

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Nothing

Fotografia de Friedrich Seidenstücker


Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um pára-brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipóias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel’s check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.
Patricia Galvão (Pagu)


quarta-feira, 19 de abril de 2017

«Sim»

Fotografia Olho de Gato


E perguntei-te se também morrias.
E tu disseste: «Sim».
E eu disse-te: «Que vai ser de mim?»
E tu disseste que nesse momento já seria crescido.
E eu disse-te: «Não vejo a relação».
E tu disseste que sim, que havia uma relação.
E eu disse: «Bom».
E tu disseste que todos nós tínhamos de morrer.
E eu perguntei-te se para sempre.
E tu respondeste : «Sim».
E eu disse-te: «Então, e o céu como é?»
E tu disseste que isso era depois.

Sim.

E eu disse que havia de levar-te flores.
E tu perguntaste-me: «Quando?»
E eu respondi: «Quando morreres».
E tu fizeste: «Ah!»
E eu disse que havia de levar-te flores, e disse também: «Papoilas».
E tu disseste-me que era melhor não pensar nisso.
E eu disse-te: «Porquê?»
E tu disseste-me: «Porque sim».
E eu disse: «Bom». E depois perguntei-te se nos íamos encontrar no céu mais tarde.
E tu respondeste-me: «Sim».
E eu disse: «Ainda bem».

Sim.

E depois perguntei-te quem a tinha inventado.
E tu disseste: «Inventado o quê?»
E eu disse: «Essa história da morte».
E tu disseste: «Ninguém».
E eu disse: «E o resto?»
E tu disseste: «Qual resto?»
E eu disse: «Essa história do céu».
E tu disseste: «Ninguém».
E eu disse-te: «É boa». E disse-te ainda: «Pois». E depois disse-te: «Quando morreres, faço da tua barriga um tambor».
E tu disseste-me: «Isso não se diz».
E eu disse-te: «É pecado?»
E tu disseste: «Não».
Fernando Arrabal


terça-feira, 18 de abril de 2017

Uma história para crianças




Fazes o silêncio dos lilases que esvoaçam
na minha tragédia do vento no coração.
Fizeste da minha vida uma história para crianças
onde naufrágios e mortes
são pretextos de cerimónias adoráveis.
Alejandra Pizarnik


segunda-feira, 17 de abril de 2017

O presente do futuro

Daqui

Plotino disse que há três tempos, e os três são o presente
- Um é o presente atual, o momento em que falo. Quer dizer, o momento em que falei, porque esse momento já pertence ao passado.
A seguir, há o outro, que é o presente do passado e que se chama memória.
E o outro, o presente do futuro, que vem a ser aquilo imaginado por nossa esperança ou por nosso medo.
Jorge Luis Borges



domingo, 16 de abril de 2017

16 de Abril, um minuto antes das três da tarde



16 de Abril

Um minuto antes da três da tarde

Tu estás comigo

Por tua causa, vou lembrar este minuto

A partir de agora, somos amigos de um minuto

Isto é um facto que tu não podes negar

Porque é passado

Days of Being Wild
by Wong Kar-Wai (1990)

Poetry: How Does It Feel Now

Fotografia de Jheyda McGarrell


Love, love mmm...
I told y'all
We would be the band to play it.

My ghetto butterfly flew away from me.
I wait patiently, by windows and doorsteps.
Play, make believe, as my tears, poor chest,
won't succeed to breathe, if not to hear of you.

Surely there has never been a shade so blue.
A stank attitude, so not mad at you.
Not a magnitude to encompass the latitude
of my love for you.
No space and time compatible.

Wat do I have to do? What do I have to do?
Uh... my friends say I got it bad for you.
I do. But there's nothing in this world I'd rather do,
but you.

