sexta-feira, 21 de julho de 2017

Serenidade és minha





À memória de Fernando Pessoa

Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humanidade das bocas.

Vem serenidade!
Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os lábios cheguem à altura dos beijos.

Carrega para a cama dos desempregados
todas as coisas verdes, todas as coisas vis
fechadas no cofre das águas:
os corais, as anémonas, os montros sublunares,
as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.

Vem serenidade,
com o país veloz e viginal das ondas,
com o martírio leve dos amantes sem Deus,
com o cheiro sensual das pernas no cinema,
com o vinho e as uvas e o frémito das virgens,
com o macio ventre das mulheres violadas,
com os filhos que os pais amaldiçoam,
com as lanternas postas à beira dos abismos,
e os segredos e os ninhos e o feno
e as procissões sem padre, sem anjos e, contudo,
com Deus molhando os olhos
e as esperanças dos pobres.

Vem, serenidade,
com a paz e a guerra
derrubar as selvagens
florestas do instinto.

Vem, e levanta
palácios na sombra.
Tem a paciência de quem deixa entre os lábios
um espaço absoluto.

Vem, e desponta,
oriunda dos mares,
orquídea fresca das noites vagabundas,
serena espécie de contentamento,
suroresa, plenitude.

Vem dos prédios sem almas e sem luzes,
dos números irreais de todas as semanas,
dos caixeiros sem cor e sem família,
das flores que rebentam nas mãos dos namorados,
dos bancos que os jardins afogam no silêncio,
das jarras que os marujos trazem sempre da China,
dos aventais vermelhos com que as mulheres esperam
a chegada da força e da vertigem.

Vem, serenidade,
e põe no peito sujo dos ladrões
a cruz dos crimes sem cadeia,
põe na boca dos pobres o pão que eles precisam,
põe nos olhos dos cegos a luz que lhes pertence.
Vem nos bicos dos pés para junto dos berços,
para junto das campas dos jovens que morreram,
para junto das artérias que servem
de campo para o trigo, de mar para os navios.

Vem, serenidade!
E do salgado bojo das tuas naus felizes
despeja a confiança,
a grande confiança.
Grande como os teus braços,
grande serenidade!

E põe teus pés na terra,
e deixa que outras vozes
se comovam contigo
no Outono, no Inverno,
no Verão, na Primavera.

Vem, serenidade,
para que não se fale
nem de paz nem de guerra nem de Deus,
porque foi tudo junto
e guardado e levado
para a casa dos homens.

Vem, serenidade,
vem com a madrugada,
vem com os anjos de oiro que fugiram da Lua,
com as núvens que proíbem o céu,
vem com o nevoeiro.

Vem com as meretrizes que chamam da janela,
volume dos corpos saciados na cama,
as mil aparições do amor nas esquinas,
as dívidas que os pais nos pagam em segredo,
as costas que os marinheiros levantam
quando arrastam o mar pelas ruas.

Vem serenidade,
e lembra-te de nós,
que te esperamos há séculos sempre no mesmo sítio,
um sítio aonde a morte tem todos os direitos.

Lembra-te da miséria dourada dos meus versos,
desta roupa de imagens que me cobre
corpo silencioso,
das noites que passei perseguindo uma estrela,
do hálito, da fome, da doença, do crime,
com que dou vida e morte
a mim próprio e aos outros.

Vem serenidade,
e acaba com o vício
de plantar roseiras no duro chão dos dias,
vício de beber água
com o copo do vinho milagroso do sangue.

Vem, serenidade,
não apagues ainda
a lâmpada que forra
os cantos do meu quarto,
papel com que embrulho meus rios de aventura
em que vai navegando o futuro.

Vem, serenidade!
E pousa, mais serena que as mãos de minha Mâe,
mais húmida que a pele marítima da cais,
mais branca que o soluço, o silêncio, a origem,
mais livre que uma ave em seu voo,
mais branda que a grávida brandura do papel em que escrevo,
mais humana e alegre que o sorriso das noivas,
do que a voz dos amigos, do que o sol nas searas.

Vem serenidade,
para perto de mim e para nunca.




