quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Na cama

Fotografia de Louis Stettner


quando me chego não percebes
que nada me deixa dormir
senão a proximidade do teu corpo
numa lenta água de barragem
que se encalha como um navio
sobre ondas cada vez maiores
que se fazem da inquietação
de um calor que se orvalha
entre cada pedaço que te toca
ah e pedir-te pedir-te até à exaustão
uma noite repetidamente lenta
Sofia Crespo


terça-feira, 19 de setembro de 2017

Le blouse du dentiste

Daqui


Ce matin là en me levant
J'avais bien mal aux dents
Oh oh la la
J' sors de chez moi et j'fonce en pleurant
Chez un nommé Durand Mm Mm
Qu'est dentiste de son état
Et qui pourra m'arranger ça
La salle d'attente est bourrée de gens
Et pendant que j'attends
Oh oh la la
Sur un brancard passe un mec tout blanc
Porté par deux mastards Mm Mm
Je m'lève déjà pour fout' le camp
Mais l'infirmier dit: Au suivant!
Je suis debout devant le dentiste
Je lui fais un sourire de crétin
I'm'pouss' dans l'fauteuil et me crie:
En piste il a des tenailles à la main
Oh oh oh oh Maman
J'ai les guiboll's en fromag' blanc

Avant même que j'ai pu faire ouf
Il m'fait déjà sauter trois dents
En moins d'un' plombe
Mes pauvres molaires sont r'tournées
Dans leur tombe
Oh oh la la
Voilà qui m'plombe mes deux plus bell's dents
Cell's que j'ai par devant Mm Mm
I'm grill' la gueul' au chalumeau
Et il me file un bon verre d'eau
Il me dit faut régler votre dette
Je venais d'être payé la veille
Ce salaud me fauche tout mon oseille
Et me refile cinquante ball' net
Oh oh oh oh maman
Et il ajoute en rigolant
J'suis pas dentist' je suis pomblier
Entre voisins faut s'entr'aider oh oh
Et moi je gueul' ce soir
Le blouse du dentiste dans le noir.
Boris Vian






segunda-feira, 18 de setembro de 2017

não quero saber nada de ti

De Katie Dunkle — daqui



não quero saber nada de ti
se lês Bukowski ou telecomandas a chata box
se suspiras por um jantar veg
ou uma viagem na Rynair com couchsurf incluído
não quero saber nada
de ti
A. Khimm

domingo, 17 de setembro de 2017

Carta aberta ao meu gastrenterologista *

* Carta aberta escrita há exactamente treze anos, num dia de muita azia e empaturramento em que — também eu enquanto vereador na câmara municipal de Viseu — fui vítima do dr. Miguel Relvas.
Na altura, esta carta foi publicada e/ou referenciada em vários media locais e nacionais.


Viseu, 17 de Setembro de 2003

Meu caro doutor:

O seu trabalho e especialidade, caro amigo, é melhorar as digestões das pessoas e eu sei que hoje vou ter uma digestão difícil. É por isso que lhe estou a escrever esta carta. Acabo de engolir um sapo dos grandes numa Sessão da Câmara Municipal de Viseu.
Acabo de votar a favor da Grande Área Metropolitana de Viseu (GAMV). Desde que sejam respeitados os parceiros, devo dizer-lhe que sou a favor que Viseu assuma com naturalidade a liderança desta região. Não sou a favor é deste tipo de Associações de Municípios.
Parece complicado, doutor, mas eu explico: preferia que a Assembleia da República não tivesse aprovado estas coisas. Estando previstas na Lei, claro que Viseu deve ter iniciativa política neste assunto.
Como lhe disse, sou o mais possível contra as Leis 10/2003 e 11/2003, ambas de 13 de Maio, dia de Nossa Senhora de Fátima, e que criaram as Grandes Áreas Metropolitanas (GAMs), as Comunidades Urbanas (CUs) e as Comunidades Intermunicipais (CIs).
É que, como sabe, esta regionalização do PSD é feita ao contrário: em vez de ser o Estado Central a passar poder para mais perto dos cidadãos, as GAMs, as CUs e as CIs vão tirar poder aos municípios e subtrair-se do controle democrático dos cidadãos.
Julguei que já tinha visto tudo em matéria de desprestígio da democracia mas enganei-me. Há sempre gente a querer piorar ainda mais as coisas. O governo quer destruir o único poder que verdadeiramente responde aos cidadãos e é respeitado por estes: o poder local. É isso que me causa azia.
As GAMs, as CUs e as CIs têm défice democrático. Tudo vai ser decidido em negociatas de bastidores entre Presidentes da Câmara. É assim que está previsto na lei. Vai ser um processo sem nenhuma transparência. Os cidadãos não vão ser tidos nem achados. Não votam. Nunca. Só cá estarão para, no fim, pagarem a factura.
A Direcção Nacional do PS andou mal ao ter deixado passar esta coisa, ao ter deixado andar para a frente este processo político que está a ser feito com o objectivo cirúrgico de acabar com o que resta do PS autárquico.