I want to make love to your existence,
drenched in the colors of your energy,
then masturbate to the memories.
I wanna lose myself inside yourself
Until you find me. Confine me,
to the freedom of your prison.
Exist in the same space, same time.
Combine until your thoughts slow grind with mine
Combine until your thoughts slow grind with mine
Combine until your thoughts slow grind with mine

My, I wanna drink the sweat of your intellect,
reflect, and watch your light passion walk my neck.
Caress the sights of your presence with no question,
undress to the nakedness of love, pure love.
I want to make love to my soulmate... my soulmate...
make love to my soulmate... my soulmate...
make love to my soulmate, uh shit...
I wonder, how does it feel to make love to your soulmate.
Kind of like writing poetry till climax,
till the point and place where space and time match.
Can we cross the line, perhaps tell me would you like that.
Now would you like that, tell me would you like that,
would you like that, tell me would you like that,
would you like that, tell me?

I'm gonna ask you again now, tell me..
Would you like that, tell me would you like that,
now would you like that, tell me would you like that,
would you like that, tell me..

I wanna love you more than madly.
Wrap these legs around your words,
until your speech is straddled deep, gladly.
Swim the currents of your vibrations,
be separate in one
with the same meditation...
Uh the same meditation...

Uh you know what..
This, right here is poetry...

Enjoy... Ualy, play that saxophone right now!

[Sax solo]

If love..
If love had a sound
this would be that sound.
And we,
well we,
We would be the band to play it.
Akua Naru



sábado, 15 de abril de 2017

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Stress*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

1. Acabo de receber um telefonema do director do Jornal do Centro a avisar-me que, nesta santa semana, o jornal fecha a edição mais cedo. Fico com um niquinho de tempo para escrever este Olho de Gato. Tenho ideia que uma vez, em igual emergência, titulei uma crónica com o mesmo “stress” desta, mas não dá tempo para ir aos arquivos fazer “verificação de factos”.

2. Esta semana, nas redes sociais, está a malhar-se com brio numa campanha publicitária da câmara de Viseu em que a cidade assume não ser Florença, nem Bordéus, nem a Islândia, nem ..., tudo factos indesmentíveis. Mas todas a imagens deixam subentendido que Viseu, não sendo Florença ou a Broadway, mesmo assim pede meças a elas, o que, no mínimo, é temerário, e, no máximo, é um fateloso “gaba-te, cesto!”




A câmara de Viseu poderá sempre gozar os seus warholianos “cinco minutos de fama” e recorrer aos velhos e relhos argumentos: “não importa que falem mal de ti, o que importa é que falem”, “não há nunca má publicidade”. 




Os viseenses é que prefeririam que António Almeida Henriques lhes devolvesse 5% de IRS em vez de andar a derreter dinheiro em campanhas publicitárias da treta.

Assunto a regressar ainda em Abril, mês de IMI e IRS.

3. Tique-taque-tique-taque. Stress. Há que fechar este texto.

Em entrevista ao El País, o primeiro-ministro António Costa, num castelhano impecável, afirmou que se Luis de Guindos, o competente ministro das finanças espanhol, estiver “disponible” para chefiar o eurogrupo, ele será “nuestro candidato”.

Estás despedido, Jeroen Dijssemlbloem, meu safadote. Daqui a uns meses vais ter muito tempo livre para gastares em gajas e vinho verde. Recomendo-te uma esplanada portuguesa com vista para o mar. Pede um Alvarinho bem fresco a acompanhar um rodovalho.

Infelizmente, Jeroen, como bem sabes, os portugueses gastaram tudo “em mulheres e álcool” e deixaram fechar o Elefante Branco. Mas encontrarás sempre um plano B.

The hand

Daqui

The teacher asks a question.
You know the answer, you suspect
you are the only one in the classroom
who knows the answer, because the person
in question is yourself, and on that
you are the greatest living authority,
but you don't raise your hand.
You raise the top of your desk
and take out an apple.
You look out the window.
You don't raise your hand and there is
some essential beauty in your fingers,
which aren't even drumming, but lie
flat and peaceful.
The teacher repeats the question.
Outside the window, on an overhanging branch,
a robin is ruffling its feathers
and spring is in the air.
Mary Ruefle


quinta-feira, 13 de abril de 2017

Branco de Neve*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 13 de Abril de 2007


1. Agora é que o governo vai resolver o problema do défice de vez! Decidiu “combater a fuga ao fisco dos funcionários públicos”, cruzando informação de 11 bases de dados. A Comissão Nacional de Protecção de Dados já aprovou o ante-projecto do diploma, embora com um alerta para a redacção do artigo que define o objecto e a finalidade do cruzamento de dados, artigo esse que usa "termos demasiado amplos e, consequentemente, pouco rigorosos".