… … ... … ... … … … … … … … … … … … … … … 



De manhã, quando as carroças de hortaliça
chiam por dentro da lisa e sonolenta
tarefa terminada,
quando um ramo de flores matinais
é uma ofensa ao nosso limitado horizonte,
quando os astros entregam ao carteiro surpreendido
mais um postal da esperança enigmática,
quando os tacões furados pelos relógios podres,
pelas tardes por trás das grades e dos muros,
pelas convencionais visitas aos enfermos,
formam, em densos ângulos de humano desespero,
uma núvem que aumenta a vâ periferia
que rodeia a cidade,
é então que eu peço como quem pede amor:
Vem serenidade!
Com a medalha, os gestos e os teus olhos azuis,
vem, serenidade!

Com as horas maiúsculas do cio,
com os músculos inchados da preguiça,
vem, serenidade!

Vem, com o perturbante mistério dos cabelos,
o riso que não é da boca nem dos dentes
mas que se espalha, inteiro,
num corpo alucinado de bandeira.

Vem serenidade,
antes que os passos da noite vigilante
arranquem as primeiras unhas da madrugada,
antes que as ruas cheias de corações de gás
se percam no fantástico cenário da cidade,
antes que, nos pés dormentes dos pedintes,
a cólera lhes acenda brasas nos cinco dedos,
a revolta semeie florestas de gritos
e a raiva vá partir as amarras diárias.

Vem, serenidade,
leva-me num vagon de mercadorias,
num convés de algodão e borracha e madeira,
na hélice emigrante, na tábua azul dos peixes,
na carnívora concha do sono.

Leva-me para longe
deste bíblico espaço,
desta confusão abúlica dos mitos,
deste enorme pulmão de silêncio e vergonha.
Longe das sentinelas de mármore
que exigem passaporte a quem passa.
A bordo, no porão,
conversando com velhos tripulantes descalços,
crianças criminosas fugidas à polícia,
moços contrabandistas, negociantes mouros,
emigrados políticos que vão
em busca da perdida liberdade.
Vem, serenidade
e leva-me contigo.

Com ciganos comendo amoras e limões,
e música de harmónio, e ciúme, e vinganças,
e subindo nos ares o livre e musical
facho rubro que une os seios da terra ao Sol.

Vem, serenidade!
Os comboios nos esperam.
Há famílias inteiras com o jantar na mesa,
aguardando que batam, que empurrem, que irrompam
pela porta levíssima,
e que a porta se abra e por ela se entornem
os frutos e a justiça.

Serenidade, eu rezo:
Acorda minha mãe quando ela dorme,
quando ela tem no rosto a solidão completa
de quem passou a noite perguntando por mim,
de quem perdeu de vista o meu destino.

Ajuda-me a cumprir a missão de poeta,
a confundir, numa só e lúcida claridade,
a palavra esquecida no coração do homem.

Vem serenidade
absolve os vencidos,
regulariza o trânsito cardíaco dos sonhos
e dá-lhes nomes novos,
novos ventos, novos portos, novos pulsos.

E recorda comigo o barulho das ondas,
as mentiras da fé, os amigos medrosos,
os assombros da Índia imaginada,
o espanto aprendiz da nossa fala,
ainda nossa, ainda bela, ainda livre
destes montes altíssimos que tapam
as veias ao Oceano.

Vem, serenidade,
e faz que não fiquemos doentes, só de ver
que a beleza não nasce dia a dia na terra.
E reúne os pedaços dos espelhos partidos,
e não cedas demais ao vislumbre de vermos
a nossa idade exacta
outra vez paralela ao percurso dos pássaros.

E dá asas ao peso
da melancolia,
e põe ordem no caoss e carne nos espectros,
e ensina aos suicidas a volúpia do baile,
e enfeitiça os dois corpos quando eles se apertarem,
e não apagues nunca o fogo que os consome,
o impulso que os coloca, nus e iluminados,
no topo das montanhas, no extremo dos mastros,
na chaminé do sangue.

Serenidade, assiste
à multiplicação original do Mundo:
Um manto terníssimo de espuma,
um ninho de corais, de limos, de cabelos,
um universo de algas despidas e retrácteis,
um polvo de ternura deliciosa e fresca.

Vem, e compartilha
das mais simples paixões,
do jogo que jogamos sem parceiro,
dos humilhantes nós que a garganta irradia,
da suspeita violenta, do inesperado abrigo.

