quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Pelo corpo

Dominique Fung


infinita invenção
de pétala a escaldar
desprende o falo

a palavra sublimada
que é ele a avançar-me
pelo corpo

a porta giratória
que me troca
pelo homem e, a este,

o fértil trajo
que lhe cria mais seios
pelo corpo
Luiza Neto Jorge


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Mar, mar e mar

Fotografia Olho de Gato


Tu perguntas, e eu não sei,
eu também não sei o que é o mar.

É talvez a lágrima caída dos meus olhos
ao reler uma carta quando é de noite.
Os teus doentes, talvez os teus dentes,
miúdos, brancos, agudos, sejam o mar,
um mar pequeno e frágil,
afável, diáfano,
no entanto sem música.

É evidente que minha mãe me chama
quando uma onda e outra onda e outra
desfaz o seu corpo contra o meu corpo.
Então o mar é carícia,
luz molhada onde desperta
meu coração recente.

Às vezes o mar é uma figura branca
cintilando entre os rochedos.
Não sei se fita a água
ou se procura
um beijo entre conchas transparentes.

Não, o mar não é nardo nem açucena.
É um adolescente morto
de lábios abertos aos lábios da espuma.
É sangue,
sangue onde a luz se esconde
para amar outra luz sobre as areias.

Um pedaço de lua insiste,
insiste e sobre lento arrastando a noite.
Os cabelos de minha mãe desprendem-se,
espalham-se na água,
alisados por uma brisa
que nasce exactamente no meu coração.
O mar volta a ser pequeno e meu,
anémona perfeita abrindo nos meus dedos.

Eu também não sei o que é o mar.
Aguardo a madrugada, impaciente,
os pés descalços na areia.
Eugénio de Andrade


terça-feira, 21 de novembro de 2017

Poetry


Fotografia Olho de Gato

I, too, dislike it: there are things that are important beyond
        all this fiddle.
     Reading it, however, with a perfect contempt for it, one
        discovers that there is in
     it after all, a place for the genuine.
        Hands that can grasp, eyes
        that can dilate, hair that can rise
            if it must, these things are important not because a

high-sounding interpretation can be put upon them but because
        they are
     useful; when they become so derivative as to become
        unintelligible, the
     same thing may be said for all of us—that we
        do not admire what
        we cannot understand. The bat,
            holding on upside down or in quest of something to

eat, elephants pushing, a wild horse taking a roll, a tireless
        wolf under
     a tree, the immovable critic twinkling his skin like a horse
        that feels a flea, the base-
     ball fan, the statistician—case after case
        could be cited did
        one wish it; nor is it valid
            to discriminate against “business documents and

school-books”; all these phenomena are important. One must
        make a distinction
     however: when dragged into prominence by half poets,
        the result is not poetry,
     nor till the autocrats among us can be
        “literalists of
        the imagination”—above
            insolence and triviality and can present

for inspection, imaginary gardens with real toads in them,
        shall we have
     it. In the meantime, if you demand on the one hand, in defiance
        of their opinion—
     the raw material of poetry in
        all its rawness, and
        that which is on the other hand,
            genuine, then you are interested in poetry.
Marianne Moore

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

No soy dueña de nada

Fotografia de Jo Ann Callis



No soy dueña de nada
mucho menos podría serlo de alguien.
No deberías temer
cuando estrangulo tu sexo
no pienso darte hijos ni anillos ni promesas.

Toda la tierra que tengo la llevo en los zapatos.
Mi casa es este cuerpo que parece una mujer
no necesito más paredes y adentro tengo
mucho espacio:
ese desierto negro que tanto te asusta.
Miriam Reyes



domingo, 19 de novembro de 2017

In November




Outside the house the wind is howling
and the trees are creaking horribly.
This is an old story
with its old beginning,
as I lay me down to sleep.
But when I wake up, sunlight
has taken over the room.
You have already made the coffee
and the radio brings us music
from a confident age. In the paper
bad news is set in distant places.
Whatever was bound to happen
in my story did not happen.
But I know there are rules that cannot be broken.
Perhaps a name was changed.
A small mistake. Perhaps
a woman I do not know
is facing the day with the heavy heart
that, by all rights, should have been mine.
Lisel Mueller


sábado, 18 de novembro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#169)

«Os deputado bom de pêia
eu tiro o “W” do nome
tiro vírgula dos discurso
reticença e pisilone»


Lágrimas amargas

As Lágrimas Amargas de Petra von Kant,
peça levada ao cinema em 1972,
escrita e dirigida por Rainer Werner Fassbinder


Os olhos rasos de água

Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como num bosque.