Têm acesso a esta informação as 11 gestoras das bases de dados, a Direcção-Geral das Contribuições e Impostos, a Direcção-Geral das Alfândegas e dos Impostos Especiais sobre o Consumo, a Inspecção-Geral de Finanças, o Instituto da Segurança Social, nomeadamente através do Centro Nacional de Pensões, o Centro Nacional de Protecção contra os Riscos Profissionais e os Solicitadores de Execução. É demasiada gente a espreitar informação sensível da vida dos funcionários públicos e suas famílias.

Até quando é que a Função Pública vai continuar a ser o “saco de boxe” das desgraças do país?

2. O Teatro Viriato exibiu, na Semana Santa, em duas sessões esgotadíssimas, o “Auto do Branco de Neve e os seus machões”, um texto de Armando de Silva Carvalho, encenado por Graeme Pulleyn e interpretado por 26 jovens com idades entre os 13 e os 20 anos.

Gisberta
A peça baseia-se na história de Gisberta, transsexual brasileira, encontrada morta depois de ter sido atirada para um fosso num prédio do Porto. Os culpados, como se sabe, tiveram penas vergonhosamente leves.

Graeme Pulleyn conseguiu uma grande homogeneidade na qualidade da representação.

Esta foi uma iniciativa que honra muito o Teatro Viriato. Parabéns especiais para o trabalho de Graeme Pulleyn e dos jovens actores e actrizes.

Na véspera de não partir nunca

Daqui


Na véspera de não partir nunca
Ao menos não há que arrumar malas
Nem que fazer planos em papel
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos,
Para o partir ainda livre do dia seguinte.
Não há que fazer nada
Na véspera de não partir nunca.
Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego!
Grande tranquilidade a que nem sabe encolher ombros
Por isto tudo, ter pensado o tudo
É o ter chegado deliberadamente a nada.
Grande alegria de não ter precisão de ser alegre,
Como uma oportunidade virada do avesso.
Há quantas vezes vivo
A vida vegetativa do pensamento!
Todos os dias sine linea
Sossego, sim, sossego...
Grande tranquilidade...
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas!
Que prazer olhar para as malas fitando como para nada!
Dormita, alma, dormita!
Aproveita, dormita!
Dormita!
É pouco o tempo que tens! Dormita!
É a véspera de não partir nunca!
Álvaro de Campos



quarta-feira, 12 de abril de 2017

To Anthea


Daqui


AH, my Anthea! Must my heart still break?
(Love makes me write, what shame forbids to speak)
Give me a kiss, and to that kiss a score;
Then to that twenty add a hundred more:
A thousand to that hundred: so kiss on,
To make that thousand up a million.
Treble that million, and when that is done
Let's kiss afresh, as when we first begun.
But yet, though love likes well such scenes as these,
There is an act that will more fully please:
Kissing and glancing, soothing, all make way
But to the acting of this private play :
Name it I would; but, being blushing red,
The rest I'll speak when we meet both in bed.
Robert Herrick


terça-feira, 11 de abril de 2017

Já estou a ficar velho

Fotografia de Alfred Eisenstaedt

Já estou a ficar velho, ainda que tenha
esta figura fixa sem idade,
e me mantenha em forma o aparelho
a que todos aqui somos sujeitos:
a correria cega, a suspensão elástica,
o salto em trave e trampolim de folhas,
e outras altas artes de ginástica.
Mas eu bem sei sentir além da aparência,
e já me aconteceu, ao visitar o canto
onde o mundo se acaba em chão de areia,
ali ver o meu fim anunciado.
Quando em tranquilo pouso assim medito,
peso, e calculo tudo aquilo
que não fiz, e não tive, e não alcanço
com o rosto extravagante que me deram,
já tudo bem pensado considero
se não devo encontrar algum consolo
na ciência que conduz o feiticeiro,
e acreditar também, como me diz,
que é, esta vida, emaranhada teia
de mal fiado, mal dobado fio,
e a morte tão somente um singular casulo
de onde sairei transfigurado.
Mas não sei de que valha imaginar
um outro ser incólume e perfeito
que da minha substância seja feito
e tome, noutro mundo, o meu lugar;
se me não lembra, como serei eu?
Se for quem sou, ainda que mude a capa,
há-de voltar aqui, onde hoje estou,
viver o mesmo instante, e ver
escapar-lhe das mãos o que me escapa;
veloz embora, e exímio no salto,
o que hoje perco, há-de então perdê-lo,
e faltar-lhe outra vez o que me falta.
António Franco Alexandre