Vem, com teu frio de esquecimento,
com a tua alucinante e alucinada mão,
e põe, no religioso ofício do poema,
a alegria, a fé, os milagres, a luz!

Vem, e defende-me
da traição dos encontros,
do engano na presença de Aquele
cuja palavra é silêncio,
cujo corpo é de ar,
cujo amor é demais
absoluto e eterno
para ser meu, que o amo.

Para sempre irreal,
para sempre obscena,
para sempre inocente
Serenidade, és minha.
Raul de Carvalho




quinta-feira, 20 de julho de 2017

Métodos*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Julho de 2007


1. É um vídeo de dois minutos e cinquenta e um segundos, intitulado “Rock” que já foi visto quase 200 mil vezes no YouTube. Nele, um homem olha fixamente a câmara fixa. Olha para nós, portanto. Vêem-se umas árvores e um lago no enquadramento. O homem olha-nos, estático. Ouve-se barulho de tráfego. Uma mulher de óculos escuros passa atrás dele. Imperturbável, ele continua a olhar-nos; fica assim durante mais de um minuto; depois, vira-nos as costas, dá uns passos, agarra numa pedra e atira-a, com estrépito, para as águas do lago. O homem afasta-se. No écran forma-se a mensagem: “gravel2008.us”. A água passa do sossego para o desassossego. A superfície do lago fica encrespada. Vêem-se pregas concêntricas a fluírem e refluírem. O homem continua a afastar-se. Cada vez mais longe. Não é dita uma palavra.

O protagonista de “Rock” é Mike Gravel, candidato presidencial do Partido Democrático. Este zen de comunicação política pode ser visto em www.youtube.com/watch?v=0rZdAB4V_j8:



2. Durante a campanha para a Câmara de Lisboa, Paulo Portas levou em cima com uma história “jornalística” muito mal parida sobre submarinos e Marques Mendes foi atingido com lama proveniente de Oeiras acerca dumas senhas de presença.

Resultado: lá tivemos o sempiterno José Junqueiro a fazer a figura do costume nas televisões e nos jornais.

3. A jornalista Sandra Ferreira, do jornal As Beiras, perguntou a Jorge Carvalho: “Como faz a escolha dos artistas?”

Resposta do gerente e programador da Feira de S. Mateus: “Vou procurando, vejo os discos que são mais vendidos, falo com os jovens para ver quem está na berra. A minha neta também me dá umas dicas.”

Pois é: quando se conhecem os métodos, percebem-se melhor os resultados.

Horizonte imediato

Fotografia de George Webber

Todos os dias me apoio em qualquer coisa
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave

surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão
António Ramos Rosa


quarta-feira, 19 de julho de 2017

The weighing

Fotografia de David Goldblatt

The heart’s reasons
seen clearly,
even the hardest
will carry
its whip-marks and sadness
and must be forgiven.

As the drought-starved
eland forgives
the drought-starved lion
who finally takes her,
enters willingly then
the life she cannot refuse,
and is lion, is fed,
and does not remember the other.

So few grains of happiness
measured against all the dark
and still the scales balance.

The world asks of us
only the strength we have and we give it.
Then it asks more, and we give it.
Jane Hirshfield



terça-feira, 18 de julho de 2017

Mulher



Um dia irei tirar essa mulher de dentro da flor,
despi-la das suas pétalas, e emprestar-lhe o véu
da madrugada
Nuno Júdice

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A leitora



A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,

branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.
António Ramos Rosa



domingo, 16 de julho de 2017

Bastards

Daqui



And I’m sure I’ll kiss my share of frogs
Before my time is done
The world is full of bastards
And I’ve date everyone


sábado, 15 de julho de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#152)

Amiga é um termo dúbio

Daqui


Ontem as águas estavam serenas
Mantinham a distância certa
Éramos cúmplices apenas
Sem ter o coração alerta

Amiga era um sentimento
Sem fazer calor nem frio
Tudo entre nós era simples
Como as coisas em pousio

Foi qualquer gesto que fizeste
Qualquer coisa que disseste
Que mudou a situação

Amo-te sem dares por nada
Eu próprio não dou por isso
Cada olhar cada risada
É um terreno movediço

Dou passos de sapador
Tão assustado e confuso
Nesse campo minado do amor
Sou o mais vulgar intruso

Foi qualquer gesto que fizeste
Qualquer coisa que disseste
Que mudou a situação

Amiga é um termo dúbio
Desses que a língua contém
Vê-se a linha de fronteira
Dá-se um passo e está-se em terra de ninguém
Rui Veloso


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Califado

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Na passada terça-feira, foi dada como “informação confirmada” a morte do líder do Daesh, Abu Baqr al-Baghdadi.