Penso que os Presidentes da Câmara socialistas que não forem seus clientes, caro doutor, vão redobrar o consumo de Alka Seltzer e de Água das Pedras, e vão engolir este sapo para poderem vir a ter eventuais contratos programas com a Administração Central. É esta a chantagem que lhes é feita pelo governo.
A organização administrativa e política de Portugal vai ficar com mais uma camada de gordura.
No projecto de regionalização socialista, que foi chumbado em referendo, em 1998, estava previsto acabarem-se com as CCRs e os distritos. Agora mantém-se tudo. É “tudo ao monte e fé em Deus”.
Daqui a uns anos, um empreendedor, por exemplo o doutor se quiser abrir uma Clínica, para além de meter um seu projecto na Câmara, na CCR e na tutela, vai ter ainda que contar com mais um sítio para meter papelada: a sua GAM ou CU.
Vão ser mais jobs for the boys. Mais burocracia.
Ninguém fala em referendo a esta coisa. Nem em referendos locais. Ninguém quer ouvir os cidadãos. Eles que comam e calem. Sapos são para os autarcas socialistas.
Vejamos mais de perto, senhor doutor, a Grande Área Metropolitana de Viseu que se prefigura no horizonte.
Que coerência, que sentido, que unidade, que metrópole é esta que pretende ir dos lameiros de Penedono às encostas onde se apascentam os rebanhos que dão o Queijo da Serra? Será tudo uma carneirada? Anda tudo doido? Não há sentido do ridículo? Quem é que se quer enganar para se chegar aos 350 000 habitantes? A GAM de Viseu vai criar um sistema de transportes coerente? Um sistema de lixos? Uma organização escolar? Há algum denominador comum a estes mais de trinta concelhos que possa dar um projecto intermunicipal? Um que seja?
Dá para ver o filme que se segue. Vão entreter a malta agora com as GAMs, as CUs e as CIs. Vão dar-nos um Big Brother: quem se junta a quem, que câmara com que câmara. Com que arrufos, com que ameaças de divórcio, aproximações e afastamentos de bigode. E vão encher páginas e páginas de jornal com este nada de coisa nenhuma, para entreter o pagode e gastar os nossos impostos e dar emprego aos boys. O que não é mau atendendo ao desemprego que para aí vai...
Saiba, caro doutor, que ao escrever o parágrafo anterior a minha digestão do sapo começou a correr melhor. É bom pensar em empregos. Não é bom é ser neste contexto.
Como sabe, caro doutor, o deputado socialista João Cravinho chamou a isto uma garotada. Foi o único socialista que se ouviu. O Secretário de Estado Miguel Relvas, o pai desta ideia e destas leis, queixou-se do tom de João Cravinho.
Eu antevejo futuro ao Dr. Relvas. Depois do ducentésimo trigésimo sexto Contrato Programa que foi assinar a Tondela, Miguel Relvas ainda chega a ministro. Ministro do pior governo de Portugal depois do 25 de Abril.
Que governo é este que se dá ao luxo de desperdiçar fundos comunitários que são aproveitados por Espanha e quer criar mais despesa pública desta forma?
Que governo é este que vende o património do estado ao desbarato e patrocina esta punção ao Orçamento?
Receba, caro doutor, um abraço deste autarca agora - depois da sua paciência - já menos empaturrado.