segunda-feira, 10 de abril de 2017

m&m amarelo



com os direitos de autor
do meu primeiro livro de poesia
comprei um m&m amarelo
(amendoins cobertos de chocolate)
duvido que alguém tenha saboreado os meus poemas
com tanto alarido

com os direitos do segundo
comprei dois m&ms
fiquei abundantemente contente e
de queixo bem lambuzado
como convém

cada m&m lembrava-me o álvaro
que dizia, e passo a citar
come chocolates, pequena, e
eu, citando novamente,
comia chocolates, pequenos

com os do terceiro
que ainda não escrevi
já me cresce água na boca
reservei m&ms na mercearia
e pus a boca em pause
embora muito a contragosto

bem vejo como este poema é prosaico
as minhas desculpas
os direitos de autor não dão
para mais metáforas do que isto

(e, de resto, ele tinha razão, o álvaro
o mundo é uma gigantesca pastelaria
onde uns comem, outros vêem comer)
Bénédicte Houart

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Marcelo*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

Fotografia de Fernando Pinto (editada)

Como já escrevi várias vezes aqui, no nosso sistema constitucional o presidente da república exerce o poder moderador, poder que nas monarquias é prerrogativa do rei e que tem duas funções principais:

(i) ser símbolo e factor de unidade nacional — sem surpresa, o “rei” Marcelo Rebelo de Sousa no seu primeiro ano de mandato teve um desempenho impecável nesta matéria;

(ii) ser “válvula” de escape do vapor acumulado pela conflitualidade política — o “descrispador” Marcelo, com discrição, segurou o governador do Banco de Portugal e moderou os abusos flagrantes da geringonça nos inquéritos parlamentares à Caixa.

Só que Marcelo não se ficou pelo lado discreto e “monárquico” da presidência. Muito pelo contrário: entrou com estardalhaço pela Cornucópia dentro a atropelar o ministro da cultura, mergulhou de cabeça nas trapalhadas da CGD, puxou as orelhas ao ministro das finanças em nota presidencial e proibiu-o de pensar na presidência do eurogrupo, e, inédito e inaudito, fez uma visita oficial ao conselho e à comissão europeia, terraplanando competências exclusivas do primeiro-ministro.

Este bulício de Marcelo é um erro — o supervisor e árbitro do funcionamento das instituições deve estar acima e equidistante dos restantes protagonistas políticos. Marcelo não tem respeitado o princípio da separação dos poderes e isso vai ter, a prazo, consequências.

O governo não reage, nem solta um ai sequer, porque está, desde o início, sob tutela presidencial. Cavaco Silva, em final de mandato e sem poder convocar eleições, só deu posse a Costa depois deste ter assinado um compromisso que está fechado a sete chaves em Belém e não é conhecido dos portugueses. Mas é do seu sucessor.

Não surpreende que, mal o actual presidente faz um veto, a geringonça meta logo a viola no saco. Marcelo, o afectuoso Marcelo, o popularíssimo Marcelo, foi, no seu primeiro ano de mandato, o presidente com mais poder na história da terceira república.