Nascido em 1971, al-Baghdadi dizia-se descendente directo de Maomé. Como conta Loretta Napoleoni no seu livro “A Fénix Islâmica, o Estado Islâmico e a Reconfiguração do Médio Oriente”, o Estado Islâmico quando se auto-proclamou califado, em 2014, ocupava uma área maior do que a do Reino Unido e era uma bem sucedida encarnação do radicalismo sunita, de aparência medieval mas que usava com mestria as ferramentas da globalização e as modernas tecnologias.

Apesar de nunca ter atingido os níveis de riqueza da OLP, o Estado Islâmico no seu apogeu angariava dois milhões de dólares por dia na venda de petróleo, a que se somavam taxas a empresas, rendas obtidas pelo controlo de barragens, vendas de armas e contrabando variado (essencialmente para a Turquia e o Iraque). Foi descoberto por acaso um “relatório e contas anual” do Daesh, um documento meticuloso que chegava ao registo em “pormenor do custo de cada missão suicida”, elaborado “de acordo com as mais sofisticadas técnicas de contabilidade”. Ao fim e ao cabo, al-Bagdhadi dirigia uma multinacional terrorista com a pragmática de “uma multinacional pujante e legítima.”

Para já, duas ideias para estes dias que parecem ser do fim do Daesh:
— o califado - enquanto nostalgia e mitificação do Estado Islâmico original do século VII - vai ressurgir com outra pele qualquer;
— o sectarismo que impede a paz e a coexistência étnica e religiosa no Médio Oriente já tem um próximo episódio anunciado para 25 de Setembro, se o líder curdo Masoud Barzan teimar com a ideia de fazer um referendo independentista naquele dia.

2. Esta coluna saúda a eleição do novo presidente do Instituto Politécnico de Viseu.


João Luís Monney Paiva vai ter agora que normalizar as relações do IPV com as câmaras de Viseu e Lamego, relações que foram afectadas durante este longo processo eleitoral.

Do not stand at my grave and weep

Daqui



Do not stand at my grave and weep,
I am not there, I do not sleep.
I am in a thousand winds that blow,
I am the softly falling snow.
I am the gentle showers of rain,
I am the fields of ripening grain.
I am in the morning hush,
I am in the graceful rush
Of beautiful birds in circling flight,
I am the starshine of the night.
I am in the flowers that bloom,
I am in a quiet room.
I am in the birds that sing,
I am in each lovely thing.
Do not stand at my grave and cry,
I am not there. I do not die.
Mary Elizabeth Frye





quinta-feira, 13 de julho de 2017

Vazio

Daqui


Pedra a pedra, esvazio este lugar onde outrora
nos encontrámos. Deixo-o limpo de versos e de
sílabas, seco de lágrimas e de suor, silencioso
como o espaço de onde as aves se ausentaram.

Depois, pedra a pedra, construo a memória
em que te vou guardar. Ergo-a desse campo
onde te abracei, sobre folhas e flores, ouvindo
a música do vento por entre ramos e sombras.

«Mas para que a queres?» perguntas-me. «Sem
mim, sem o calor da minha voz, sem o corpo
que amaste?» E pedra a pedra volto a esvaziar
tudo, como se estivesses aqui, sem nada encontrar.
Nuno Júdice


quarta-feira, 12 de julho de 2017

A dor tem um elemento de vazio

Daqui


A Dor - tem um Elemento de Vazio -
Não se consegue lembrar
De quando começou - ou se houve
Um tempo em que não existiu -