Joaquim Alexandre Rodrigues

A furtiva alegria



Acumulo
retratos desfocados
viagens dispersas danos
moratórias

Mas também a ciência animal
de lamber as feridas, a furtiva alegria
a caminho da noite para matar
a sede na corrente.
Inês Lourenço


sábado, 16 de setembro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#161)

Let me handle my business, damn

Fotografia de Marco Antonio Cruz


Took me awhile to learn the good words
make the rain on my window grown
and sexy now I’m in the tub holding down
that on-sale Bordeaux pretending
to be well adjusted I am on that real
jazz shit sometimes I run the streets
sometimes they run me I’m the body
of the queen of my hood filled up
with bad wine bad drugs mu shu pork
sick beats what more can I say to you
I open my stylish legs I get my swagger
back let men with gold teeth bow to my tits
and the blisters on my feet I become electric
I’m a patch of grass the stringy roots
you call home or sister if you want
I could scratch your eyes make hip-hop die again
I’m on that grown woman shit before I break
the bottle’s neck I pour a little out: I am fallen
Morgan Parker

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Jardins Efémeros*

* Publicado hoje no Jornal do Centro



1. Está quase a acabar o Verão das festas e dos festivais. Há que fazer os necessários balanços.
Fotografia Olho de Gato,
post Magritte nos Jardins Efemeros, 9-7-2017

À sétima edição, Viseu teve a primeira grande impaciência com os Jardins Efémeros (JE). As pessoas não perceberam a oliveira colocada em frente da estátua de D. Duarte e acharam incipientes os tijolos que foram lá postos a deslado. De facto, aqueles tijolos não tinham ponta por onde se lhe pegasse, mas importa não deitar fora a criança com a água do banho.


Num ensaio de 1981, George Steiner lembra que "um poema reservado para a academia e para o 'explicador' é tão mudo quanto um 'Stradivarius' fechado na estante hermética de um museu."

Os JE têm tratado bem da necessidade de um objecto artístico não ficar hermetizado na academia (entendida como grupo iniciado nos códigos e nos ritos das missas artísticas). Os JE têm um bom currículo na criação de canais para que as artes cheguem ao grande público. O problema é que a peça da oliveira precisava mesmo de um "explicador". Haver essa necessidade já foi mau. Não ter havido um "explicador" conciso e claro piorou as coisas. Daí a impaciência que foi visível na cidade.

2. Depois dos dois anos iniciais a ganharem experiência, os Jardins Efémeros tiveram duas edições dedicadas aos problemas da cidade: em 2013, o ano em que o festival foi mais original e interessante, foi a intervenção na Rua Direita de cima a baixo; em 2014, foi o vinho do Dão. Os dois anos seguintes foram de espuma dos dias: em 2015, os JE viraram-se para os problemas da dívida (o We Are Not a Loan, o OXI grego); em 2016, a "Europa" e as tensões soberanistas.

Este ano, os JE já não tiveram subtexto interventivo nenhum. As suas ideias "socioculturais" perderam o "socio".

Os JE já não tratam, tão pouco, de Viseu. São agora, e só, um excelente festival de artes experimentais, que, ao se ter desterritorializado, criou excepcionais e merecidas condições de exportação.

Em todo o acaso

Hypatia, por Dan Quintana 




Remancha, poeta,
Remancha e desmancha
O teu belo plano
De escrever p’la certa.

Não há «p’la certa», poeta!