É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas a luz do amanhecer.

Posso prometer uma viagem ao paraíso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias.
Eugénio de Andrade







sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Fractais*

* Hoje no Jornal do Centro


Os dois assuntos desta crónica foram também esmiuçados por mim e o Paulo Lopes no seu programa “Regresso a casa”, na Rádio Jornal do Centro.

1. A ASAE preferiu instalar-se em Tondela porque a câmara daquela cidade dispôs-se a pagar-lhe instalações, luz e água, enquanto a câmara de Viseu se recusou pagar tal coisa.

Os vereadores socialistas de Viseu acharam mal esta recusa, mas o presidente da câmara avisa que “é completamente contra” as câmaras terem de “pagar ao Estado para instalar os seus organismos” e que esse tipo de exigências é “chantagem”.

Exemplos destes multiplicam-se. A administração central, por causa dos cortes (em geringoncês diz-se “cativações”), faz tudo para arranjar dinheiro, tanto aluga o Panteão para jantares de gala, como saca o mais que pode aos municípios (pagamentos a polícias, vencimentos de médicos, água, luz, rendas, ...)

Isto lembra os fractais que se repetem qualquer que seja a escala. Mal a Tesla anunciou que queria abrir uma gigafábrica na Europa, logo começou uma competição entre países a ver quem dá mais contrapartidas àquela multinacional. Mal o governo anuncia que quer abrir um serviço público “na província”, logo começa um “quem-dá-mais” entre municípios vizinhos. Estes fractais são fatais para os mais pequenos, entenda-se, o interior.

Neste caso da ASAE, António Almeida Henriques fez bem. Mas esteve muito mal e foi aqui criticado quando, durante o governo de Passos Coelho, se prontificou a custear, com dinheiros municipais, parte das obras na “rua” que liga Viseu a Sátão.


Fotografia Olho de Gato
2. Por causa dos incêndios, houve uma sessão de câmara interrompida porque o presidente teve um ataque de choro. Por causa dos incêndios, um treino de andebol teve que ser interrompido porque os jogadores começaram a chorar.

As marcas traumáticas dos incêndios de 15 e 16 de Outubro vão perdurar no tempo. Ajudemo-nos uns aos outros e tenhamos tolerância zero com quem quiser fazer politiquice com esta desgraça.

Miscasting

Sabine Azéma por Robert Doisneau (1985)




So you think salvation lies in pretending?
Paul Bowles


estou entregando o cargo
onde é que assino
retorno outros pertences
um pavilhão em ruínas
o glorioso crepúsculo na praia
e a personagem de mulher
mais Julieta que Justine
adeus ardor
adeus afrontas
estou entregando o cargo
onde é que assino

há 77 dias deixei na portaria
o remo de cativo nas galés de Argélia
uma garrafa de vodka vazia
cinco meses de luxúria
despido o luto
na esquina
um ovo
feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri

mas o cavaleiro de espadas voltou a galope
armou a sua armadilha
cisco no olho da caolha
a sua vitória de Pirro
cidades fortificadas
mil torres
escaladas por memórias inimigas
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída

agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias

vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil

seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa

os joelhos ainda esfolados
lambendo os dedos
procuro por compressas frias
oh céu brilhante do exílio
que terra
que tribo
produziu o teatrinho Troll colado à minha boca
onde é que fica essa tomada
onde desliga
Hilda Machado




quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Madrugada sem sono

Fotografia de Stephen Shore

Na solidão a esperar-te
Meu amor fora da lei
Mordi meus lábios sem beijos
Tive ciúmes, chorei