Não tem Futuro - para lá de si própria -
O seu Infinito contém
O seu Passado - iluminado para aperceber
Novas Épocas - de Dor.
Emily Dickinson
Trad: Nuno Júdice


terça-feira, 11 de julho de 2017

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Before

Pintura de Andrea Joyce Heimer

No shoes and a glossy
red helmet, I rode
on the back of my dad’s
Harley at seven years old.
Before the divorce.
Before the new apartment.
Before the new marriage.
Before the apple tree.
Before the ceramics in the garbage.
Before the dog’s chain.
Before the koi were all eaten
by the crane. Before the road
between us, there was the road
beneath us, and I was just
big enough not to let go:
Henno Road, creek just below,
rough wind, chicken legs,
and I never knew survival
was like that. If you live,
you look back and beg
for it again, the hazardous
bliss before you know
what you would miss.
Ada Limón


sábado, 8 de julho de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#151)

French



Got all the black bicthes mad cuz my main bitch vallina
She tryna to get her groove back like stella, grab the umbrella
When it comes to your perception of my shit I'm hellen keller
When it comes to the perfection of my shit I know you smell the RECTUM
I'm like a chromosome I always ex 'em
Like wolverine steps in attackin a deadly weapon
I'm openin a church to sell coke and led zeppelin
And fuck mary in her ass... ha ha... yo
I'm fucking Goldilocks up in the forest
In the three bear house eating their muthafuckin' porridge
I tell her it's my house, give her a tour
In my basement, and keep that bitch locked up in the storage
Rape her and record it, then edit it with more shit
Octopussy special effect, the wet bitches be banging
And please never disrespect my set with cannon
Hanging from my neck like it's a muthafuckin' circus

You little niggas better check my French
You getting money better check my French
Ahh, what time is it, huh? Check my French
If you cop my shit you better check my French, muthafucka
Im makin moves check my French
I speak English but check my French
Your hoe be on my penis she check my French, bitch



I guess I left my dignity up in the cupboard
Cause every girl im digging, when im digging in her pussy
Im never using a rubber
But fuck it I guess I gotta steach it out like it was flubber
And leave it drippin green and red like it was double cheese buggers
Chewin on cum like bubble gum from hubbard
This bitch knew dick like Bubba knew shimp
(Laughing)
Yo Im seventeen, already sniffin blow
I tell my friends its asthma every time I start to itch my throat
I got a new show for MTV, "Pimp My Boat"
Because some bitch said my semen was dirty, thats silly ho
The most that they can do is find me, Im hiding
Somewhere where Chris Stokes cant find me
Oh no Mister Stokes I dont like misters no
Dont tell R. Kelly where my sister goes

You little niggas better check my French
You getting money better check my French
Ahh, what time is it, huh? Check my French
If you cop my shit you better check my French, muthafucka
Im making moves check my French
I speak English but check my French
Your hoe be on my penis she check my French, bitch

Yo you little niggas better check my french
I got allstars and you can check my bench
Left Brain super three, Creator Ace puttin the expressions in music and create the face
Of the picture, punchline figured out ahhh I get you
No you dont nigga so why dont you go figure
You seem confused anyway, pressure enough?
You the type to do the choke when the pressure is up
The pressure is to pump and pressure is us
Bitches havin eargasms and the pleasure is us
Niggas wanna B.O.F. and write letters to us
Competition's competition, yo you better than us?
Digest what Im sayin? I dont think so

We sick shit, throw it up down in the sink yo
The odd niggas are beginning to spill these pink hoes
We think sorta odd so we think so
Crusin in my go kart at walmart sellin cupcakes
Go ahead admit it faggot this shit is tighter then buttrape
That evolves Ballpark franks and silver duct tape
Pornos and hormones and boxes of DiGiorno
You homos is loco your prolly drinking cuervo
With some vatos with the door closed watchin zorro you homos
Tyler, The Creator



sexta-feira, 7 de julho de 2017

Nascidos no século XXI*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Como diria La Palice, quanto mais tarde se nasce, mais novo se é. E, como é melhor ser novo do que ser velho, a “graça do nascimento tardio” é sempre boa, embora o implacável tempo nunca pare. Já não falta muito para os primeiros bebés do século XXI chegarem à maioridade e começarem a guiar nas rotundas e a votar.