Mas em todo o acaso acerta
Nem que seja a um verso por ano…
Alexandre O'Neill



quinta-feira, 14 de setembro de 2017

17 – X - 2003*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 14 de Setembro de 2007


1. Entra amanhã em vigor o novo Código de Processo Penal que proíbe a divulgação de escutas telefónicas, sem a autorização dos visados, mesmo que essas escutas já não estejam em segredo de justiça.


É caso para perguntar: porquê esta dureza do legislador?


Daqui
Talvez seja bom lembrar o que aconteceu em 17 de Outubro de 2003, um dos dias mais negros da história do jornalismo português. Nesse dia, foi tornada pública uma frase dita ao telemóvel por Ferro Rodrigues. A frase escolhida cirurgicamente foi: «Estou-me a cagar para o segredo de justiça.» Quase todos os “fazedores de opinião” criticaram duramente as palavras de Ferro Rodrigues; poucos condenaram a sua divulgação.

Eram os tempos do caso Casa Pia. Contra a histeria justicialista que se vivia nos media, ouviu-se, na altura, a voz corajosa de Miguel Sousa Tavares (MST). Na TVI, teve um diálogo bem vivo com Manuela Moura Guedes (MMG):

MST: «Estava eu a dizer que o meu primeiro trabalho, quando saí da faculdade, foi na Comissão de Extinção da Pide, onde tive ocasião de folhear muitos processos que a Pide tinha instruído aos antigos resistentes…»

MMG: «Ó Miguel, por amor de Deus, não vais comparar o que agora vivemos com a Pide!»

MST: «Não vou comparar porque há uma diferença grande: é que as escutas da Pide não apareciam nos jornais e agora aparecem...»

A conversa continuou azeda. Miguel Sousa Tavares foi firme a explicar que não é nas televisões nem nos jornais que se fazem julgamentos.

Por princípio, um telefonema é entre duas pessoas. E só entre elas.

2. O acesso ao Hotel Ibis, em Viseu, está um desleixo total. Sinalização, piso, envolvente, tudo de meter medo ao susto.

A Câmara Municipal e a Junta de Freguesia do Campo andam muito distraídas.

As pontes não são o rio

Daqui


As pontes não são o rio.
As casas existem nas margens coalhadas.
Herberto Helder




terça-feira, 12 de setembro de 2017

Eu sem saber o que fazer comigo

Fotografia de Sally Gall



Havia um tempo em que esperar por ti
era consulta a meteorologia:
preparar coração, achar ali,
na coluna do lado, em geografia

de página, ou écran: coisa parecida
o sol bem desenhado, os raios com
a palavra por baixo, indicativa
de que amanhã o tempo ia ser bom.

Mas não era a palavra, era o ruído,
eu sem saber o que fazer comigo,
e o sol, caracol longo a demorar-

-se — assim era ele oblíquo de rimar;
porque eu sabia que o que ali rimava
estava em saber que vinhas. E ficavas.
Ana Luísa Amaral


segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Ouve-hoje-preciso-vem

Fotografia de Dirk Rees



Ouve
preciso o teu silêncio

hoje
o teu consentimento

escuta
na garganta água

vem
amargo de tabaco

não
pássaros não quero
nem cenários
nem sentir o quarto

diz
diz que me encontraste

se é verdade
diz que me encontraste

ouve
hoje
preciso
vem
Teresa Balté


domingo, 10 de setembro de 2017

Anjo enlouquecido pelo tempo



Esmaga-Te um grande círculo que eram
as ruas. Vi-Te ao longe tactear
e correr. Despedi-me a olhar o Teu pânico.
Da varanda vi as ruas que eram sórdidas.

Naquela luz de verão Tu estavas nítido.
Os despojos das flores roxas emaranhados
nos Teus pés no alcatrão escuro
esvoaçavam. Automóveis esbatiam-Te

a figura. Qualquer eco ao partires
havia de morrer. Pedras tornavam
as ruas uma paisagem onde cabeceavas.
Tu partias arrastado pelo Tempo.