Despedi-me do teu corpo
E por orgulho fugi
Andei dum corpo a outro corpo
Só p'ra me esquecer de ti

Embriaguei-me, cantei
E busquei estrelas na lama
Naufraguei meu coração
Nas ondas loucas da cama

Ai abraços frios de raiva
Ai beijos de nojo e fome
Ai nomes que murmurei
Com a febre do teu nome

De madrugada sem sono
Sem luz, nem amor, nem lei
Mordi os brancos lençóis
Tive saudades, chorei
Goulart Nogueira






quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Este blogue hoje é convidado do Delito de opinião*

O resto aqui

* Um agradecimento pelo honroso convite ao Pedro Correia

Já não sei fazer as pazes (2ªparte) — por JB*



Cito:

“O Governo eliminará nove anos de serviço dos professores no descongelamento das carreiras. Nem considera uma recuperação faseada. Excluiu-os. E porquê apenas os professores? Por uma questão técnica, diz o Governo.
É consensual que a sucessão de "reformas estruturais" deixou o Estado, e a sociedade, sem norte. A avaliação do desempenho é um espelho dos desajustamentos. As avaliações no Estado (SIADAP) são um fingimento indesmentível e em 95% das empresas não existe.
Qual é, então, a questão técnica que exclui os professores? São os pontos, diz o Governo.
Nas outras carreiras as pessoas obtêm um ponto por ano até ao número necessário à mudança de categoria e nos professores, diz o Governo, é por menção qualitativa.
Só que a menção é obtida, com quotas, numa escala de 0 a 10 pontos (por exemplo: 7.51 pontos é bom e 8.53 pontos é muito bom) e o professor muda de categoria ao fim de x anos (como nas restantes carreiras).
Era preferível o Governo pedir desculpa aos professores por imitar os anteriores. Se a história da exclusão raramente nos falou de "perseguidos" por serem muitos, desta vez é mais surpreendente; ao fim de dois anos, regista-se a imutabilidade também nas questões não financeiras vigentes desde 2007.” – Paulo Prudêncio

Vejamos:

Após catorze anos de carreiras congeladas há que reconhecer que a estratégia comunicacional deste governo tem funcionado no "arremesso à escola pública", o que nos recorda o processo kafkiano do reinado de Lurdes Triste Rodrigues/Pedreira Pedra/Margarida do Norte/ Azeiteiro Lemos/João Contratos Pedrosa/ Parque Buraco Escolar e o ressabiado Abílio CONFAP…. Como sempre, o PS nada aprende com a experiência.

Na Educação o objectivo tem sido proletarizar, desgastar e desmoralizar a classe docente ao ponto de não terem capacidade de reacção e revolta. Insidiosamente, a conflitualidade e a sobrevivência impuseram-se como modo de estar nas escolas.

Com um contexto político favorável, o que faz o PS pelos professores? Horários, gestão das escolas, e…. - “quartel general em Abrantes; tudo como dantes”.
Face a um Ministro sem peso político (é óbvio), dizem os jornais que os deputados PS (liderados pelo Supremo Porfírio) estão preocupados com a luta dos professores. É bom que estejam preocupados. Há uma “maioria silenciosa” (politicamente transversal) saturada de ser desconsiderada.

Mas também é bom que professores estejam preocupados. Para os que têm a memória curta o Costa estava no governo e a mulher nas manifestações contra MLR.
As declarações do presunçoso Costa não são problema de glândulas salivares, é atitude e pensamento político.

Volte o PS a ter maioria e estará na calha um upgrade da MLR.

Não sou dado a futurologias nestas matérias e não sou grevista militante. Gosto muito de ser “o meu próprio comité central” – José Afonso.

Mas, já não sei fazer as pazes!





A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes


PS: já depois de ter escrito este texto, li que….
“Ao contrário do básico e secundário, os docentes das universidades e politécnicos vão progredir nas carreiras em 2018.”