Acobracias

Fotografia de George Hoyningen-Huene


sentados em Trafalgar Square
no intervalo de amigos
com o tempo entre as mãos
treinávamos o nosso inglês
num inquérito de revista
com Francis Bacon na capa
que perguntava:
qual dos membros
– superiores ou inferiores –
preferíamos perder
(esta ablação em língua estrangeira
tornava-se indolor, quase anestesiada)
respondeste: os braços
as pernas conservá-las-ias
como a liberdade de poder andar
respondi: as pernas
não queria ver-me
impedida de abraçar.
Assim juntando as nossas
perdas eu abraço-me a ti
e peço-te anda, mostra-me o mundo
e quando nos cansarmos
abraçar-me-ás, então, com as pernas
e eu
andarei com os braços.
Ana Paula Inácio


quinta-feira, 6 de abril de 2017

O tempo, esse patife

Fotografia de Lucien Hervé


(...)
Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.
João Cabral de Melo Neto

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Tortura



Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
– E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento! ...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
– E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento ...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
Florbela Espanca


terça-feira, 4 de abril de 2017

Canto dos lugares

Daqui


Tantas vezes os lugares habitam no Homem e
os homens tantas vezes habitam nos lugares que
os habitam, que podia dizer-se que o cárcere de
Sócrates, estando nele Sócrates, não o era, como
diz Séneca em epístola a Hélvia.
Por isso cada lugar nos mostra uma vida
clara e desmedida, enquanto o Tempo
oscila e nos oculta que é curto e ambíguo
porque nos dá a morte e a vida.
E os lugares somente acabam
porque é mortal cada homem
que houve em si algum lugar.
Fiama Hasse Pais Brandão


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Em silêncio descobri essa cidade no mapa

Fotografia de José Sena Goulão (editada)


Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa –
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos ulmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol –
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.


Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.


Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue – peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.


Cidade que aperto, batendo as asas – ela –
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.
Herberto Helder


domingo, 2 de abril de 2017

Mortimer — a short film by Nolan Sarner



Jim wants the job. 
John appears to be giving it to him. 
Mortimer doesn't agree.



Entre irse y quedarse

Fotografia de Frieke Janssens


Entre irse y quedarse duda el día,
enamorado de su transparencia.

La tarde circular es ya bahía:
en su quieto vaivén se mece el mundo.

Todo es visible y todo es elusivo,
todo está cerca y todo es intocable.

Los papeles, el libro, el vaso, el lápiz
reposan a la sombra de sus nombres.

Latir del tiempo que en mi sien repite
la misma terca sílaba de sangre.

La luz hace del muro indiferente
un espectral teatro de reflejos.

En el centro de un ojo me descubro;
no me mira, me miro en su mirada.

Se disipa el instante. Sin moverme,
yo me quedo y me voy: soy una pausa.
Octavio Paz

sábado, 1 de abril de 2017

Mãos




E agora que as mãos da incrédula
rapariga te empurram para a saída,
onde irá chover, de acordo com
a cor do céu, não resistas.
Nuno Júdice


"And Now For Something Completely Different" (#137)


Se eu caio no suingue é pra me consolar
É que essa vida não tá mole, eu faço assim para me segurar

Esse funk é tiro de canhão
Rajada de metralhadora
Que situação
Esse país na emboscada
Mas injusta divisão
Com a boca escancarada
Faço esse protesto em forma de oração

sexta-feira, 31 de março de 2017

Autárquicas (#3)*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. As eleições autárquicas deverão ser marcadas para o primeiro dia de Outubro, daqui a meio ano. A última edição do Jornal do Centro revelou já a quase totalidade dos candidatos a presidente da câmara no distrito de Viseu.

Seguir-se-á a feitura das listas municipais e de freguesia, uma festa da democracia que envolve centenas de milhares de cidadãos por esse país fora. Nunca é demais lembrar: o poder local, com menos de dez por cento do orçamento de estado, fez e faz muito pela qualidade de vida dos portugueses e é a nossa mais importante escola de aprendizagem e participação democrática.


Daqui
Apesar de haver várias câmaras falidas, não foram os municípios que puseram a dívida do estado acima dos 130% do PIB, nem foram eles que nos levaram à bancarrota. Foram os governos centralistas de Lisboa, cuja codícia e corrupção “o reino nos despovoa”, tal como Sá de Miranda via o “cheiro da canela” fazer ao país no século XVI.

2. As autárquicas deste ano vão ser diferentes das anteriores em dois aspectos principais:
(i) em 2013, a lei da limitação de mandatos correu com os muitos dinossauros autárquicos que ainda sobreviviam (nome mais sonante no distrito: Fernando Ruas);
(ii) há quatro anos, o país estava em recessão, nas mãos dos credores, e as pessoas, zangadas com os partidos, votaram em força em candidaturas independentes e mais que duplicaram os votos brancos e nulos. No concelho de Viseu, os brancos e nulos chegaram aos 9,4% e, nas freguesias mais urbanas, ultrapassaram a fasquia dos 12%.