Assim como eu ficava a ver-Te ao longe
entre as folhas. Grandes copas verdes
todas de flores minúsculas escondem
o rosto dos Teus movimentos. Dócil ante

o destino eu imagino-Te. Tu eras frágil
como as minhas sílabas vagarosas.
Fiama Hasse Pais Brandão







sábado, 9 de setembro de 2017

Os Anos Quarenta

Daqui


Amo-te mais quando olho quando
para a torneira do gás quando estou nu à noite quando
e começo a mexer em pânico os ossos da mão direita
há domingos há a infância em que se parou numas escadas altas
ouvia-se a guerra ia-se para a cama por causa do ciclone
e quando o vento vem e decepa e quando
as árvores da rua é a mãe que recorta
uns papéis
brancos para colar nos vidros
ou quando (da capo) esse homem
nu à noite quando olha

e vejo vê-se
o indicador direito
manchado de nicotina

depois uma vez desfila
a vitória! surpreendo-os na sala
que me dão dinheiro e corro a comprar barros
na feira e quando quando coisas assim
partia logo e isso era a tristeza

volto a pensar: que queria eu na infância
o sol? outro nome sobre o meu tão frágil?

amo-te mais à noite portanto
quando dobro as calças e começo
quando esse gesto útil quando
bate numas pernas e vê-se
de trinta e cinco anos
Fernando Assis Pacheco


"And Now For Something Completely Different" (#160)




sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Acontecências*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


Ora acontece que, no passado sábado, num estabelecimento comercial da minha cidade, uma competentíssima profissional disse-me: «tenho-o lido, mas ultimamente tem escrito demais sobre política.»

Ora acontece que aquela simpática viseense está cheia de razão, que os títulos dos últimos três Olhos de Gato – "As listas", "Cartazes", "O Debate" – dizem tudo sobre os assuntos tratados, que foi mesmo uma overdose de política autárquica.

Ora acontece que estive praqui a reler de fio a pavio as últimas edições deste jornal, que só esta coluna e o "Tintol & Traçadinho" é que têm estado virados para a política, que o pessoal do jornal tem-lhe ligado pouco, que se tem dedicado é ao feirar.




Ora acontece que li neste jornal que há cem anos, em 27 de Agosto de 1917, na formosíssima aldeia de Serrazes, do não menos formoso concelho de S. Pedro do Sul, Augusto Malafaia foi assassinado pelo noivo de uma sua prima, que o nubente acusava Augusto de ter consumado o "quanto-mais-prima-mais-se-lhe-arrima", que era tudo mentira, que o povo ficou muito revoltado.

Ora acontece que li neste jornal que a vespa velutina está a pôr em risco o mel que pomos no pão-nosso-de-cada-dia, que é necessário armadilhar aquelas vespas bestas no início da primavera, que é quando elas fazem ninho.

Ora acontece que li neste jornal que a belíssima freguesia de Pindo, do não menos belo concelho de Castendo, vai requalificar os tanques públicos, que as pessoas ainda os usam para lavar a roupa à mão e "pôr a conversa em dia", que fazem isso em vez de porem as peúgas e as calças nas máquinas de lavar enquanto cuscam no Facebook.

Ora acontece que li neste jornal que, no concelho de Viseu, o quase-quase ex-vereador Guilherme Almeida, reconhecido especialista em marketing das cidades, vai ser colocado por António Almeida Henriques a gerir as aldeias, que disso não vou dizer nada, que hoje esta crónica não trata de política.

Dias melhores

Fotografia de Bruce Weber


A mulher espera as noites e também os dias,
esperta o lume enquanto, esperta a espera.
Há umas quantas coisas que a prendem, coisas
que arrecadou para a vida e já não servem.
Quem serve é ela e serve a Deus desfiando o rosário
pelos que já lá estão.
Por aqui vai-se indo, vai-se levando a vida
para o outro lado enquanto se esperam dias melhores,
dias mecânicos, a labuta dos músculos, a cabeça em paz
e a noite cansada, os pensamentos cansados,
o sofrimento cansado só quer estender o corpo
até de manhã. Quando mal nunca pior,
o café quente, o pão acabado de fazer
como se fosse cedo e as mãos na sua azáfama
pudessem fazer os dias gloriosos as noites luminosas
com que sonhou e já não servem. Agora só a espera
e as coisas que foi arrecadando para a morte.
Rosa Alice Branco




quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O último poema do último príncipe

Fotografia de Gabor Szilasi



Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta só para te ver dançar.