Fellini! Onde estás quando precisamos de ti?
* Enviado por JB 
para o e-mail deste blogue

Às vezes despedimo-nos tão cedo

Fotografia de Dan Sully

Às vezes despedimo-nos tão cedo
que nem lágrimas há que nos suportem o
peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste

Às vezes é tão cedo que nos vemos
omitidos
enquanto expõe
o peso insuportável do amor
a despedida

É tão cedo por vezes que lisboa
estende sobre os corpos o desgosto

Com os dedos no crânio despedimo-nos
Gastão Cruz



terça-feira, 14 de novembro de 2017

Não aos trolls!

Peer Gynt na Gruta do Rei da Montanha
Aguarela de Theodor Kittelsen (1913)


Eles entram juntos no salão do rei da montanha. 
Este promete converter Peer num “troll” se ele casar com a sua filha. 

Ele não aceita e tenta fugir, mas os "trolls" não o permitem...





segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O quereres

Óleo de Ian Francis


Onde queres revólver, sou coqueiro
Onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alta, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
Onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim
Caetano Veloso













domingo, 12 de novembro de 2017

Después de la fiesta

Fotografia de Lele Saveri


En cuántas ocasiones te has dicho que la vida
no te ha tratado mal, que, a fin de cuentas,
eres un hombre afortunado.
                                                        Pero
a qué engañarse. Déjate de historias.
Esta noche no puedes conformarte
diciéndote lo mismo que las otras veces
— con no poco optimismo —te dijiste.
Alguien que no eras tú se fue com ella
cuando la fiesta terminó.

                                                        Hace frío
en las calles sin nadie de la ciudad. Y vuelves
de madrugada a casa. Y estás solo.
Eloy Sánchez Rosillo














sábado, 11 de novembro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#168)

«Miss Anders... I didn't recognize you with your clothes on...»

Tigresa




Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel
Uma mulher, uma beleza que me aconteceu
Esfregando sua pele de ouro marrom do seu corpo contra o meu
Me falou que o mal é bom e o bem cruel
Enquanto os pelos dessa deusa tremem ao vento ateu
Ela me conta, sem certeza, tudo que viveu
Que gostava de política em mil novecentos e setenta e seis
E hoje dança no Frenetic Dancing Days

Ela me conta que era atriz e trabalhou no "Hair"
Com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher
Que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor
E espalhado muito prazer e muita dor
Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Porque ela vai ser o que quis, inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que um leão
As garras da felina me marcaram o coração
Mas as besteiras de menina que ela disse não
E eu corri para o violão, num lamento, e a manhã nasceu azul
Como é bom poder tocar um instrumento
Caetano Veloso



sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Há sempre qualquer coisa*

* Hoje no Jornal do Centro**



Numa das suas mais sublimes canções, José Mário Branco canta: “Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber, porquê não sei, porquê não sei, porquê não sei ainda.” A canção chama-se “Inquietação”, e inquietação é o que se sente quando se tenta perceber o que “está pra acontecer” no mundo.

A crise sistémica global que se seguiu ao estoiro, em Setembro de 2008, do Lehman Brothers deslocou o centro de gravidade do planeta para a Ásia. A classe média asiática acaba de ultrapassar a soma da classe média norte-americana com a europeia. 


Xangai (daqui)
Estes ganhos e perdas estão a causar sarilhos em todo o lado. As classes médias dos países ascendentes lutam por mais infraestruturas e serviços públicos e as classes médias em perda, no ocidente, protestam contra os cortes e fazem crescer o voto populista e iliberal.

Isto é o que tem estado a acontecer desde 2008. Olhemos agora para o que não está a acontecer.

Em primeiro lugar, não está a acontecer inflação, como era costume quando os bancos centrais faziam injecções maciças de liquidez. Em segundo lugar, apesar de todas as tensões sociais, políticas e geo-estratégicas causadas pela crise, não houve nenhum fechamento do comércio internacional. O motor mental do livre-comércio e da convertibilidade das moedas permanece pujante.

A globalização e o seu fluxo de pessoas, conhecimento, ideias, mercadorias, capitais, vai prosseguindo imperturbável. Isto apesar do bulício dos micro-nacionalismos que querem desenhar novas fronteiras mas, paradoxalmente, precisam de um mundo sem elas.