Eles sabem pouco da história do século XX, não imaginam sequer como era o horror do fascismo e do comunismo. Os bebés do século XXI nascidos na Europa tiveram a “graça do nascimento tardio” de que falou Helmut Kohl, recentemente falecido. O arquitecto da reunificação alemã referia-se aos alemães nascidos depois da morte de Hitler que já não tinham nada a ver com os crimes nazis. Helmut Kohl quis sempre “uma Alemanha europeia e não uma Europa alemã”, porque sofreu na pele a maldade dos nacionalismos beligerantes.

O veneno do populismo nacionalista, que quer outra vez levantar a grimpa à esquerda e à direita, tem que ser derrotado. Para isso, é preciso passar a memória destes pesadelos aos nascidos no século XXI.

Ana Catarina Mendes e Ângelo Moura
Fotografia do FB do candidato socialista à câmara de Lamego
(editada) 
2. Por volta de 1917, mais ano menos ano, uma comissão de melhoramentos para a Messejana chegou-se junto de Brito Camacho, um influente político da primeira república, com uma lista de reivindicações para aquela simpática terra do interior alentejano. Brito Camacho perguntou-lhes, impassível, se eles não queriam também uma praia, ao que os alentejanos responderam: «arranje o sr. doutor a água, que a areia arranjamos nós.»

Um século depois, uma comissão de melhoramentos para Lamego acaba de chegar junto de Ana Catarina Mendes, uma influente política da terceira república, com uma lista de reivindicações para aquela simpática cidade do interior duriense. Ana Catarina Mendes perguntou-lhes, impassível, se eles não queriam também uma maternidade, ao que os lamecenses responderam: «arranje a sra. doutora a sala de partos, que os bebés arranjamos nós.»

Paz d'alma



um rosto que chegava até junto de mim de nicarágua
um rosto que me vinha de qualquer das indochinas
num mundo onde o homem é um lobo para o homem
Ruy Belo


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Micro-Escolas*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente em dez anos, em 6 de Julho de 2007

1. É muito difícil dar aulas a uma turma de quatro anos de escolaridade. Não é fácil gerir um grupo de alunos, dos cinco aos dez anos, que comem Chocapics logo de manhã e ficam cheios de energia e que, ainda por cima, têm a cabeça cheia de enredos dos “Morangos com Açúcar”. É complicado pôr, ao mesmo tempo e de uma maneira organizada, um grupo a aprender as primeiras letras, outro a estudar os órgãos do sistema digestivo, outro a fazer divisões e ainda outro a calcular perímetros ou a conjugar verbos. 

O resultado é óbvio: nestas turmas os alunos aprendem pouco e os professores saem exaustos e frustrados ao fim de cada dia de aulas.

As micro-escolas deviam ter sido fechadas há 20 anos. Estão a sê-lo agora. Vale mais tarde do que nunca. Não gosto nem um bocadinho do messianismo político da Ministra da Educação, mas devo reconhecer que, neste assunto, ela tem estado bem.

A Assembleia Municipal de Viseu aprovou, há uma semana, uma Moção a exigir pelo menos uma escola do primeiro ciclo em cada freguesia. Esta é uma “regra” incluída na Carta Educativa do concelho e que nenhum partido teve (ou tem) a coragem de contestar. Ninguém quer sarilhos com os Presidentes de Junta.

Resultado desta política timorata: no concelho de Viseu vamos continuar a ter micro-escolas sem massa crítica, nem recursos, nem qualidade pedagógica, nem futuro.

2. Encontrei num blogue estas palavras de Gaston Bachelard:



Banville afirma que quando
a vela de Camões se apagava
o poeta continuava a escrever o poema
à luz dos olhos do seu gato.
Resta-me acabar assim este Olho de Gato, desligar o computador e ir respirar fundo o perfume das tílias…

Uma girls band é sempre melhor que uma boys band

terça-feira, 4 de julho de 2017

respiro-te devagar

Fotografia de Panteha Abareshi



respiro-te devagar
tenho medo da memória
da música e da inclinação da garganta

suspensos os dedos
curvos os beijos
o teu peito podia ser um navio.

então é devagar que eu chego
ao abrigo das palavras
debaixo de chuva
perdida no bosque.

não acordes. a tua presença é mais doce
quando te beijo doce. simplesmente.
Isabel Mendes Ferreira


segunda-feira, 3 de julho de 2017

O amor em visita

Fotografia de Lois Greenfield



Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.

E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.

Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.
Herberto Helder