E isso
diz muito sobre minha caixa torácica.
Matilde Campilho



quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Kosmopolit / Cosmopolite



Von meiner weitesten Reise zurück, anderntags
Wird mir klar, ich verstehe vom Reisen nichts.
Im Flugzeug eingesperrt, stundenlang unbeweglich,
Unter mire Wolken, die aussehn wie Wüsten,
Wüsten, die aussehn wie Meere, und Meere,
Den Schneewehen gleich, durch die man streift
Eeim Erwachen aus der Narkose, sehe ich ein,
Was es heißt, über die Längengrade zu irren.

Dem Körper ist Zeit gestohlen, den Augen Ruhe.
Das genaue Wort verliert seinen Ort. Der Schwindel
Fliegt auf mit dem Taush von Jenseits und Hier
In verschiedenen Religionen, mehreren Sprachen.
Überall sind die Rollfelder gleich grau und gleich
Hell die Krankenzimmer. Dort im Transitraum,
Wo Leerzeit umsonst bei Bewußtsein hält,
Wird ein Sprichwort wahr aus den Bars von Atlantis.

Reisen is ein Vorgeschmack auf die Hölle.
Durs Grünbein



Cosmopolite

The day after getting back from my longest journey,
I realize I had this traveling business badly wrong.
Penned in an airplane, immobilized for hours on end,
Over clouds that bear the appearance of deserts,
Deserts that bear the appearance of seas, and seas
That are like the blizzards you struggle through,
On your way out of your Halcion-induced stupor,
I see what it means to stumble over the dateline.

The body is robbed of time, and the eyes of rest.
The carefully chosen word loses its locus.
Giddily you juggle the here and the hereinafter,
Keeping several languages and religions up in the air.
But runways are the same gray everywhere, and hospital rooms
The same bright. There in the transit lounge,
Where downtime remains conscious to no end.
The proverb from the bars of Atlantis swims into ken:

Travel is a foretaste of Hell.













terça-feira, 5 de setembro de 2017

Para que as coisas resultem

Para que as coisas resultem,
a nossa escuridão tem de ficar
bem clara.

Promete-me
que a tudo o que o amor possa ter de sujo
brindaremos com copos de cristal.
Ana Tecedeiro


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Tenho a pedir-vos que não reutilizeis nada

Fotografia Olho de Gato


Tenho a pedir-vos que não reutilizeis nada.
Esse edifício junto à praia, deixai-o
entregue às ruínas,
às folhas do milho,
ao ar salgado.

Que as crianças possam tropeçar nas lajes soltas
e no átrio ecoe, como uma pedreira,
o desejo de muitas mãos.

Deixai dormir as mariposas dentro de lâmpadas partidas
e as formigas engrossarem pelos cantos
como sal.

Não inventeis mais nada,
nem formas eloquentes de evitar que o bronze oxide.
Aceitai o suor do tempo.

Que algumas coisas apodreçam.
Que os elefantes atravessem a planície.
Que as veias rebentem
do esforço de permanecer em pé.

E que nem tudo se sustente como a rosa
se sustenta de florir.

Deixai, deixai os vários pisos incomunicáveis,
o desvão ser cortejado pelo giz dos aviões,
que a lua pouse ali aberto o crânio,
que lhe bata o sol.

Ainda são preciosos os templos
onde o pó seja gentil
e incensado
como os pés pela caruma dos pinhais.
Andreia C. Faria


domingo, 3 de setembro de 2017

What matters

Fotografia Olho de Gato

It may be that it doesn’t matter
who or what or why you love.
(Maybe it matters when, and for how long.)
Of course, what matters is how strong.