Por exemplo, as movimentações dos curdos e dos catalães (que fizeram referendos independentistas na mesma semana) só acontecem porque existe o mercado global: os curdos dependem da venda do petróleo de Kirkuk e os catalães necessitam da “independência sem fronteiras” fornecida pela União Europeia e pelo BCE.



** Este texto deve muito a "O Fim do Poder", de Moisés Naím, e a "A Era do Imprevisível", de Joshua Cooper Ramo

Perda

Tomoo Gokita




Da primeira vez que me quebraram
toda
dobrei os joelhos,
caí sem joelhos,
me dobrei toda sobre
o vazio dos braços.
Os ossos tiritavam,
a cabeça estalava
um sino:
toda um estaleiro
sem navios,
só pavios de viagem,
toda uma estalagem
bêbada de sombras
e sinas,
não sabia mais
quantas primaveras
fazem um cisne,
não sabia
beber a não ser
com as mãos em cuia,
eu era um pires
com a cara redonda
que os gatos lamberam
e fugiram,
um piano com febre
em desarticulação nervosa,
uma pátina derretida,
uma patavina
atarantada
com os caracóis da poeira
sumida no horizonte.
Elisabeth Veiga


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Mixórdias *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 9 de Novembro de 2007


      
1. Aqui, nas páginas do Jornal do Centro, Paulo Bruno Alves está a publicar uma interessante série de artigos de análise ao primeiro jornal diocesano de Viseu, A Folha, que se publicou de 1901 a 1911. Os dois últimos artigos trataram da “história das farinhas”, assunto que serviu para turbar mais ainda os anos perturbados do final da monarquia.
     
Paulo Bruno Alves transcreveu de A Folha, Agosto de 1902: «(...) causou profunda impressão a descoberta quasi casual de que ha dois annos grande parte da farinha consumida no paiz era feita de serradura e barro!».
     
Naqueles tempos, a panificação estava a trabalhar com um produto consistente e com um retorno financeiro interessante. Ainda por cima, como explica o historiador Rui Ramos, «Lisboa [tinha], no princípio do Séc. XX, o pão de trigo mais caro da Europa, a 80 réis o quilograma, o dobro do preço de Londres.»

     
2. Duas cooperativas leiteiras de Minas Gerais foram apanhadas a adicionar soro ao leite e, para disfarçar o sabor e dar mais durabilidade e volume à mistura, acrescentavam ainda água oxigenada, açúcar, soda cáustica, citrato de sódio, ácido cítrico e água.


Daqui  
Uma pesquisa no Google, com a expressão “leite fraudado”, dá toda a história e o “rigor” químico da coisa.
      
O deputado do PMDB, Paulo Piau, no último dia de Outubro, em plena Câmara dos Deputados, bebeu do tal leite...

     
... e disse: «É um produto fraudado? É, mas até o fraudado tem a sua qualidade. Sou contra a fraude, mas sou a favor do que está aí, o leite possível.»
     
A Polícia Federal brasileira já meteu 27 dentro.
     
Quanto ao deputado Paulo Piau, que dizer? Deseja-se que os seus intestinos funcionem ainda melhor que a sua cabeça.

Short note on the sparseness of the language

Rhiannon Giddens


wow man I said
when you tipped my chin and fed
on headlong spit my tongue´s libation fluid

and wow I said when we hit the mattressrags
and wow was the dawn: we boiled the coffeegrounds
in an unkempt pot

wow man I said the day you put me down
(only the tone was different)
wow man oh wow I took my comb
and my two books and cut and that was that
Diane di Prima








quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Paterson

Paterson, Jim Jarmush, 2016


Paterson lies in the valley under the Passaic Falls
its spent waters forming the outline of his back. He
lies on his right side, head near the thunder
of the waters filling his dreams! Eternally asleep,
his dreams walk about the city where he persists
incognito. Butterflies settle on his stone ear.
Immortal he neither moves nor rouses and is seldom
seen, though he breathes and the subtleties of his machinations
drawing their substance from the noise of the pouring river
animate a thousand automations. Who because they
neither know their sources nor the sills of their
disappointments walk outside their bodies aimlessly
for the most part,
locked and forgot in their desires-unroused.
—Say it, no ideas but in things—
nothing but the blank faces of the houses
and cylindrical trees
bent, forked by preconception and accident—
split, furrowed, creased, mottled, stained—
secret—into the body of the light!
From above, higher than the spires, higher
even than the office towers, from oozy fields
abandoned to gray beds of dead grass,
black sumac, withered weed-stalks,
mud and thickets cluttered with dead leaves-
the river comes pouring in above the city
and crashes from the edge of the gorge
in a recoil of spray and rainbow mists-
(What common language to unravel?
. . . combed into straight lines
from that rafter of a rock's
lip.)
A man like a city and a woman like a flower
—who are in love. Two women. Three women.
Innumerable women, each like a flower.
But
only one man—like a city.
William Carlos Williams

terça-feira, 7 de novembro de 2017

This Is just to say


I have eaten
the plums
that were in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold
William Carlos Williams



segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O planeta precário

Fotografia de Harris Mizrahi

a noite cerrou todas as janelas
alastrou um império de improviso para os
cães sem nome sem dono e atirou
longamente o seu queixo de toneladas até
à mancha
espalmada do rio

e à sua maneira de nos insultar
a tristonha envergadura da sua queixa

as palavras
que usamos
têm a idade que aparentam

atingidas pela velhice ou pelo descrédito
num alvoroço se oferecem ao abismo

despenhadas rolam
e se confundem com a lava
com a espuma tensa do tempo ainda intacto

para de novo nascerem noutra pátria
mais respirável
ternamente povoar o indómito e triste
hálito
do mais apavorado e generosos bicho

À hora de morrer vai ser necessário
imitar a navegação tumultuosa e resignada
das palavras.

Entre elas e o poeta
um segredo brinca
religioso
trémulo
e imprudente

um segredo amoroso e repugnante

Tu, que de há tanto e tão bem o conheces
melhor te será conservá-lo escondido
até ao momento da surpresa
que a morte branca do medo exige

Cada um de nós, deve ser, não a lei, mas
o galho inopinado e ímpar
o plano imediato da evasão
alucinado e lúcido

Cada um de nós deve ser o momento
de recusar férias à ferida
e de mandar matar todos os parafusos
destronar todas as molas reais
ou irreais
da

respiração artificial

pendurada do tecto
a tua ausência informa: é madrugada
bela notícia confirmada
o céu está menos preto

busto ou explanada
mas só de sombra
a solidão redonda
desta vida parada

não é flor nem bomba
nem página virada
nem a hecatombe
fria e ferial

da charada final
e indesejada !

Falta o indulto especial da tua mão
e tu a dizeres-me, aguda e de assalto:

"A solidão
é nada."

a cabeça começa por fazer dueto com o teu relógio
crepita sobre a almofada
parece mesmo um gatilho em desuso
uma flecha detida por um hábito lívido

são já os primeiros rumores estremunhados
no tablado das coisas
para onde a luz, como tu, atira os braços
como tu um beijo

enorme e distraída oficina conjugal

é agora a infalível
serpente inofensiva e doméstica do sol
monstro diluviano de capoeira
a farejar
com um aspecto acabrunhado de enfermeiro despedido
a fresta que permita o carnaval

está então na hora?

a cabotagem entre portos diminuídos
tenazmente em circuito cinzento
o tráfego livre dos gestos, enrugado apenas
pelo milagre de um ou outro vizinho mais mumificado
se levar pela mão a cara de brinquedo do filho

a quem acabam por perdoar por não ter ainda convite
e é só entrar

no solfejo nauseante
no cerimonial mercantilista do braço ao peito
José Sebag


Pink Floyd playing a number of their early hits on the French TV show 'Bouton Rouge' on 24 February 1968. 
In between is a short extract of Ten Years After playing 'Love Until I Die'.
Astronomy Domine 0:46
Flaming 3:27
Set the Controls for the Heart of the Sun 8:35
Let There Be More Light 13:17