Ora, desta vez, já não há dinossauros para correr e o voto anti-sistema vai diminuir. As candidaturas independentes vão ter a vida mais difícil e muitos dos votos de raiva de há quatro anos vão regressar agora ao redil partidocrático. No concelho de Viseu, esses votos vão ser mais de três mil, valem mais de meio vereador.

Formulas for oblivion

Daqui



1. Casting the first stone after which the hands cast
         themselves and the arms and so on until you feel
         you have cast yourself after the first stone
         into oblivion.

2. Eating your own words by which you will grow thin,
         depleted, finally, of even a mouth to care for
         the orphaned tongue or the tired foot.

3. Turning yourself inside out so the features you are
         known by become obvious secrets and the hidden
         parts of yourself become a mask of honesty.
         Thus you will never know who you are; oblivion
         has begun to tell you who you are

4. Lending the helping hand and keeping the other one
         to yourself. The helping hand will feed your
         friend, the other one will feel abandoned.
         What happens is clear: you lose your friend
         and die alone, a victim of the helping hand’s
         selfish refusal to aid the other one.

5. Cutting off your nose to spite your face. For the
         beauty of absence is catching and the face will
         want to spite the nose by having it back and then
         will beg to be cut off from it. This will go on.

6. Taking everything to heart and allowing yourself no
         rest but what is impossible to take, which is
         oblivion.

7. Killing the thing you love and spending each night
         with its ghost. Forcing your passion into an
         absence is a common approach to oblivion.

8. Sticking your head in the lion’s mouth and seeing
         the remnants of your past: the tongue of your
         father, the teeth of your mother, your own head
         grinning back.

9. Saving the best for last while consuming the worst
         at the start. For the worst tastes better when
         you know the best is to come. Doubts will arise.
         After a while you may not believe the best will
         be last and oblivion will take you for better
         or worse.

10. Giving yourself the benefit of the doubt which is the
         surest and truest formula for oblivion.
                 Mark Strand



quinta-feira, 30 de março de 2017

Calhaus (Parte 2)*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 30 de Março de 2007



1. O Presidente da República, Cavaco Silva, arranjou forma de não ter Mário Soares, no Palácio de Belém, na comemoração dos 50 anos da União Europeia.

Pode o actual PR fazer a ginástica que quiser, pode arranjar a “lista de convidados” que mais lhe der jeito, que a verdade das coisas não se altera: a adesão à UE deve-se a Mário Soares. Neste capítulo da História de Portugal, para Cavaco, nem uma nota de rodapé.

2. Já se sabe que Cavaco não gosta de partilhar o palco com ninguém. Quando era primeiro-ministro, impediu que o então Presidente da República, Mário Soares, estivesse presente na Assinatura dos Acordos de Bicesse, entre a Unita e o MPLA.
Este episódio aconteceu em Maio de 1991, poucos meses depois da tomada de posse de Mário Soares para o seu segundo mandato, e revelou qual era o entendimento do então primeiro-ministro Cavaco Silva sobre a “cooperação estratégica” do seu Governo com o Presidente da República.

Soares, na altura, foi completamente ignorado. Cavaco semeou ventos e, depois, colheu as respectivas tempestades. Vieram, a seguir, as “presidência abertas” e os anos gloriosos da demolição do cavaquismo.

A celebração dos 50 anos da União Europeia foi uma coisa burocrática e triste em toda a Europa e a nossa Presidência da República não destoou.

Entretanto, já há “Miguéis Coelhos” no PS prontos para apoiar Cavaco em 2011.

3. A Rotunda à frente dos Bombeiros Municipais já não tem os seixos com que foi inicialmente “equipada”. Quando foi inaugurada, aqueles calhaus pindéricos ficavam tão feios que até faziam mal aos olhos. O caso mereceu aqui um reparo no Olho de Gato de 19 de Janeiro.

Agora tem relva. Não tem calhaus. Está bonita. Registe-se.