quinta-feira, 13 de abril de 2017

Na véspera de não partir nunca

Daqui


Na véspera de não partir nunca
Ao menos não há que arrumar malas
Nem que fazer planos em papel
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos,
Para o partir ainda livre do dia seguinte.
Não há que fazer nada
Na véspera de não partir nunca.
Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego!
Grande tranquilidade a que nem sabe encolher ombros
Por isto tudo, ter pensado o tudo
É o ter chegado deliberadamente a nada.
Grande alegria de não ter precisão de ser alegre,
Como uma oportunidade virada do avesso.
Há quantas vezes vivo
A vida vegetativa do pensamento!
Todos os dias sine linea
Sossego, sim, sossego...
Grande tranquilidade...
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas!
Que prazer olhar para as malas fitando como para nada!
Dormita, alma, dormita!
Aproveita, dormita!
Dormita!
É pouco o tempo que tens! Dormita!
É a véspera de não partir nunca!
Álvaro de Campos



1 comentário:

  1. Cada um Cumpre o Destino que lhe Cumpre
    Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
    E deseja o destino que deseja;
    Nem cumpre o que deseja,
    Nem deseja o que cumpre.
    Como as pedras na orla dos canteiros
    O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
    Que a Sorte nos fez postos
    Onde houvemos de sê-lo.
    Não tenhamos melhor conhecimento
    Do que nos coube que de que nos coube.
    Cumpramos o que somos.
    Nada mais nos é dado.

    Ricardo Reis, in "Odes"
    Heterónimo de Fernando Pessoa

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