Maybe the forbidden, the unbelievable,
or what doesn’t respond—
what grabs all and gives nothing—
what is ghoul or ghost,
what proves you a fool,
shrinks you, shortens your life,
if you love it, it doesn’t matter.
Only the love matters—
the stubbornness, or the helplessness.

At a certain chemical instant
in early youth, love’s trigger is cocked.
Whatever moves into focus
behind the cross hairs, magnifies,
is marked for target, injected with
magic shot. But the target doesn’t matter.
May Swenson


Anos de bailado e natação




O bandido solitário tem no crime o coração
Traz do roubo o seu salário
Paga caro a paixão.

O bandido solitário tem uma bala no canhão
Vai metê-la no diabo
Já deitado no caixão.

O bandido solitário tem a fúria de um cão
E anda às voltas pelas ruas
Com a alma pela mão.

O bandido solitário só faz folga para foder,
Escolhe sempre as mais feias,
Gosta de beijar sem ver.

E a mulher que o quiser tem de ouvir esta canção,
E a mulher que o quiser,
Farto peito, grande língua, anos de bailado e natação.

Foi um dia apanhado a roubar uma espanhola,
Ficou tudo admirado
E tiraram-lhe a pistola.

E a pistola era tola, só servia para espirrar,
Carregando numa mola
Não servia para matar.

E a mulher que o quiser tem de ir para a prisão,
E a mulher que o quiser,
Farto peito, grande língua, anos de bailado e natação.

E a mulher que o quiser tem de ir para a prisão,
A mulher que o quiser,
Farto peito, grande língua, anos de bailado e natação.
Valter Hugo Mãe



sábado, 2 de setembro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#159)

Vê lá como apontas o contacto dele/dela, depois não te queixes...

O amor em visita

Desenho de Michael James Bell aka Bael


Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas -
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele - imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura, não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.


Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz
sobre as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.




Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento
a cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros
do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.
Herberto Helder


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O debate*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Chegámos a Setembro. De hoje a um mês são as autárquicas.


No debate dos candidatos à câmara de Viseu que foi para o ar esta semana na RTP, os candidatos da oposição mostraram-se muito preocupados com as empresas e com a derrama que elas pagam e nada preocupados com as pessoas e o IRS que a câmara lhes tira.

Nenhum deles foi capaz de explicar aos viseenses que António Almeida Henriques, ao acabar com os Serviços Municipalizados, está a abrir a porta para a privatização da água no futuro. Ao contrário do que a oposição pensa, não é o Tribunal de Contas que poderá parar esta asneira mas sim a política.

As candidatas do PS, do CDS e do PAN não conseguiram esconder a sua evidente impreparação; a candidata da CDU, Filomena Pires, é sólida, mas, quanto mais tempo gasta a elogiar o trabalho que fez na assembleia municipal, mais torna difícil de explicar a sua não recandidatura a esse órgão.

O candidato do bloco, Fernando Figueiredo, esteve mais eficaz na análise das actas da câmara do que nos números da Pordata sobre o concelho. Globalmente, foi o candidato da oposição que esteve melhor.

António Almeida Henriques ganhou o debate sem precisar de se esforçar muito. Bastou-lhe atirar as frustrações da ferrovia e da auto-estrada Viseu-Coimbra para cima da geringonça, exibir o gráfico da descida do desemprego e lembrar que 97% das deliberações da câmara foram aprovadas por unanimidade.

2. O ministro Eduardo Cabrita, através da comissão para a cidadania e igualdade de género, “recomendou à Porto Editora (...) que retire (...) duas publicações dos pontos de venda.” O entre-aspas é do comunicado oficial.

Pela primeira vez depois do 25 de Abril de 1974, um ministro meteu o bedelho no negócio dos livros. Agora há dois livros em Portugal que só podem ser arranjados na candonga.

Ainda não ouvi ninguém pedir a demissão da criatura. Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, espalhador de afectos, onde está o seu afecto pela liberdade?